6 de maio de 2011

“Argumentação”

1. Fazer cara feia
2. Acusar de ter causado sofrimento
3. Anunciar motivos para a impossibilidade de prosseguir a discussão

14 de abril de 2011

Pequena sabedoria moral

Encontrar relações é talvez o que há de mais honroso, digno e até importante para o investigador do que quer que seja. Procurá-las, no entanto, costuma constituir um erro.

6 de abril de 2011

Por que não sou, como tu, cartesiano

ou
Por que não me aflige ter por meu isso a que chamas preconceito

 

Tu me dizes:

“Ouve-me, pois ao te recusares a ouvir estás sabidamente sendo intolerante e preconceituoso: tens de me ouvir para saberes o que quero dizer e como raciocino para, só então, poderes tu pensar a respeito e finalmente falar o que pensas”

Digo-te que Não, não preciso ouvir-te para saber o que te passa na mente, não preciso ouvir-te para saber o que penso acerca do que pensas.

Isso porque não partilho da tua crença nos raciocínios, nessa arte abstrata de ouvir-pensar-falar a que chamas “debate”, como se houvesse uma dimensão separada de pensamento – um pensamento à parte - que respeitasse ordens, fizesse fila indiana para rebater um a um “argumentos”, também eles “logicamente” expostos --  como se os pensamentos fossem lógicos! Como se os pensamentos algo respeitassem! Como se os pensamentos pudessem ser, por um momento, apenas racionais.

O que existe, nesse teu falar, é exatamente esse imperativo ordeiro, organizador, enrijidecedor, essa tua vontade de petrificar as minhas palavras, como se elas tivessem um sentido além delas próprias, como se elas significassem algo mais do que uma instantânea, imperfeita, insuficiente tentativa de comunicar algo bem maior, e ao mesmo tempo menor, que se passa em mim e que só por um acaso histórico da nossa espécie é que eu comunico usando esses sons ou essas sílabas, conjunto de símbolos, de signos, que só por um acaso não são em alemão, ou feitos como estalos da língua, ou a partir dos membros inferiores do meu corpo, só por um acaso  é que eu falo contigo usando ar modulado no meu pescoço e representações de sons sob a forma de conjuntos de 27 símbolos e mais alguns outros. Não há nada de eterno ou correto ou verdadeiro nesse falar, nessa forma de comunicação, não há nada que a torne mais correta ou mais eficaz do que murros em pedras, ou olhares flamejantes.

O que eu te digo é que pensas que, dentro desse sistema de comunicação, inventado como todos os outros, podes criar um outro sistema, de “encadeamento lógico”, quer dizer, de correspondência de conceitos (símbolos) a mecanismos, como se esse seu sistema inventado de linguagem pudesse ser submetido às mesmas leis e regras que regem o caimento de uma pedra, ou a movimentação da luz, e eu te digo que isso é falho. Digo-te que o que passa em tua cabeça, por mais que momentaneamente tome a forma de símbolos, por mais que penses poder compreender-lhe a essência e o significado, isso que passa em tua mente não é senão um amontoado de fluxos desordenados e simultâneos que não servem a outro propósito senão o de regular o teu próprio corpo, se é que a isso servem.

O que quero te dizer é que não existe algo que está além desse mundo, que tu não és um ser que pensa como se estivesses apartado do mundo, dele distanciado; tu és um ser, um corpo, um corpo que pensa, um corpo que sente, um corpo que age. E é besteira tua achar que tu podes parar de ser corpo por um tempo e passar, por alguns minutos, horas, ou anos, a raciocinar, a pensar, a pensar isso e não aquilo, a pensar e não sentir…. essas distinções sequer existem! Ao mesmo tempo que se pensa, se sente; a mesma “coisa” que sente, pensa. E, NÃO, eu não vou esperar-te falar essas merdas todas para só então eu me colocar à frente e enunciar, “lógica e ordenadamente”, aquilo que pensei “cuidadosamente” a respeito de tua fala. Como se tua fala pudesse ser separada do restante do teu corpo! Como se exitissem palavras sem voz, conteúdo sem forma, mente sem corpo!

Se, quando falas, percebo em ti um ódio mais profundo do que talvez tu mesma sejas capaz de perceber, se percebo-te o desprezo por certas coisas, ou os teus dentes a tentar amedrontar-me, eu respondo! E respondo imediatamente! Também eu hei de me comunicar dentro dos limites do meu próprio corpo, também eu lançarei-te olhares fulminantes e comunicativos, também eu sentirei amargura e acidez no paladar, também eu cuspirei palavras quando assim elas forem melhor apresentadas, quando assim elas melhor significarem aquilo que penso-sinto-raciocino-acho-acredito-percebo-encontro-sou, ou quando assim elas quiserem sair de mim – afinal que sou eu senão produto da comunicação do meu corpo, muito mais do que dela causa ou mestre?

Porque a língua não é para mim maior autoridade do que os olhares ou a rigidez dos músculos, é que eu desrespeito a tua forma de comunicação. É porque não vejo, nas palavras, grandes coisas ou, pelo menos, não maiores do que em qualquer outra coisa desse mundo. E nem penses em chamar-me preconceituoso, em atribuir meu pensamento a uma teoria tal ou tal; é assim que o mundo se me afigura, esses pensamentos floresceram em mim e em mim encontraram um empresário, um intérprete, um cultivador. É assim que eu penso, é isso que eu acho, de tal modo eu sinto, tal eu sou. E isso não me torna preconceituoso a todas as outras formas de pensar, isso não me lhes torna avesso ou contrário, isso só me torna eu.

E o que eu te convido, minha irmã, é a pensar o que te torna tu. A pensar: por que raios penso assim? por que meu pensamento se configura desta forma e não daquela outra? por que um debate ordenado e regrado funciona melhor, ou tem mais mérito, que uma troca de socos, ou uma briga de bar, ou uma mordida de um cachorro?

E eu te pergunto, especificamente a ti pergunto, de onde vem essa tua “calma”, esse teu “ponderar”, esse teu “cuidado”, essa tua “sensibilidade”, essa tua “suavidade”? De onde vem o teu amor pelas palavras? Por que te encontras às voltas com mais livros do que pessoas? Por que escolheste o caminho das ciências e dos conhecimentos? Por que a filosofia? Por que essa filosofia?

Eu digo. EU DIGO. Tu foste para esses lados mais calmos e serenos da existência, às mais contemplativas vias de ser numa cidade grande; caminhaste em marcha reta e constante, desde a infância até hoje e amanhã, em direção à Filosofia, ao Grande Pensar, porque tu tinhas medo. Tu passaste a ler livros, não porque eles de fato te seduziam e te eram o mais extraordinário dos passatempos. Não. Se pudesses, terias ido brincar com tuas amigas e teus amigos – de que tinhas, ó!, tanto medo –, se pudeses, terias ido atrás delas quando elas se perderam naquele pique-esconde, naquela mesa do bar. Se pudesses, terias brincado de boneca e jogado bola; se pudesses, nunca terias recusado aquelas vibrações, aquelas pitadas na barriga, os suspenses de não saber o que vai acontecer, as palpitações indevidas do coração, a emoção da aventura, escalar aquele morro proibido, meter-lhe a mão na cueca, encostar os lábios nos dela,  mas não podias. Foi-te “negada” a companhia de teus semelhantes, não lhe eras “adequada”. Não te encontravas em suas brincadeiras, não concebias como fazer delas parte. Não conseguias extrair prazer da convivência com seres humanos. E te ías fechando, em ti, com teus livros, fiéis e inofensivos escudeiros, envaidecedores; eras estimulada por alguns adultos, que estranho! tua fuga parecer-lhes tão alta, tão estimável. Tu foste graditavamente te isolando do resto dos companheiros, colegas; não os tinhas, não os querias por perto, não os desejavas e criaste o mito de que eles também tampouco te desejavam, e muitos outros mitos. Criaste, por exemplo, o mito de que haviam sido eles a te afastar, e não o contrário! Acreditaste no mito contado de que os livros oferecer-te-iam uma existência superior e mais digna, que nas palavras se encontravam verdades e no mundo “normal”, dos “outros”, nada haveria de proveito. Por isso hoje tu pensas que o teu jeito de discutir é superior e deve ser seguido, por isso tu acreditas tão cegamente na linguagem das palavras. Porque elas são teu abrigo, teu refúgio. Foste à filosofia por covardia, foste à filosofia porque não achaste outro lugar que te acolhesse. Mas tu não podes fugir tanto, não podes fugir do próprio corpo, não podes fugir do fato de que és corpo! Não podes fugir do fato de que foram ciúme, inveja, muita inveja, que te levaram à filosofia, e não amor e vontade, e não vocação e destino. Tu não eras destinada à filosofia. Tu eras dela carente, aproximavas-te dela como um mendigo o faz a um transeunte. Tuas carências, invejas, ciúmes, tudo que não viveste na infância, adoelscência e que continuas a não viver agora que és adulta, continuam em ti; pior, são teus alicerces, as bases do teu pensar, do teu viver. Mais tarde vens e me perguntas “E por que é que só me apaixono por garotos medíocres e sociais, nunca do tipo científico ou pensador? Por que é que me apaixono por aqueles a que mais odeio?” Oras, pois, é a estes garotos baixos que tu queres – é a eles que sempre quiseste! Larga dessa tua arrogância de achares que és nobre, que sempre pertenceste às artes e às ciências! Tu não é nobre porra nenhuma. Tu és um bando de sentimentos podres mal resolvidos, que te habitam a cabeça, causando-lhe enxaquecas. Tu és um câncer em formação, uma maçã envenenada, uma maria-ninguém, uma filósofa de merda, porque covarde.

Mas pelo menos agora não estás sozinha.

Sem amigas, sem companheiros, mas cheia de olhares invejosos, congratulações de autoridades do saber, um cheque gordo das tuas pacientes.

Espero que algum dia escolhas viver.

5 de abril de 2011

Estilo "rasgante"?

Azar o teu seres rasgável.

14 de março de 2011

(1) Resumo da ópera

Sentir-se mal não te torna melhor.

1 de fevereiro de 2011

Anônimo disse...

Hoje eu olhei pra noite e senti saudades de você.

Todas aquelas estrelas, perdidas, caóticas, competindo com as nuvens por um lugar no céu... Tá frio que nem no inverno. "Aquele" inverno, sabe?
Quando nenhum cobertor sacia, quando todo sono do mundo não é mais forte do que a vontade de ficar acordado - acordado meesmo, sabe? Quando música nenhuma é mais intensa do que aquele espírito que te ronda a cabeça, murmurando saudades, sorrisos, textos que, de tão bons, não podem ser escritos, imagina lidos.

Eu adoro quando seu sorriso me engana. No proximo inverno você me chama. Talvez possamos passá-lo juntos. Sei lá. Eu gosto de você.

8 de novembro de 2010

26 de outubro de 2010

Os dezoito anos

Como se faz política?
Como se lê Nietzsche?
O que é a saúde?
Qual a diferença entre prazer e alegria?
O que se entende por sonho?
Como sentir o que se pensa?
Como se faz amor?
O que é a amizade, e como se a recupera?
Estar só é ruim.
Música eletrônica é bom, mas nem tanto.
Dançar é bonito, e ainda é o centro do universo, mas há mais de um jeito de dançar. Transando, por exemplo. Chorando, por exemplo.
O que significa responder, reagir, receber?
Existir significa respirar e mais um tanto de coisas.
Dormir, chorar, jogar videogame.
O que é a escola? É o que restou da minha alma. O que se me tornou sonho.
O que o faz apaixonado? - É o que eu sinto: são esses bandos de sóis que insistem em brilhar, para além de bens e males, com a intensidade que se estampa em meus olhos.
O que o faz triste? É isso, tudo isso-aquilo que me tiraram.
Como resistir? Juntando-se. Em tempos, em espaço, em olhares, em linhas, em beijos.
E crescer? Crescer é difícil, sempre. Se não é difícil, não é crescimento.
Difícil!, disse eu, não penoso.
E os textos, a sua literatura? –Pra que serve?
É. –Bem, pra nada.
Pra nada? –É, pra nada.
Mas algum dia vai servir? –Sim, quando eu conseguir fazê-la pra outros, quando eu consigo fazê-la pra outros. Aí, sim.
Os outros? – É.
Cansaço. Muito cansaço nessa vida.
Mas, ainda assim, ainda assim… Ainda assim. Eu, vivo.
Mãe, vai ter outro ano de 1999?
Não? Mas… isso significa que essas alegrias, felicidades, essa minha risada e a piada do Luiz Gustavao – eu nunca vou tê-las de novo? Nunca hei de sentí-las novamente? É isso que significa ressentir? Tentar sentir de novo e, fatalmente, não conseguir?
Pai, por que você precisa continuar fazendo obra? Chega! Eu quero jogar bola contigo. Investimento? Mas eu não quero ir pra Noruega! Mamãe? Você faz isso por ela? Mas não parece… Desculpa. Não te peço mais.
O que? Mas, mas… Não, eu não sei se vi nada de diferente nela, não, pai. Ahn? Como assim ‘mais feliz"’? Por favor! Mas, pai! Dói muito! Não quero.
O que? Se tá tudo bem? Sim, claro, nada de mais. E você? Pois é, tenho ouvido outros tipos de música agora. Pink Floyd e tal. Videogames? Claro.
A escola sempre foi muito fácil, mas tá tudo bem, sim. Meio chato, mas acho que sempre é, né?
Que me desafiam socialmente? Como assim?
Ah, é legal ouvir, assim, que não é algo inato.
Volta pra mim?
Lembra quando a gente não prestou atenção na aula de história, porque tava discutindo Capitalismo e Socialismo?
Lembra quando você me batia com a lancheira?
Lembra quando a gente jogava bola? Você era rápido, você driblava, você fominha, mas era muito bom.
Lembra de antes, quando a gente era menor, e que a escola era de fato Nossa?
Lembra de Cabo Frio? De quando choramos todos juntos? De quando dormímos juntos? De quando acordamos junto do sol, à praia?
Lembra quando eu bebi pela primeira vez? Lembra…. das coisas ruins? Lembra de tudo o que eu disse? Eu me arrpenedo, sim. Só não sei se acredito nisso de arrependimento.
Ah, eu te amei.
Não, nunca aconteceu! Responsabilidade?
O que é a responsabilidade? Por o que sou responsável?
Pelo mundo?
A música! O violão! As notas! Clarice!
Olha eu cantando! Eu canto chorando, como se cada linha fosse uma lágrima, a ser expulsa, a ser sentida, algo que não cabe nem pode caber em mim.
Queria que você tivesse me cantado.
Ei, você acha que eu posso ser seu amigo? Eu não sou muito bom nessas coisas.
É assim que é. Não.
Dezoito anos? Mais parecem dezoito eternidades.

Talvez sejam. Talvez sejam.

23 de agosto de 2010

Abrir os olhos

O amor começa por uma metáfora,

 

mas, embora chovesse, não voltava o amor à casa. A chuva, que  antes causava vibrações ao simples estalo dos primeiros pingos, não é senão um compasso fora de ritmo agora, que tenta contar os tempos de um coração cuja bateria não permite mais a regência do corpo – um maestro com mãos desobedientes e uma vontade de sucumbir quase irrefreável.

Chovia e podia, assim, ver no cheiro de terra molhada como que a essência de um amor que já morrera. Via-o diluído em atmosfera, fumaça de vida no balançar das árvores, neblina perdida nos sopés de montanhas… Sempre as metáforas.

É por elas que seu amor, agora ex, havia se delineado, num encontro de quatro ouvidos que ouviam, no bater do mar, não as ondas quebrando, as espumas se formando, a areia se molhando – mas uma sincronia com o infinito, um êxtase sonolento, uma necessidade de se beijar.

Creio que não percebiam, à época, que quando se diziam ‘eternos’ (e, ó, com que freqüência o faziam!) não falavam de si, tampouco do seu amor. Falavam é das metáforas que haviam criado, estas sim, eternas peças de um universo bem maior que eles dois…

Mas nada disso lhe passava à cabeça. Naquele dia, era insensível às metáforas - uma tentativa de se tornar insensível ao amor que elas causam. Por isso, quando um pingo lhe caiu no ombro, ele não só fez questão de puxar um guarda-chuva, como também murmurou palavrões direcionados ao céu.

Talvez, se ele enxergasse como eu, teria visto que não demoraria muito para que o próprio corpo projetasse em si as metáforas que ele agora evitava: não demoraria muito e ele veria no rosto chover o mar salgado que os beijara anos antes.

Na semana passada, quando você me chamou para conversar, eu fiquei assustado. Achei que ia ser ruim, julgava-me incapaz de reviver aquelas vibrações. Mas não. O que aconteceu foi que eu pude reconciliar a paz com as antes-nossas metáforas. E o amor que eu tinha por você, que tenho e que sempre terei, continua ali eternizado no universo – afinal, ele voltou para casa.