10 de outubro de 2016

O poeta alter-erótico

Pelos outros apenas na superfície: todos os túneis levam ao ego.

3 de outubro de 2016

Entrar e sair

Ao amor precede-se um mergulho e sucede-se um vômito.

Bem-aventurada simplificação

A saúde poética é feita de dois verbos: chacoalhar-se e rir-se.

Consolo para os que se sentem improdutivos

Mesmo o poeta que escreveu cinco mil poesias precisou de cinco mil dias para vivê-las — antes que as pudesse escrever.

Os pré-requisitos do prazer

Querendo dançar, criou a própria música.

Para a liberdade um treino

A criança protegida de seus próprios erros comete-os em demasia quando, adulta, desconstrange-se de suas antigas correntes. 

Escrever para se limpar

Poucas coisas são mais tristes, para o poeta, do que ver a sua energia criativa sendo drenada para mesquinharias miseráveis. Fazer o quê: um ralo entupido precisa de um jato forte de água.

A felicidade como armadilha

O dom da resiliência não foi distribuído a todos na Criação. Aqueles de quem os escudos do Não foram subtraídos precisam se precaver inclusive na alegria — sob pena de confundir o sentimento de grandeza com o de invencibilidade. A destemidez precisa ser acompanhada de auto-respeito — para que as armas da potência não mirem os próprios pés.

8 de agosto de 2016

Um idiota no deserto

Desesperado de sede, cuspiu pra cima e fechou os olhos. 

7 de agosto de 2016

As renúncias cobram juros

Exercitar a força não cansa; pelo contrário, revigora. Os cansados são sempre fracos. 

17 de julho de 2016

Uma criança

A conclusão óbvia ao se deparar com quem se sente atacado por uma crítica é que se trata de alguém que nunca foi alvo de uma auto-crítica.

12 de julho de 2016

A defensividade é um narcisismo

Meça a alma pela quantidade de defesas que a habitam. Quanto menos, maior.

29 de abril de 2016

Universalidade de cada pedacinho

Nem todos os textos são metáforas, mas todos são metonímias.

5 de abril de 2016

Mesmo os deuses oram

Há coisas que um escritor não consegue fazer. É aí que entram os amigos.

20 de março de 2016

Os que desmancham

Após uma discussão intensa com alguém que se ama, existe um momento de muita clareza que merece ser melhor estudado. Nele, as faculdades mentais se afiam e o turbilhão de emoções que antes nos envolvia dá lugar a uma desesperança quase-cínica. A desesperança sanitiza o pensamento, rompendo o funcionamento utilitarista típico, e obriga-nos a uma sinceridade desinteressada em qualquer coisa que não em si mesma. Nossos amores, afinal, crêem-se sinceros e, quando ameaçados, procurarão a sinceridade que lhes deu origem como se a própria existência deles dependesse disso — e depende. A sinceridade precede o amor. Quando se esgota as possibilidades de tratar os nossos objetos de interesse — um relacionamento, um amor, uma amizade, um emprego — como meros objetos, passa-se à análise do sujeito, isto é, de si próprio. Se houver coragem, os cálculos de risco-e-recompensa terão aí se desligado, sobrando em nós apenas o compromisso autêntico com a verdade. Já não se tratará de ganhar uma discussão ou tampouco de maquinar contra si uma narrativa perdoadora ou tranquilizante. Não se tem mais como objetivo livrar — nem a si nem ao outro — dos piores julgamentos, das piores valorações. Morrem os salvadores e os mártires. Fica a liberdade — de julgar(-se), de odiar(-se), de matar(-se). Desobrigado do orgulho e da vergonha, nasce um eu mais profundo, mais digno e mais certeiro. Pode haver raiva, ressentimento, medo e insegurança, mas uma vez nesse estágio de clareza esses sentimentos já não balançam nem perfuram. As frases ditas e ouvidas ecoam nas paredes cavernosas de nossa interioridade, adquirindo o peso devido ou sumindo-se na irrelevância. Defrontamo-nos com as chamadas "verdades duras" do que nos foi dito e avaliamos, com cada centésimo de nossa força mental, o quanto são relevantes, por quê, e o que faltou-se dizer. Reformulamos a imagem que temos de nós mesmos, a fim de incorporar as novas informações e relacioná-las às anteriores. Podem ter-nos dito, por exemplo, que havia frieza no nosso olhar e que isso denotava falta de respeito. A reformulação de si que eu estou descrevendo não consiste em adicionar ao currículo da vida — isto é, àquilo que se entrega aos outros quando deles se deseja algo — uma etiqueta cautelar: 'Frio e desrespeitoso'. Tal coisa seria uma narrativa aviltante e orgulhosa da própria ruindade. Mais provável é que a introspecção de que falo resulte na descoberta de que aqueles olhares moribundos significavam, não um desinteresse desrespeitoso, mas uma inveja coberta de vergonha que, como a criança, para não ser vista tapa os próprios olhos. A descoberta de um tal sentimento enterrado, juntamente dos motivos de seu enterramento, há de reconfigurar o evento referido e também outros, passados e futuros. Informado, agora, da própria inveja, abre-se o caminho possível para uma conversa entre dois adultos, em que se revele aquilo que antes não se podia revelar. Eu tinha inveja de ti, e preciso que me perdoes. Meus olhos foscos não eram senão de medo de ser descoberto. Não pense, tampouco, que uma investigação como essa resulte sempre em descoberta dolorosa e auto-combativa: igualmente comuns são as descobertas da própria inocência e até mesmo da própria força — além, é claro, da descoberta das falhas no outro, de suas insuficiências e de sua humanidade. Sim, as brigas de relacionamento são capazes de desencadear maratonas pensamentosas como essa e não é preciso dizer o quanto nesses momentos se aprende. Não conseguimos, porém, manter funcionamento de tão alta octanagem o tempo todo. Em geral, necessitamos de urgência e traumas. É tarefa do escritor propiciar reflexões como essa, reconfigurar os sujeitos que lêem, desaliviá-los de qualquer insinceridade. Devemos ser como as ex-namoradas: cruéis e indiferentes. E também como os pais: carinhosos e firmes. E como os amigos: presentes e alegres. Crescer inclui quantidades nada agradáveis de sofrimento. Responsabilizamo-nos não só por fazer crescer, mas também por incutir amor pelo crescimento. De nada adianta fazer um garoto crescer 10 anos em 1, se durante os próximos 20 ele ficar paralisado. Desesperança em demasia, afinal, paralisa e mata. Caminhemos, meus amigos. Escrevamos. Cresçamos. 

Apenas os destinos retilíneos são previsíveis

Nosso caminho é feito pelas curvas que escolhemos tomar, mas não podemos enxergar o que há além das curvas.

Perseverança

A quantidade de solidão de que precisamos é sempre um pouco maior do que a que cremos ser capazes de suportar. 

Conselho de escritor

É a coragem, e não o amor, que preencherá os vazios do teu coração.

5 de fevereiro de 2016

Escrever sem bússola!

Nada contra quem escreve mau. O problema sempre foi quem escreve bom.

Merecemos piada melhor

O cientista torna-se filósofo quando se cansa da verdade.