23 de novembro de 2016

Brevidade na desrazão

Um pequeno jejum — como uma pequena loucura — nunca fez mal a um pensador. O risco que os religiosos correm é o de tomar asco da comida, isto é, de acreditarem em seu jejum.

Receita para ser filósofo

2. Caminhar.

Bobeira

Escrever sobre os acertos é um luxo. A maioria dos escritores só escreve quando erra.

Por onde voa Dionísio

Escrevemos bêbados o que deveríamos ter feito sóbrios.

Sem explicitações

Nada mais desnecessário do que conectar duas orações cujas bocas já se beijam. É importante que as frases respirem, para que transem.

22 de novembro de 2016

Pontes de palavras

Chega-se a lugares novos por meio de saltos. Para que esses lugares não se tornem ilhas de solidão, é sábio construir pontes. Elas permitem que retrilhemos os nossos caminhos — mesmo os mais difíceis! — ainda que estejamos cansados. Fica também muito mais fácil compartilhá-los. Meus textos são o melhor mapa de mim.

Para que nossos futuros nos herdem melhor

A escrita de si para si é uma auto-educação à distância. Nenhuma contradição aqui: de nós mesmos somos com frequência os mais distantes.

Paradoxo da pequenez

Nem toda convalescença é sinal de saúde.

As vítimas do silêncio

Alguns silêncios não se quebram nem sob tortura; isso é sabedoria popular. Difícil é saber quem é o torturado.

10 de outubro de 2016

O poeta alter-erótico

Pelos outros apenas na superfície: todos os túneis levam ao ego.

3 de outubro de 2016

Entrar e sair

Ao amor precede-se um mergulho e sucede-se um vômito.

Bem-aventurada simplificação

A saúde poética é feita de dois verbos: chacoalhar-se e rir-se.

Consolo para os que se sentem improdutivos

Mesmo o poeta que escreveu cinco mil poesias precisou de cinco mil dias para vivê-las — antes que as pudesse escrever.

Os pré-requisitos do prazer

Querendo dançar, criou a própria música.

Para a liberdade um treino

A criança protegida de seus próprios erros comete-os em demasia quando, adulta, desconstrange-se de suas antigas correntes. 

Escrever para se limpar

Poucas coisas são mais tristes, para o poeta, do que ver a sua energia criativa sendo drenada para mesquinharias miseráveis. Fazer o quê: um ralo entupido precisa de um jato forte de água.

A felicidade como armadilha

O dom da resiliência não foi distribuído a todos na Criação. Aqueles de quem os escudos do Não foram subtraídos precisam se precaver inclusive na alegria — sob pena de confundir o sentimento de grandeza com o de invencibilidade. A destemidez precisa ser acompanhada de auto-respeito — para que as armas da potência não mirem os próprios pés.

8 de agosto de 2016

Um idiota no deserto

Desesperado de sede, cuspiu pra cima e fechou os olhos. 

7 de agosto de 2016

As renúncias cobram juros

Exercitar a força não cansa; pelo contrário, revigora. Os cansados são sempre fracos. 

17 de julho de 2016

Uma criança

A conclusão óbvia ao se deparar com quem se sente atacado por uma crítica é que se trata de alguém que nunca foi alvo de uma auto-crítica.