20 de março de 2016
Os que desmancham
Após uma discussão intensa com alguém que se ama, existe um momento de muita clareza que merece ser melhor estudado. Nele, as faculdades mentais se afiam e o turbilhão de emoções que antes nos envolvia dá lugar a uma desesperança quase-cínica. A desesperança sanitiza o pensamento, rompendo o funcionamento utilitarista típico, e obriga-nos a uma sinceridade desinteressada em qualquer coisa que não em si mesma. Nossos amores, afinal, crêem-se sinceros e, quando ameaçados, procurarão a sinceridade que lhes deu origem como se a própria existência deles dependesse disso — e depende. A sinceridade precede o amor. Quando se esgota as possibilidades de tratar os nossos objetos de interesse — um relacionamento, um amor, uma amizade, um emprego — como meros objetos, passa-se à análise do sujeito, isto é, de si próprio. Se houver coragem, os cálculos de risco-e-recompensa terão aí se desligado, sobrando em nós apenas o compromisso autêntico com a verdade. Já não se tratará de ganhar uma discussão ou tampouco de maquinar contra si uma narrativa perdoadora ou tranquilizante. Não se tem mais como objetivo livrar — nem a si nem ao outro — dos piores julgamentos, das piores valorações. Morrem os salvadores e os mártires. Fica a liberdade — de julgar(-se), de odiar(-se), de matar(-se). Desobrigado do orgulho e da vergonha, nasce um eu mais profundo, mais digno e mais certeiro. Pode haver raiva, ressentimento, medo e insegurança, mas uma vez nesse estágio de clareza esses sentimentos já não balançam nem perfuram. As frases ditas e ouvidas ecoam nas paredes cavernosas de nossa interioridade, adquirindo o peso devido ou sumindo-se na irrelevância. Defrontamo-nos com as chamadas "verdades duras" do que nos foi dito e avaliamos, com cada centésimo de nossa força mental, o quanto são relevantes, por quê, e o que faltou-se dizer. Reformulamos a imagem que temos de nós mesmos, a fim de incorporar as novas informações e relacioná-las às anteriores. Podem ter-nos dito, por exemplo, que havia frieza no nosso olhar e que isso denotava falta de respeito. A reformulação de si que eu estou descrevendo não consiste em adicionar ao currículo da vida — isto é, àquilo que se entrega aos outros quando deles se deseja algo — uma etiqueta cautelar: 'Frio e desrespeitoso'. Tal coisa seria uma narrativa aviltante e orgulhosa da própria ruindade. Mais provável é que a introspecção de que falo resulte na descoberta de que aqueles olhares moribundos significavam, não um desinteresse desrespeitoso, mas uma inveja coberta de vergonha que, como a criança, para não ser vista tapa os próprios olhos. A descoberta de um tal sentimento enterrado, juntamente dos motivos de seu enterramento, há de reconfigurar o evento referido e também outros, passados e futuros. Informado, agora, da própria inveja, abre-se o caminho possível para uma conversa entre dois adultos, em que se revele aquilo que antes não se podia revelar. Eu tinha inveja de ti, e preciso que me perdoes. Meus olhos foscos não eram senão de medo de ser descoberto. Não pense, tampouco, que uma investigação como essa resulte sempre em descoberta dolorosa e auto-combativa: igualmente comuns são as descobertas da própria inocência e até mesmo da própria força — além, é claro, da descoberta das falhas no outro, de suas insuficiências e de sua humanidade. Sim, as brigas de relacionamento são capazes de desencadear maratonas pensamentosas como essa e não é preciso dizer o quanto nesses momentos se aprende. Não conseguimos, porém, manter funcionamento de tão alta octanagem o tempo todo. Em geral, necessitamos de urgência e traumas. É tarefa do escritor propiciar reflexões como essa, reconfigurar os sujeitos que lêem, desaliviá-los de qualquer insinceridade. Devemos ser como as ex-namoradas: cruéis e indiferentes. E também como os pais: carinhosos e firmes. E como os amigos: presentes e alegres. Crescer inclui quantidades nada agradáveis de sofrimento. Responsabilizamo-nos não só por fazer crescer, mas também por incutir amor pelo crescimento. De nada adianta fazer um garoto crescer 10 anos em 1, se durante os próximos 20 ele ficar paralisado. Desesperança em demasia, afinal, paralisa e mata. Caminhemos, meus amigos. Escrevamos. Cresçamos.
Apenas os destinos retilíneos são previsíveis
Nosso caminho é feito pelas curvas que escolhemos tomar, mas não podemos enxergar o que há além das curvas.
Perseverança
A quantidade de solidão de que precisamos é sempre um pouco maior do que a que cremos ser capazes de suportar.
5 de fevereiro de 2016
Após o crepúsculo
O vale do cinismo é o mais tenebroso e escuro dos obstáculos separando os homens de Deus.
Reino dos maus
Ser bom ficará mais e mais difícil, pois a bondade foi inventada para servir de teste domesticador. Termômetros da justiça, só os divinos! Na terra, são os homens contra os sentimentos.
28 de dezembro de 2015
10 de dezembro de 2015
5 de dezembro de 2015
estágios iniciais do exorcismo
mora um suicida em mim
eu queria só
que ele se matasse
e me deixasse viver
em paz
eu queria só
que ele se matasse
e me deixasse viver
em paz
30 de novembro de 2015
A metáfora de Sócrates
Em tempos de repressão, pouquíssimos são os sentimentos que assumem a sua primariedade. A tristeza, para dar o exemplo, não "apenas vem" ou "sai", como deseja o poeta otimista, mas ela precisa efetivamente ser movida para fora, incentivada, aceita, fomentada, cultivada. Os sentimentos são produzidos, mesmo aqueles que já nos habitam: senti-los envolve um processo. O chefe do jornal dos nossos sentimentos em cada um tem diferentes sensibilidades editoriais e de diferentes sentimentos permite a vazão, a expressão — não raro seguindo uma agenda, política como tudo o mais, igualzinho aos jornalecos que se vê por aí. Há muito trabalho a fazer se quisermos ser como cientistas ou até mesmo como artistas — nesse ramo de editoria subjetiva. Nossos amigos precisam de nós e de nossas mãos para recebê-los: eles não nos preexistem, afinal: nós que os criamos! A maior caridade é receber a tristeza do outro, agraciá-la com nossa atenção e corajosamente dar-lhe o espaço que ela merece: e não aquele que nossos editores acham que ela merece. Editores são bichos-papões em todo lugar. Resistamos. Os homens, para nascer, precisam ser paridos. Também assim é a liberdade de sentir. Somos deuses, com o poder de criar, nos outros e em nós mesmos, mundos que o mundo nunca viu antes.
24 de novembro de 2015
Coração
O coração perfurado bombeou a última vitalidade
Morreu de tédio quarenta anos depois
Não conseguia abrir os olhos porque os olhos da alma quem abre é o coração
Mas coração perfurado não tem alma e morre
21 de novembro de 2015
9 de novembro de 2015
Ambiguidade existencial
A ânsia de viver de um escritor produz poderosos consolos — muitas vezes contra a vontade dele!
7 de novembro de 2015
Assinar:
Postagens (Atom)