Como golfinhos ao avesso, acessamos periodicamente nossas cavernas para respirar. A terra, nossa guardiã ancestral, provê-nos o sal com que tornamos palatável a vida infra-marina.
6 de fevereiro de 2019
Deve-se tentar
O esforço não deve ser proporcional à dificuldade da tarefa, mas ao medo que dela sentimos. Não é ofegância que a vida pede, mas coragem.
Para as calorias do intelecto, outras fontes
Não sobredose as palavras. Nada contra os livros, mas com frequência elas são senão tempero para o sapere da vida.
Para o otimismo
Tanta vã energia se mal investe que é de espantar que reste-a para o que quer que seja. E pur si ama.
Lembrete sobre as primazias
Não superestime a importância do descanso. Foque-se primeiro em cansar-se com qualidade.
18 de janeiro de 2019
Seres urobóricos
As maiores dificuldades são sempre auto-infligidas. O consolo é que as maiores forças também.
10 de novembro de 2018
26 de outubro de 2018
Prece do tempo
24 de setembro de 2018
As misérias do processo
16 de setembro de 2018
18 de julho de 2018
(fragmentos perdidos) Profundo 'tudo bem'
Talvez seja justo dividir as ações humanas (incluindo os pensamentos) em revoltadas e integradas. Podemos imaginar um dedo que se revolta contra a mão, e até mesmo uma célula que se revolta contra o tecido, mas não faz sentido pensar numa gota d'água que se revolta contra o mar de que faz parte. Não pode haver guerra sem partes, e onde não há individuação não há o que partir. Também é verdade, é claro, que as individuações não precisam levar à revolta: nem todo contorno é uma fronteira militar. Mas para que haja revolta, é preciso que haja partes. Aquilo que não se particiona permanece, por inércia, um todo integrado.
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A cognição opera por divisão. Separa, diferencia, contrasta, compara. Claramente a capacidade de dividir, de diferenciar, é evolutivamente benigna. Na guerra contra a entropia, a existência amoébica não interessa. A quem se identifica com a revolta, a integração soa como um passo para trás.
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Mas a própria cognição conhece seus limites. Sabe que não pode ter sido, ela mesma, resultado de um ato voluntário revoltado, separado do mundo. A cognição é parte do mundo, assim como o ser humano é parte do reino animal e a Terra, um planeta entre milhões. Não há excessões. O que está no mundo ao mundo pertence. Não podemos aspirar a ser nada senão aquilo que já somos. Qualquer robô, dermocosmético, nazismo ou tortura que inventarmos terá sido permutação de elementos previamente existentes. Nada terá sido criado. Nenhum passo para longe da Natureza terá sido dado. O mundo é uma totalidade causal fechada, sem exterior. Também isto a cognição já sabe.
Para o cognitivista, se eu puder reinventar o termo, o significado da vida encontra-se na realização de um número cada vez maior de contingências, isto é, na expansão do mundo "efetivo" (au lieu do mundo "possível").
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26 de junho de 2018
Metamorfosear-se em predador
Antes de dormir, pergunte-se com sinceridade e um pouco de carinho: de quê fugi hoje? Ignore impulsos catárticos — o que não se fez durante o dia tampouco se pode vomitar à noite. Faça o possível para se livrar de julgamentos acerca das consequências: não nos interessamos por "fazer o bem" nem em colher créditos com o futuro. Julgue senão o páthos presente nas suas ações e inações: houve ali paixão? vingava-se de quem? com quem competia? estava cansado? sentia-se superior? encarecido? quente? sub-utilizado? preguiçoso? desconjuntado? irrespirado? Observe o medo, a culpa, a intromissão de pensamentos, o franzir das sobrancelhas, a produção de adrenalina, as contrações e os relaxamentos, o encolher-se da alma, a vontade irrefreável de dormir. Torne-se, com o treino, senhor de suas sensações — conheça o que lhe faz girar as engrenagens, sutilize a auto-consciência até os níveis químicos, sub-atômicos, sinta-se em cada grão, identifique os seus eus profundos — — saiba o que você é ao ser. Não o que você acha, agora à beira da cama, que foi. Não o que você causou ao agir, nem como transformou ao mundo ou aos outros. Preencha-se de si mesmo: se você não é extenso o suficiente para isso, engrandeça-se. Desenvolva olhos de águia e com eles mire as suas covardias. Calcule a trajetória que fizeram até ali, encontre seu ponto fraco, mapeie seus hábitos, triangule onde estarão amanhã. Por enquanto, contente-se em espreitar: estamos apenas meditando antes de dormir. Mas, aos poucos, perceba o seu coração acompanhando os olhos, tornando-se gradativamente — — de rapina. Quando estiver pronto, e tão naturalmente quanto a covardia hoje lhe causou fugas, amanhã um algo diferente causará seus movimentos. Aprenda, de si e para si, a desacovardar-se.
20 de junho de 2018
Our biggest asset
Covardias acumulam e cobram dividendos. Ai de quem as cultiva: de seus ovos nascem dragões de neurose! Aprendamos a identificá-las quando ainda são pequenas e tratáveis: pequenas coragens — dizer a verdade, reclamar direitos mesquinhos, cuspir o veneno de volta no copo — são como ações investidas no incípio de uma empresa bem sucedida. Nosso portfólio de investimentos espirituais começa com as pequenas covardias que superamos. Não as subestimemos.
17 de maio de 2018
Unicidade
Mas haverá mesmo essa distinção entre estética e ética? Não é verdade que todo caminho define ao mesmo tempo uma direção e também uma forma de caminhar? Não são quase sinônimos? "Para frente" é uma direção ou um modo? Retidão é um alvo ou uma forma de contornar? Existe diferença entre um objeto e os contornos funcionais que o definem? A natureza afinal possui substrato?! Somos (aquilo) o que somos ou (a forma) como somos? Não é todo ser afinal — — adverbial?
As estéticas são éticas. A breguice (pra dar o exemplo) não somente descreve, mas prescreve também.
Tomar cuidado com armadilhas filosóficas!
Historinhas
É possível ser cínico e responsável ao mesmo tempo? As responsabilidades precisam ser inventadas e, então, aceitas enquanto invenções. O mundo criou uma tabela de valores tacanha, inveterada, incrivelmente brega. Rejeitemo-la em bases estéticas, mas sem lhe esquecer as lições.
16 de maio de 2018
Pai de rapina
Perenear nosso estilo é semelhante a acolhê-lo com grandes asas paternais. Protegê-lo, sim, mas também desafiá-lo, pô-lo à prova; alimentá-lo com música e silêncio, bem como avaliá-lo (com toda crueldade) e incentivá-lo a enfrentar a vergonha e o medo. Somo-lhe pais para o bem e para o mal. A tarefa da paternidade possui duração. Perenear um estilo, como a um espírito, é prepará-lo para a adultice, cultivá-lo em meio a bons hábitos e suficientemente alertá-lo para o perigo (quando não for possível fortalecê-lo). Nem toda poesia terá métrica. Que tenha então alma.