6 de fevereiro de 2019

Uma vida menos agüada que aterrada

Como golfinhos ao avesso, acessamos periodicamente nossas cavernas para respirar. A terra, nossa guardiã ancestral, provê-nos o sal com que tornamos palatável a vida infra-marina.

Deve-se tentar

O esforço não deve ser proporcional à dificuldade da tarefa, mas ao medo que dela sentimos. Não é ofegância que a vida pede, mas coragem.

Para as calorias do intelecto, outras fontes

Não sobredose as palavras. Nada contra os livros, mas com frequência elas são senão tempero para o sapere da vida.

Estetas poliglotas

Há uma gama de belezas existentes — e não apenas as de que careces.

Para o otimismo

Tanta vã energia se mal investe que é de espantar que reste-a para o que quer que seja. E pur si ama.

Lembrete sobre as primazias

Não superestime a importância do descanso. Foque-se primeiro em cansar-se com qualidade.

Se quereis caminhar

Os corredores não negligenciam as pernas. Por que nós o faríamos à mente?

18 de janeiro de 2019

A juventude invencível

Se a verdade ofende, então por definição o ofendido está errado.

Seres urobóricos

As maiores dificuldades são sempre auto-infligidas. O consolo é que as maiores forças também.

10 de novembro de 2018

Em outras palavras, fraco

Ficou triste e com vergonha de ficar triste.

26 de outubro de 2018

Prece do tempo

Que em cada palavra contenha-se um pouco de infinito. Que em cada abraço abracem-se multidões. Que em cada gesto de bondade pondere-se a grandeza de mil almas. Que em cada fracasso individual sobrepese-se o olhar gentil de gerações inteiras. Porque na queda, como no júbilo, ombream-se todos os seres. Em gloriosa canção fazemo-nos vento, mar e estrela — já que do nosso carbono é feito o teu carbono. Em ti dormimos e contigo levantamos. Do sempre que veio ao sempre que virá, eis-me aqui.

24 de setembro de 2018

As misérias do processo

Uma meditação para a coragem talvez não possa ser diária. Diferente da covardia, que o homem médio há de cometer umas cinco ou seis por dia, a coragem pode passar meses, nos mais febris anos, sem mostrar as caras. Não é de espantar que por religião o homem prefira delegar a tarefa de ser corajoso: é hercúlea, rara e extremamente destrutiva. Suspeito que, mesmo entre os mais extraordinários e distintos entre nós, também ali a coragem fraqueja, cai bamba, pede bengala, ou urra como gado submetido ao ferrete. A humanidade, da pele pra dentro inclusive, é um projeto em andamento. E talvez justamente nesses momentos difíceis, em que os músculos da face jorram à luz suas feições mais escandalosas, quando a pele é toda flor, e qualquer lembrança abala o nosso horizonte mental — talvez justamente aí precisemos em maior medida de uma meditação para a coragem. Não sei bem se consigo esclarecer as condições especificíssimas dessa atividade, que tanto consiste numa crueldade inexorável, rimante do destino, quanto numa gentileza supremamente compreensiva, do seio universal o leite mais morno. Aqui, entre o fogo da tormenta de mil infernos e o néctar primaveril dos amantes, em algum lugar entre o Réquiem e a Nona — aqui nós devemos nos honrar diante de nós mesmos, ajoelhar diante do divino e com o mais calmo desespero: meditar. Nossas coragens! Onde estão? Onde estiveram quando delas fomos tão carentes? Por que nos abandonaste? E com o carinho de uma mulher devemos segurar o nosso rosto molhado, convulsivo, e começar a administrar nossa cura. Doce, muito docemente, trazendo à testa uma folha de hortelã, devemos nos esforçar para ignorar o que em nós há de diabólico, aquilo que de dentro nos inspira à destruição, o ardente suicida que à nossa mente habita: pois não há ser humano nesse maldito mundo — e eu digo isso com o sangue de minha perna riscada — que não tenha cometido na vida um gesto de grandeza corajosa. Nós somos o que somos. Para alguns de nós é esforço diário levantar, e quantos não são os que carregam em seus ombros e suas costas o peso do mundo — apenas uma fração dos quais se torna poeta, e no entanto todos, todos sem exceção, são merecedores do nosso carinho e do nosso amor. É claro que, ao falar dos outros, estamos falando apenas de nós mesmos, de toda a humanidade que existe numa gota de indivíduo. Quanta coragem não houve em labuta diária, em trabalho sobre trabalho, consciência depositada em miséria, a troco de traição e sofrimento, quanta dor não foi rasgada em praia de tristeza, quanto Imensurável não houve em uma conversa digna, um tomar à frente, um sacudir de corpo, da vida um puxar das rédeas, aurora depois de noite tempestuosa? Com cuidado, e com muito mais esmero do que eu seria capaz de descrever, talvez fechando os olhos brevemente (não para não ver, mas para mais facilmente olhar para dentro), devemos nos lembrar. Talvez não tenha sido hoje, nem ontem. Talvez nem mesmo nessa semana encontremos exemplo de uma coragem nossa. Ampliemos nossa busca, afrouxemos nossa vontade de estrangular, devolvamos aos nossos atos a dignidade que lhes é de direito: eu vi você acordando naquele dia que estava cansado; eu vi você falando naquela hora em que as conseqüências seriam menores se você tivesse calado, eu vi você lendo para o seu filho, jurando de amor, eu vi você estendendo o olhar a um amigo que precisava. Eu vi você escrevendo. Eu vi você desenrolando o tapete e sentindo a dor da sua postura heróica ou vajrando-se logo antes de entrar no dojo. Eu te vi orando por mim quando eu estava doente. Eu vi quando você lavou a louça para que seu filho não encontrasse a cozinha suja. Eu vi sua depressão te consumindo e vi sua resistência. Eu vi você tentando. Às vezes a grandeza se esconde; às vezes fechamo-lhe os olhos. Às vezes somos fracos. E às vezes desistimos. Tudo bem. Nada disso reduz meu respeito por você. Nada disso enfraquece a sua invocação da alegria, sua eterna batalha. Você já é divino. Adormeça hoje com os dentes des-cerrados, aceite essa luz que já é sua e abrace a certeza de que você é feito de coragem.

16 de setembro de 2018

Eu, por exemplo

Algumas pessoas só são piores que outras.

18 de julho de 2018

(fragmentos perdidos) Profundo 'tudo bem'

Talvez seja justo dividir as ações humanas (incluindo os pensamentos) em revoltadas e integradas. Podemos imaginar um dedo que se revolta contra a mão, e até mesmo uma célula que se revolta contra o tecido, mas não faz sentido pensar numa gota d'água que se revolta contra o mar de que faz parte. Não pode haver guerra sem partes, e onde não há individuação não há o que partir. Também é verdade, é claro, que as individuações não precisam levar à revolta: nem todo contorno é uma fronteira militar. Mas para que haja revolta, é preciso que haja partes. Aquilo que não se particiona permanece, por inércia, um todo integrado.

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A cognição opera por divisão. Separa, diferencia, contrasta, compara. Claramente a capacidade de dividir, de diferenciar, é evolutivamente benigna. Na guerra contra a entropia, a existência amoébica não interessa. A quem se identifica com a revolta, a integração soa como um passo para trás

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Mas a própria cognição conhece seus limites. Sabe que não pode ter sido, ela mesma, resultado de um ato voluntário revoltado, separado do mundo. A cognição é parte do mundo, assim como o ser humano é parte do reino animal e a Terra, um planeta entre milhões. Não há excessões. O que está no mundo ao mundo pertence. Não podemos aspirar a ser nada senão aquilo que já somos. Qualquer robô, dermocosmético, nazismo ou tortura que inventarmos terá sido permutação de elementos previamente existentes. Nada terá sido criado. Nenhum passo para longe da Natureza terá sido dado. O mundo é uma totalidade causal fechada, sem exterior. Também isto a cognição já sabe.

Para o cognitivista, se eu puder reinventar o termo, o significado da vida encontra-se na realização de um número cada vez maior de contingências, isto é, na expansão do mundo "efetivo" (au lieu do mundo "possível"). 

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26 de junho de 2018

Metamorfosear-se em predador

Antes de dormir, pergunte-se com sinceridade e um pouco de carinho: de quê fugi hoje? Ignore impulsos catárticos — o que não se fez durante o dia tampouco se pode vomitar à noite. Faça o possível para se livrar de julgamentos acerca das consequências: não nos interessamos por "fazer o bem" nem em colher créditos com o futuro. Julgue senão o páthos presente nas suas ações e inações: houve ali paixão? vingava-se de quem? com quem competia? estava cansado? sentia-se superior? encarecido? quente? sub-utilizado? preguiçoso? desconjuntado? irrespirado? Observe o medo, a culpa, a intromissão de pensamentos, o franzir das sobrancelhas, a produção de adrenalina, as contrações e os relaxamentos, o encolher-se da alma, a vontade irrefreável de dormir. Torne-se, com o treino, senhor de suas sensações — conheça o que lhe faz girar as engrenagens, sutilize a auto-consciência até os níveis químicos, sub-atômicos, sinta-se em cada grão, identifique os seus eus profundos — — saiba o que você é ao ser. Não o que você acha, agora à beira da cama, que foi. Não o que você causou ao agir, nem como transformou ao mundo ou aos outros. Preencha-se de si mesmo: se você não é extenso o suficiente para isso, engrandeça-se. Desenvolva olhos de águia e com eles mire as suas covardias. Calcule a trajetória que fizeram até ali, encontre seu ponto fraco, mapeie seus hábitos, triangule onde estarão amanhã. Por enquanto, contente-se em espreitar: estamos apenas meditando antes de dormir. Mas, aos poucos, perceba o seu coração acompanhando os olhos, tornando-se gradativamente — — de rapina. Quando estiver pronto, e tão naturalmente quanto a covardia hoje lhe causou fugas, amanhã um algo diferente causará seus movimentos. Aprenda, de si e para si, a desacovardar-se.

20 de junho de 2018

Our biggest asset

Covardias acumulam e cobram dividendos. Ai de quem as cultiva: de seus ovos nascem dragões de neurose! Aprendamos a identificá-las quando ainda são pequenas e tratáveis: pequenas coragens — dizer a verdade, reclamar direitos mesquinhos, cuspir o veneno de volta no copo — são como ações investidas no incípio de uma empresa bem sucedida. Nosso portfólio de investimentos espirituais começa com as pequenas covardias que superamos. Não as subestimemos.

17 de maio de 2018

Numa pedra

"A forma como fazes qualquer coisa é a forma como fazes todas as coisas".

Unicidade

Mas haverá mesmo essa distinção entre estética e ética? Não é verdade que todo caminho define ao mesmo tempo uma direção e também uma forma de caminhar? Não são quase sinônimos? "Para frente" é uma direção ou um modo? Retidão é um alvo ou uma forma de contornar? Existe diferença entre um objeto e os contornos funcionais que o definem? A natureza afinal possui substrato?! Somos (aquilo) o que somos ou (a forma) como somos? Não é todo ser afinal — — adverbial? 

As estéticas são éticas. A breguice (pra dar o exemplo) não somente descreve, mas prescreve também. 

Tomar cuidado com armadilhas filosóficas! 

Historinhas

É possível ser cínico e responsável ao mesmo tempo? As responsabilidades precisam ser inventadas e, então, aceitas enquanto invenções. O mundo criou uma tabela de valores tacanha, inveterada, incrivelmente brega. Rejeitemo-la em bases estéticas, mas sem lhe esquecer as lições. 

16 de maio de 2018

Pai de rapina

Perenear nosso estilo é semelhante a acolhê-lo com grandes asas paternais. Protegê-lo, sim, mas também desafiá-lo, pô-lo à prova; alimentá-lo com música e silêncio, bem como avaliá-lo (com toda crueldade) e incentivá-lo a enfrentar a vergonha e o medo. Somo-lhe pais para o bem e para o mal. A tarefa da paternidade possui duração. Perenear um estilo, como a um espírito, é prepará-lo para a adultice, cultivá-lo em meio a bons hábitos e suficientemente alertá-lo para o perigo (quando não for possível fortalecê-lo). Nem toda poesia terá métrica. Que tenha então alma.