14 de março de 2011

(1) Resumo da ópera

Sentir-se mal não te torna melhor.

1 de fevereiro de 2011

Anônimo disse...

Hoje eu olhei pra noite e senti saudades de você.

Todas aquelas estrelas, perdidas, caóticas, competindo com as nuvens por um lugar no céu... Tá frio que nem no inverno. "Aquele" inverno, sabe?
Quando nenhum cobertor sacia, quando todo sono do mundo não é mais forte do que a vontade de ficar acordado - acordado meesmo, sabe? Quando música nenhuma é mais intensa do que aquele espírito que te ronda a cabeça, murmurando saudades, sorrisos, textos que, de tão bons, não podem ser escritos, imagina lidos.

Eu adoro quando seu sorriso me engana. No proximo inverno você me chama. Talvez possamos passá-lo juntos. Sei lá. Eu gosto de você.

8 de novembro de 2010

26 de outubro de 2010

Os dezoito anos

Como se faz política?
Como se lê Nietzsche?
O que é a saúde?
Qual a diferença entre prazer e alegria?
O que se entende por sonho?
Como sentir o que se pensa?
Como se faz amor?
O que é a amizade, e como se a recupera?
Estar só é ruim.
Música eletrônica é bom, mas nem tanto.
Dançar é bonito, e ainda é o centro do universo, mas há mais de um jeito de dançar. Transando, por exemplo. Chorando, por exemplo.
O que significa responder, reagir, receber?
Existir significa respirar e mais um tanto de coisas.
Dormir, chorar, jogar videogame.
O que é a escola? É o que restou da minha alma. O que se me tornou sonho.
O que o faz apaixonado? - É o que eu sinto: são esses bandos de sóis que insistem em brilhar, para além de bens e males, com a intensidade que se estampa em meus olhos.
O que o faz triste? É isso, tudo isso-aquilo que me tiraram.
Como resistir? Juntando-se. Em tempos, em espaço, em olhares, em linhas, em beijos.
E crescer? Crescer é difícil, sempre. Se não é difícil, não é crescimento.
Difícil!, disse eu, não penoso.
E os textos, a sua literatura? –Pra que serve?
É. –Bem, pra nada.
Pra nada? –É, pra nada.
Mas algum dia vai servir? –Sim, quando eu conseguir fazê-la pra outros, quando eu consigo fazê-la pra outros. Aí, sim.
Os outros? – É.
Cansaço. Muito cansaço nessa vida.
Mas, ainda assim, ainda assim… Ainda assim. Eu, vivo.
Mãe, vai ter outro ano de 1999?
Não? Mas… isso significa que essas alegrias, felicidades, essa minha risada e a piada do Luiz Gustavao – eu nunca vou tê-las de novo? Nunca hei de sentí-las novamente? É isso que significa ressentir? Tentar sentir de novo e, fatalmente, não conseguir?
Pai, por que você precisa continuar fazendo obra? Chega! Eu quero jogar bola contigo. Investimento? Mas eu não quero ir pra Noruega! Mamãe? Você faz isso por ela? Mas não parece… Desculpa. Não te peço mais.
O que? Mas, mas… Não, eu não sei se vi nada de diferente nela, não, pai. Ahn? Como assim ‘mais feliz"’? Por favor! Mas, pai! Dói muito! Não quero.
O que? Se tá tudo bem? Sim, claro, nada de mais. E você? Pois é, tenho ouvido outros tipos de música agora. Pink Floyd e tal. Videogames? Claro.
A escola sempre foi muito fácil, mas tá tudo bem, sim. Meio chato, mas acho que sempre é, né?
Que me desafiam socialmente? Como assim?
Ah, é legal ouvir, assim, que não é algo inato.
Volta pra mim?
Lembra quando a gente não prestou atenção na aula de história, porque tava discutindo Capitalismo e Socialismo?
Lembra quando você me batia com a lancheira?
Lembra quando a gente jogava bola? Você era rápido, você driblava, você fominha, mas era muito bom.
Lembra de antes, quando a gente era menor, e que a escola era de fato Nossa?
Lembra de Cabo Frio? De quando choramos todos juntos? De quando dormímos juntos? De quando acordamos junto do sol, à praia?
Lembra quando eu bebi pela primeira vez? Lembra…. das coisas ruins? Lembra de tudo o que eu disse? Eu me arrpenedo, sim. Só não sei se acredito nisso de arrependimento.
Ah, eu te amei.
Não, nunca aconteceu! Responsabilidade?
O que é a responsabilidade? Por o que sou responsável?
Pelo mundo?
A música! O violão! As notas! Clarice!
Olha eu cantando! Eu canto chorando, como se cada linha fosse uma lágrima, a ser expulsa, a ser sentida, algo que não cabe nem pode caber em mim.
Queria que você tivesse me cantado.
Ei, você acha que eu posso ser seu amigo? Eu não sou muito bom nessas coisas.
É assim que é. Não.
Dezoito anos? Mais parecem dezoito eternidades.

Talvez sejam. Talvez sejam.

23 de agosto de 2010

Abrir os olhos

O amor começa por uma metáfora,

 

mas, embora chovesse, não voltava o amor à casa. A chuva, que  antes causava vibrações ao simples estalo dos primeiros pingos, não é senão um compasso fora de ritmo agora, que tenta contar os tempos de um coração cuja bateria não permite mais a regência do corpo – um maestro com mãos desobedientes e uma vontade de sucumbir quase irrefreável.

Chovia e podia, assim, ver no cheiro de terra molhada como que a essência de um amor que já morrera. Via-o diluído em atmosfera, fumaça de vida no balançar das árvores, neblina perdida nos sopés de montanhas… Sempre as metáforas.

É por elas que seu amor, agora ex, havia se delineado, num encontro de quatro ouvidos que ouviam, no bater do mar, não as ondas quebrando, as espumas se formando, a areia se molhando – mas uma sincronia com o infinito, um êxtase sonolento, uma necessidade de se beijar.

Creio que não percebiam, à época, que quando se diziam ‘eternos’ (e, ó, com que freqüência o faziam!) não falavam de si, tampouco do seu amor. Falavam é das metáforas que haviam criado, estas sim, eternas peças de um universo bem maior que eles dois…

Mas nada disso lhe passava à cabeça. Naquele dia, era insensível às metáforas - uma tentativa de se tornar insensível ao amor que elas causam. Por isso, quando um pingo lhe caiu no ombro, ele não só fez questão de puxar um guarda-chuva, como também murmurou palavrões direcionados ao céu.

Talvez, se ele enxergasse como eu, teria visto que não demoraria muito para que o próprio corpo projetasse em si as metáforas que ele agora evitava: não demoraria muito e ele veria no rosto chover o mar salgado que os beijara anos antes.

Na semana passada, quando você me chamou para conversar, eu fiquei assustado. Achei que ia ser ruim, julgava-me incapaz de reviver aquelas vibrações. Mas não. O que aconteceu foi que eu pude reconciliar a paz com as antes-nossas metáforas. E o amor que eu tinha por você, que tenho e que sempre terei, continua ali eternizado no universo – afinal, ele voltou para casa.

12 de julho de 2010

da existência do Eu-lírico

Mas será que você não percebe? Será que eu não me fiz não-claro o suficiente? Eu não sou claro. Não pretendo ser, não quero ser. Não preciso ser. Você não precisa que eu seja.

Eu não digo os meus textos, as minhas palavras, os meus personagens. Eu digo através dos meus textos, através das minhas palavras, através dos meus personagens. Será que você não percebe, na transparência das minhas palavras? Não, você não percebe. Você pouco se importa com a transparência. Pra você, transparência é falta de opacidade, é falta, é falha. Pois a transparência é o que eu mais quero, o meu melhor recurso, o mais divertido deles. Eu não digo as coisas querendo dizê-las, digo-as querendo, ou digo-as dizendo-as, assim meio sem querer querendo.

Meus textos, irresponsáveis, não são mais do que um espaçoso salão, onde eu danço, canto, pulo, atuo, jogo futebol, faço amor, conto piadas, brinco de ser eu. Não é erro meu brincar de ser eu. Não significa que eu não sou eu seriamente, que eu não queira ser. Tanto é que só brinco quando me sobra tempo, vontade, fôlego – a maior parte do tempo me ocupo tentando ser eu a sério.

É por isso que é escroto – e eu bem deveria ter previsto – você não me ler, só porque eu, Friedrich, me filiei ao partido Nazista. Ou porque eu, Lobo, mostrei-lhe meus dentes afiados e minha pata sangrando. Não, não não. Nunca são eles que lhe dizem, mas você que os interpreta! Tanto é que eu poderia argumentar, livremente, em poesia, o quanto as minhas próprias poesias foram mal-lidas – consideradas bonitas quando eu estava feio, e feias quando eu estava todo bonito. Mas por que argumentar isso? Não quero argumentar isso, porque brincar de ser é assim. Não entender, “mal-interpretar” faz parte, é quase a essência da brincadeira. Um passe errado, no treino, é sinônimo de risada do companheiro de time, não de represália. Quando eu, Romântico, quis amar e não pude, eu brinquei: como num sonho em que eu posso voar, eu escrevia sobre o amor com a capa da tristeza. Eu amava, e era feliz, através dessa tristeza brincada. Por isso esses textos tristes me são tão preciosos mais tarde, quando olho-me de volta com ares de espetáculo, Eu, espectador do mundo – tudo tão emocionante, divertido, bonito. Eu, o Adulto do devir, pretendo não existir completamente, nunca, mas sempre ao lado desses meus companheiros, leais escudeiros, minhas tempestades, nuvens, musgos, algodões, livros, copos, textos, palavras. Chegarei ao inferno quando estiver procurando o significado real das palavras, ou me pautando por eles, não por elas.

E então, quando eu a convido a subir no meu palco, a brincar comigo, você se torna bruxa, pega sua vassoura, e joga pó de lagartixa e patas de dragão em todo o meu cenário, deixa todos os meus figurinos com cheiro de mofo – e ainda pensa estar assim, me batendo toda vez que acendo uma lâmpada, me fazendo um favor!

(E está mesmo)

O que eu escrevo está sempre sendo, se processando, correndo; nunca é. Você transforma tudo em é, é, é. Eu sei, eu sei, é claro que eu sei que mil vezes antes um texto esteticamente feio que um ideologicamente burro, eu aprendi isso, eu aprendi isso, mas eu, mas eu, mas eu sou Criança, ainda não entendo disso de ideologia, você precisa me ajudar, e não procurar o que tá errado. Mesmo que isso seja ajudar. Falta um monte de coisas no meu texto, falta nexo, falta inteligência, falta propósito, falta meta, falta tanto, mas se eu fosse fazer uma lista das coisas que faltam, só a minha imaginação imporia limites. Eu não quero descobrir o que falta, porque sempre falta infinito, quero brincar com o que tem, com o que está tendo, sendo, querendo. Criança assim.

Mas sabe, de tudo que eu tenho a reclamar de você – ignorando os 80% de projeção – o mais importante, o que eu mais quero dizer é a feiúra. Não ter um Eu-lírico é tão bonito, é tão real, eu fico aqui olhando pra carne viva estampada em toda você, e vejo seu sangue circulando e o jeito como você conduz sua respiração e entorta a coluna e os lábios pra falar -  você toda jeitosa com seu jeito de tentar não ter jeito. Mas é feio, quando você fica assim, me lendo aos avessos, se cansando de si, procurando todas as feiúras que nós temos em comum, em vez de deitar à sombra das nossas semelhanças – pelo menos quando eu lhe peço deitar, quando eu aqui cansado, fatigado, pedindo colo e carinho. Será mesmo que você vai me castigar nesses exatos momentos estendendo-me sua cama mais dura? Como você consegue? Como você consegue você mesma deitar em sua cama mais dura? Eu a invejo, se isso for verdade. Mas eu não quero ser você, porque você parece que perdeu a vontade e a chance de ser bonita. Eu, Pai de duas, tive vontade de ter mais uma toda linda filha que nem minhas duas outras só para compensar você. Ai eu, Lobo, dei um patada, e arranhei as minhas filhas, que estavam sendo paparicadas e infantilizadas, que eu tava sendo muito criança. Ah, não. Foi isso que lhe aconteceu? Veio-lhe um lobo?

Ah não. Ah, não. Me lê, me erra, mas não. Não, não, não.

1 de julho de 2010

O ‘tornar irresponsável’ (de que não gostei) + Introdução metalingüística + O ‘tornar irresponsável’ (versão 1,5)

Ontem à noite, assisti a um show de violões no municipal. Um trio. Numa música, que creio ter sido Olha Maria, eu me entreguei completamente, e consegui ir lá pra dentro de mim, num dos lugares mais bonitos que existem – provavelmente um cômodo da minha alma. Lá, comecei a escrever um texto bonito, desses que dão orgulho. Um orgulho semehlante àquele que senti depois de assistir Cinema Paradiso, por exemplo, ou aO Fantasma da Ópera, ou quando li Através do Espelho (de Gaarder),  algo a que eu só consigo me referir como Capacidade de Sentir – uma sensibilidade - o que é no mínimo paradoxal, senão simplesmente risível, quando o contexto é outro que não Arte. Porque não há motivo maior para o meu fracasso em conseguir manter um relacionamento funcional do que a dificuldade de sentir. Mas é verdade que, se me perguntam do que eu mais me orgulho em mim, eu respondo Minha sensibilidade.

Parei numa frase que, de tão importante que a achei, fiquei murmurando pra mim mesmo, morrendo de medo de que a esquecesse. Após o show pude anotá-la em meu celular. Era: O que é a responsabilidade senão um nome à parte do poder de Deus que nos cabe? O texto tomou alguma forma, ganhou título, já não sei mais se na profundidade do meu sentimento, ou se depois, durante meus sonhos. Mas sei que queria muito escrevê-lo, não tão diferentemente do sonho que tentamos lembrar. Hoje, com disposição, eu tive espaço e tempo de escrever. Mas, incapaz de colocar sentimentos nas minhas palavras, escrevi um texto dissertativo demais, apesar das camadas de literatura e autobiografia que o permeiam, de que gosto muito. Ele aqui:

Quando alguém comete um erro ou nos machuca, dói muito mais uma eventual reação apática do alguém do que o próprio erro ou machucado. Dói muito mais quando o alguém não se toma por responsável pela dor infligida. Nós nos machucamos com a falta de responsabilidade do outro.

Ser responsável por algo ou alguém é das mais pesadas tarefas, porque há uma relação direta com a nossa competência de cuidar do algo e, portanto, com a imagem que temos da nossa própria força e capcidade. E, é claro, com a culpa – que talvez nada mais seja do que o encontro com a própria fraqueza. Franqueza.

Esquivar da responsabilidade é, portanto, esquivar do eventual confronto dos próprios limites, da finitude de si. Provavelmente com esse bonito sentimento, de fazê-los infinitos, muitos pais privam ao máximo seus filhos de responsabilidades .

A crueldade desse romantismo que se atribui à geração vindoura, dessa idealização da infância, dessa transferência de sonhos à prole, é raramente reparada. O ápice desse processo se encontra na desapropriação de si mesmo – em que nem pelo próprio corpo tem a criança condições de zelar.

A isso, mesmo a barbárie capitalista serviria, numa idéia de que o próprio corpo é uma propriedade, que deve ser cuidada, estimada, em que se deve investir.

Esse sorriso com que brinca a criança de cair, é o mesmo presente no choro quando percebe ela, já adolescente, que não olhar por onde se anda pode fazê-la esbarrar em alguém. Talvez fazer esse outro alguém cair.

Os pais, ao cuidar desses pequenos jardins, não podem viver por eles, através deles. Porque aí esses eles não vivem. Não tomar responsabilidade pelo que se é, pelo que se faz, é muito próximo de não viver.

Tornar irresponsável é causar sofrimento. Porque, de repente, no meio de uma noite estrelada, nem as estrelas nem a noite lhe são de posse, cuido, ou contemplação. Nada disso lhe pertence. Nada disso é de sua responsabilidade. O próprio prazer, tampouco. A própria dor, tampouco.

Tirar o poder da criança sobre as coisas, torná-la a todo tempo dependente e obediente, bem-educada e amistosa, temente e cumpridora, é destituí-la de força para, por exemplo, realizar os sonhos que você, pai, não pôde realizar. Pois ser responsável por algo, é, sim, ter poder sobre algo.

Aquele que faz uma obra de arte, mas não se sente por ela responsável, é tão feio e desprezível quanto aquele outro que me machucou, mas que não se admite responsável pelo meu sofrimento.

O que é a responsabilidade senão um nome à parte do poder de Deus que nos cabe?

Tão longe era meu texto da frase que eu anotei, que ela, a frase, teve de ficar isolada, sem ligação ao resto do texto, sem continuação, ali, crua, sem adubo, sem raiz. Eu quis chamar esse texto de “O ‘tornar irresponsável’ versão 3”, pois essa definitivamente não é a versão 1, que eu quero atingir.

Ao mesmo tempo, eu não consegui dormir. Precisava dialogar comigo mesmo e é exatamente isso que faço aqui. Por isso esse texto é tão agridoce. Ele não é bom. Esses diálogos são invasivos. São íntimos demais. Porque eles são o diálogo que eu tenho comigo mesmo na cama, ouvindo meu coração bater, me impelindo a algo maior e maior. A tomar responsabilidade, nem que fosse por um texto. Uma pena que, com a metalinguagem, eu só consiga fazer o contrário e further and further me desresponsabilizar.

O que é a responsabilidade senão um nome à parte do poder de Deus que nos cabe? Pois ser responsável por algo implica em ter poder sobre o rumo que esse algo irá tomar; um poder sobre o destino das coisas, se assim se quiser dizer. É um poder de criar coisas, de guiar coisas, de salvar coisas. É o poder de Deus, distribuído a cada um de nós.

Não há nada mais bonito do que ser responsável. E, mesmo que eu use as palavras Deus e Poder – assustadoras, eu confesso –, é bonito. Afinal, é preciso que eu pare de temer as palavras, sejam elas Política, filosofia, irracional, Deus, poder, verdade, mentira, responsabilidade, amor, Homem, Mulher, adulto. Eu estou desaprendendo a ter medo. (Porque, né?, medo se aprende.)

É preciso que os filhos desse mundo tomem coragem de ser responsáveis, que os filhos desse mundo não temam tomar esse mundo como seu, numa posse que não implica em propriedade, mas em responsabilidade. Palavras, palavras. É preciso que se veja que o mundo não pode, não tem como, ser tão medonho assim. Nada pode ser tão difícil quanto isso que você imagina. A prova disso o está esperando numa música, possível, tocada ali na frente, por três pessoas que resolveram pegar um pouco da beleza do mundo pra si, e ainda me permitir acessá-la. A prova disso está nesse sorriso-choro que o carrega e consome. Que traz, lá de tão longe-perto, o melhor que há em você. Aquilo de que, inevitável e justamente, você se orgulha. De que você se sente responsável. Você não choraria, se não se sentisse responsável por essa beleza que ouve. É essa sua capacidade, de ser co-responsável por essas belezas todas, que o faz ter asas tão grandes, tão esbeltas.

Não há nada mais bonito ou prazeroso do que ser responsável. Aliás, só podem ser sentidos a beleza e o prazer, ao ser responsável. Se não, é só… comoção? Não sei, há poucas palavras. É bom poder deitar, satisfeito por finalmente ter tomado responsabilidade. Mesmo que esse texto seja, em parte, íntimo demais, por erros da linguagem, por dificuldade de sentir, por eu não me tocar. Não é linda essa expressão? “Se toca”? Apesar do erro de concordância e da próclise? Okay, isso foi brincando. Boa noite, meus amores.

10 de junho de 2010

Zoon politikon

De onde surgiu em mim a descrença na política? Onde, presa em algum lugar entre as primeiras chamas e as velhas novas estrelas, se fez valer um sentimento de negação da política?

A minha introdução, sempre tão metalingüística, hoje tem fim cedo. Não me alongo no onde, no por que. Mas no aonde, no porque.

Pois, por mais absurdo que seja o mundo à volta, esse de guerras e cores tão diversas quanto são as transições entre as cores do arco-íris; por mais imoral que me pareça ser a idéia de simplesmente dar continuidade ao que já existiu; a crença na lealdade ao que já foi; e absoluta inesperança que me assola todos os dias antes de dormir e quando acordo; que bobo sou eu, esse que desiste, que desisti da poítica.

Embora, nos mais estritos termos, o ódio à burocracia seja compreensível; a crise dos sistemas, inquestionável; a corrupção dos políticos, já popularmente aceita; a estatística e o pedantismo, assassinos confessos da matemática e de toda ciência; a universidade, morta como a igreja; a seriedade, eterna repressora da alegria -- como tocar um negócio, senão pagando as contas? como passar os dias, senão com uma família? como não se enfezar com roubos e desvios? como não criar argumentos estatísticos? como não se adequar à gramática? como não respeitar um professor de verdade? como não levar a vida a sério?

(A resposta seria: virando um ponto de exclamação. Ou ainda: virando um sinal de ‘menos’. Ou: dividir por zero. Por último: sendo uma negação.) A resposta seria: negando tudo. Negando o mundo. Negando a si. Por que? Porque negar-se é a mais fácil das covardias. E desistir em frente à burocracia, é covardia

não, repara, porque a burocracia seja em si um símbolo qualquer de elevação, coragem ou bem – não porque ela mereça ser levada mais à sério do que a vontade de negá-la; não porque os ódios, algodões-doces, vontades de explodir e de explodir-se sejam atos de descoragem, mas porque eu (e esse texto é absolutamente pessoal, não importando o tom com que escrevo), porque eu sou o que eu sou, e vou acabar indo aonde o que eu sou vai. E eu fui bobo.

É covardia pra mim, porque eu posso, todo esquematizado, desistir. Em vários níveis. A burocracia, o sistema, a corrupção, a estatística, a gramática, a universidade, a seriedade: estão desde o ato de acordar com despertador até votar no 12, 13, 15 ou nulo, e além – até fazer amor de frente ou de lado – até escrever em parágrafos ou versos – até ver um filme e se emocionar ou criticá-lo  - até um aperto de mão depois de uma fala – até um xis marcado numa questão de prova – até escolher duma lista uma profissão – até escolher um nome de um bebê – até substituir vírgulas por travessões – até sorrir, sonhar, beijar, cheirar, amar. {Desistir de tudo isso?!}

O que é – senão política – amar, cheirar, beijar, sonhar, sorrir, acordar com despertador, do próprio jeito? O que é ter a audácia de despertar sem o despertador? De amar sem nomes, talvez sem Amor, de beijar os sonhos, cheirar os sorrisos, trocar verbos por substantivos, não por tendência modernista, mas pela mais pura, ingênua, inlapidada, expontânea vontade de ser tudo aquilo que parecemos desde sempre ter sido feitos para ser? O que é a política, senão a na veracidade dessa vontade – o abandono à sinceridade do querer (e do não querer também!)?

Eu, animal preso na interseção entre selvageria e ortodoxia, poeta que pinta com a matemática, músico-burocrata, desenhistabailarino, que sou eu? que devo fazer eu? senão potencializar – não um ou outro – mas o poder que reside no exato fato de eu ser ambos, de eu ligar os dois! Eu sou ponte. Eu sou anfíbio.

Eu sou ponte que liga este a um mundo melhor. Com toda a ciência de que um mundo melhor inexiste. Com toda ciência de que eu não ligo nada. E que trabalho mais grato poderia haver que o de ser ponte invisível inefável inútil? Irresponsável.

Eu sou esse meio caminho entre o que há de mais anárquico e o mais autoritário. Eu sou porta-bandeira do novo, escalador de uma montanha que, sim, uma montanha que já existe! mas que nem por isso não deve ser escalada. Eu não preciso criar uma montanha nova – mas lá de cima, eu poderei ajudar tanto mais a criar montanhas, a destruí-las quando assim for objetivo, e outros a escalá-las, (no meu dever de professor que tanto almejo).

Um cargo público, de economia, direito e burocracia – pode ser um passo. Talvez absolutamente necessário para que eu possa continuar respirando o ar da forma que eu quero respirar. Um cargo político – pode ser uma experiência. Um servo do Estado rebelde e anarquista, sorrateiro e delinqüente, que tem nas mãos, não a democracia, a liberdade e os direitos - mas a inteligência, a vontade e os meios; um sentimento de diplomacia e de pátria que vai muito além das relações internacionais ou do nacionalismo – mas um agente diplomático entre seres humanos (não entre interesses), um sentimento de pertencimento (não a um país) ao mundo e a todos aqueles que se pretendem também políticos, hasteadores de bandeiras das montanhas do mundo todo.

Sou eu, voz de uma onda, degrau de uma escada. Animal político a levar (o que? sei lá!) ao mundo. Porque é isso que eu sou: um pedreiro, mexendo o concreto, aplicando asfalto. Preparando-te a estrada. Não me menosprezes: não deixes de decolar. Tu, que lês, talvez, o meu segundo texto mais sério.

8 de junho de 2010