5 de janeiro de 2018

Analogia confusa

Fale de si na terceira pessoa — — do plural.

As partes de que eu sou feito não são eu. Assim como as infiltrações na parede de uma casa não são a casa.

Às vezes esse é o único consolo que temos. Uma parte de nós foi infiltrada. Mas nossa casa tem também uma lareira — aqueçamo-nos diante dela, ainda que as infiltrações requeiram cuidados.

Sim, dói. E há desprezo e auto-desprezo. Mas lembra: há também amor e amor-próprio. Encontra o carvão e espera o inverno passar.

4 de janeiro de 2018

Pêndulos

Lar e corpo: de onde se sai, para onde se volta.

7 de dezembro de 2017

5 de dezembro de 2017

Tirar sangue de pedra

Repara: da pedra nada sai. São sempre os teus dedos que sangram. É ti quem sangra. Perguntas-me "como viver com o coração destroçado?". Ora, a vida e o destroçamento são uma e mesma coisa. Teu erro está em, por clichê que pareça, separar teu coração da vida, como se ela fosse objeto dele. Não: a vida é o que pulsa, a vida é o pulsar.

Os deprimidos e todos os tristes — e neste mundo nós somos maioria — têm diante de si o desafio de respirar com o peito frio; amar com a alma cristalizada (isto é: frágil e dura); sustentar de pé um corpo mumificado, que deseja a imobilidade como o leproso deseja a solidão; nosso coração foi tornado pedra! — e dele a vida nos exige tirar sangue. Insana crueldade.

Mas o foco, meus amigos, não é o sangue, muito menos a pedra. É o tirar. Não me importo que exageres, que sofras, que grites. Esperneia o quanto precisares. Marcha feito imbecil à flama do apocalipse, entrega-te à besta do Tédio, te fode. Do outro lado encontrarás um espelho — — e, enquanto houver reflexão, há luz.

Para tirar sangue de pedra, basta apertá-la com toda a tua força. Deseja ardentemente, até não aguentar (essa parte é fundamental), e então desiste — tão ardentemente quanto. Os violonistas só tiram sons das cordas porque calejaram suficientemente os dedos. De nosso intensamento virá o suco da nossa vida.

1 de dezembro de 2017

Mais outra definição

Arte é o que cria pontes entre a sensibilidade e a cognição.

Morrer

Do choro nascem duas coisas: a poesia e a saúde. Nossos olhos molhados primeiro turvam, mas em seguida, se sobrevivermos, purificam. Nosso sal dá gosto ao que antes era impalatável. Nossa morte é sempre adubo. De nós mesmos não somos a planta — somos o solo. Deixemos nossas folhas cair. Pereçamos. Ajoelhemo-nos, choremos, caiamos.

Se sobrevivermos, voltamos mais fortes. Se morrermos, os outros herdarão nossa força. Permanecer vivos na fraqueza e na secura — essa é nossa única proibição.

Meu sangue é o teu sangue. Somos todos seiva do mundo.

Contra a piedade

Nossa tarefa enquanto filósofos é dizer as coisas mais terríveis que já se ouviu na Terra — — sem com isso destruir.

Essas coisas terríveis, nós as chamamos de verdades.

E talvez fosse mais exato dizer que destruímos sim: destruímos os alicerces da mentira, da fragilidade e da imobilidade.

Heráclito não descreveu o mundo quando disse que era feito de fogo. Era um apelo, para nós, sempre para nós: fogo. Sejamos fogo!

20 de novembro de 2017

Dialogo de meia idade à beira da cama

Com o olhar de quem conheceu intimamente a solidão. Assim foi que nos cruzamos, ainda que não soubéssemos na época. Desejávamos, ah como desejamos, companhia para nossa alma tão torturada, tão calejada — de quê? Mal o sabíamos nós, mas queríamos que nos advinhassem. A felicidade que juntos sentimos quase destruiu tudo, porque a nossa alma, afinal, se assentava sobre a tristeza. Quando foi que optamos pela alegria? Quando foi que desistimos de fazer silêncio? Quando foi que paramos de condenar os nossos encostos e passamos a tratá-los como vivos, como iguais? Quando foi que nos consideramos vivos? Quando foi que paramos de nos vingar e assumimos a responsabilidade pelo nosso destino, por nossa felicidade? Quando foi que abdicamos da culpa e da vergonha e, sim, mesmo da raiva, para ir além? De onde veio esse ímpeto, meu amor? Por que parecemos tão pouco numerosos? Já sabemos que não somos tão raros quanto julgávamos na adolescência. Já nos descobrimos banais. E, no entanto, tu pareces tão rara. Teríamos conseguido arrancar das fadas da nossa puberdade sofrida as asas de fogo com as quais sonhávamos em ascender? Terá nossa imaginação tão fértil cavado um furo na realidade, teremos tocado o fio do nosso porvir? Como — não era tudo vã juventude? Estaremos nós senis?

Não sei, meu bem. Acho que estamos apenas cansados.

16 de novembro de 2017

Rezar pelo aprendizado

Pai nosso que moras em mim,
Expande-me o peito para que eu possa receber,
Ainda quanto pareçam um punhal,
As palavras que me dilaceram a alma.
Que meu coração cresça com cada vão insulto
Como se das rachaduras viesse a nascer
Uma flor.

Que a humildade ilumine minha força
Tanto quanto o véu ilumina a Justiça.
Que com isso eu não me embote nem me iniba,
Mas tão-somente tempere com fractais de consciência
Meus atos insuficientemente ponderados.

Que a gentileza, comigo e com os outros,
Tenha por substância o fio do meu intelecto
Com o qual eu corto, rumo às profundezas de nós mesmos,
Os arbustos que obscurecem a nossa visão.

E que o que antes era intenso e cortante
Se sinta agora
Como torniquete em volta do espírito,
Suavemente a comprimi-lo
Para que ele não se desfaleça
Diante da dor.

7 de novembro de 2017

Gracioso para fora

A crueldade proposital quase sempre machuca menos que a incidental. Perdoamos com mais facilidade o que é feito de forma consciente, e inclusive malvada, porque aí podemos discordar e amaldiçoar. De semelhante luxo não dispomos quando, por fraqueza, o outro nos é cruel sem pretender.

One must practice mindful cruelty. Da mesma forma que um mau texto pode nos tornar melhores escritores, assim também a intimidade com nosso veneno pode nos tornar balsâmicos.

18 de outubro de 2017

Música como alongamento da alma

Uma melodia suficientemente bela afeta a fisiologia da alma. O mundo se desencolhe. A cabeça voa a alguns milímetros do pescoço. O coração pede mais espaço, para respirar confortável. Com as pernas pulamos, chutamos ou aterramo-nos. Não pense que se trata de ontologia mística ou de metáfora. A música expande a caixa torácica, torna longo o pescoço, espraia os dedos, faz dançar as coxas e a cintura. Essas alterações possuem realidade física, fisiológica, pois a alma mora no corpo e uma expansão significativa nela — — — precisa acatar uma expansão correspondente nele. Em tempos de doença do corpo, o atleta deve abrir os ouvidos e escutar música. Corpo que se expande sem correspondência no tamanho da alma — — — facilmente desinfla. Por último: uma composição poderosa demais fatiga e destrói a alma da mesma forma que um exercício além da capacidade do praticante lhe danifica os músculos. Exercitemo-nos com prudência.

17 de setembro de 2017

Sol da alma

Sem solidão, o artista morre.

De feitiços e feiticeiros

Má consciência e criatividade: é assim que um pensador consegue manter vivo (e sempre renovado) seu auto-desprezo. 

16 de setembro de 2017

Mais um bobo preconceito de filósofo

O que é exótico chicoteia o pensamento, obrigando-o a agir. Refletimos com mais liberdade — e portanto mais dificuldade — sobre os nossos hábitos mais arraigados. Ser um estranho em nossa própria terra: isso devemos cultivar. Filosofar é falar a língua-mãe com sotaque estrangeiro.

17 de julho de 2017

O Valete e a Cortesã

Existem dois antídotos para a inquietude e nenhum deles é o amor. Dela nos livramos quando rimos de desprezo ou quando choramos de emoção. Então, se o amanhã te amedronta, vai e te acha um idiota do qual rir; percebe toda a leveza e desinteligência de que o mundo é feito, ri de todos os acasos e de todas as incompetências que te trouxeram até aqui: descansa sabendo que o futuro é acima de tudo bobo. O segundo antídoto requer em nós a grandiloqüência cavernosa da alma: nosso choro deverá ser o eco do das deusas que perderam o filho. Inconsoláveis, desesperançosos, muito além da vida e de todo bem e mal devemos despejar nossas lágrimas. Os poetas têm a fama de tristes porque entre eles é mais comum esse segundo tipo de cura, a cura através da tragédia. Careciam de enormes consolos, esses espíritos afiados: suas palavras são o presente de um convalescente — presente que herdamos. Em sua homenagem, engrandecemo-nos e, benzidos da maternalidade cósmica, renascemos de olhos ainda mais abertos.

11 de julho de 2017

Dignidade salgada

Viram-me chorar e chamaram-me de fraco. Maus compreendedores. Do meu choro vem a minha força. Dele eu não abro mão.

Músculo lacrimejoso

As janelas da alma choram. A musculação do coração é o espasmo. De medo e dor a carne incha. Poesia nenhuma desfaz a necrose da alegria. Nenhum carinho acolhe as ruínas que somos. Afogou-se em mar de pálpebra.

Calvinistas entre os hebreus

Nada machuca mais o cansado do que o pouco caso de seu esforço. Os maiores anti-racistas são aqueles que odeiam a naturalização das próprias conquistas. Querem se acreditar criadores de seus próprios eus.

O filósofo triste adverte: não escolhemos quem somos.

Ego impotente

Desejaríamos que a força fosse uma escolha.

Mas não. Não se pode escolher não ser fraco.