3 de agosto de 2013

Receita para ser filósofo

1. Ceder aos pensamentos bobos.

1 de agosto de 2013

O início de um estudo sobre as virtudes do trabalho

"Não quero morrer com a sensação de que em nada contribuí; por isso trabalho."

"Curioso: pelo mesmo motivo pedi demissão."

22 de julho de 2013

Uma verdade feminina

Nem sempre dizer a verdade é o jeito certo de ser verdadeiro.

20 de julho de 2013

A contradição daquela que os cria e a força daquele que os detém – Sobre os chifres

No meu mundo, é impossível trair aos outros. Podemos apenas trair a nós mesmos.

João e Joana são um casal. Ainda num relacionamento com João, Joana fica com Carlos. Nesse momento, diz-se que João é um corno – e que Joana o traiu. No entanto, o relacionamento de João e Joana continua. Quisesse Joana realmente ficar com Carlos – ela deixaria João e ficaria com Carlos. Mas ela não deixa João. Apesar de, nítida e obviamente, poder ficar com Carlos – ela não deixa João. Ora, se “ficar com Carlos” foi realmente uma traição… Não podemos dizer que Joana --- é fiel a João, apesar de tê-lo traído?

Digamos que não, que ela não é fiel a João. Isto é: que ela não queira realmente ficar com João. Ela quer, realmente, ficar com Carlos – ou, até, não ficar com ninguém. Nesse caso, ela está indo contra o que realmente quer. Ela está traindo a si mesma. A contradição daquela que cria os chifres é entre o que ela realmente quer e o que ela faz.

Quando Joana ficou com Carlos, João ganhou um par de chifres. Esse par de chifres diz ao mundo todo: “Minha mulher, apesar de – nítida e obviamente – poder ficar com quem ela quiser, escolhe permanecer num relacionamento comigo”. A força daquele que detém os chifres é que, apesar das traições, permanece uma fidelidade.

O problema é que não é assim que funciona. Vão me dizer que a verdade é que Joana não se importa com João – vão dizer que ela se aproveita dele, que o humilha, que o faz de bobo.  A verdade, vão me dizer, é que Joana só está com João por aparência. Ela quer o dinheiro dele, ou o prestígio social dele, ou sabe-se lá o quê dele: ela quer algo dele – e não é o amor, nem o pênis.

Nesse caso, meus caros, eu tenho que concordar: Joana é uma puta traidora. Mas não, eu insisto, porque ela ficou com Carlos! A traição dela veio antes – a traição dela está em ficar com João pelos motivos errados. A traição dela está em ficar com João sem que ela realmente queira. Joana trai a si mesma.

Mas e Carlos? Carlos se importa com Joana? E se Carlos ama Joana? Não é verdade que, ao permanecer na relação com João, Joana trai a Carlos, ao amor de Carlos? Cada dia que Joana volta pra casa de João, que faz seu jantar e dorme na mesma cama que ele, Carlos sofre. Ele ama Joana e a quer ao seu lado. A intensidade e a sinceridade do que sente estão acima dos valores sociais tipicamente cultivados: que importam a ele os casamentos, os sobrenomes, a “família”? Ele a ama! E todo mundo sabe que ninguém ama dessa forma sozinho. Carlos sabe, no fundo de seu coração, que ele foi correspondido. Carlos sabe que é apenas por covardia e por inércia que Joana não se desprende de João. Carlos sabe que Joana, de fato, o ama – mesmo que ela não saiba.

E a cada dia que Joana não enfrenta sua covardia – ela trai Carlos.

Mas aí vão me dizer: Joana não ama Carlos. Lembra-se? Ela é uma puta! Ela se diverte com Carlos. Ela gosta é de estar nessa posição de traidora. Ela gosta de rir com as amigas, dizendo que traiu o marido na semana passada. As amigas, velhas e enrugadas, não conseguem mais atrair um homem e, portanto, não conseguem trair seus maridos. E é por isso que ela sempre volta a João. Em realidade, como havíamos dito, ela é fiel a ele, porque é dele que ela tira esse sentimento de poder, essa diversão cruel: sem um marido bobo para humilhar, que graça tem a vida? O que quer, realmente, Joana? É ela uma puta que quer realmente viver esses prazeres sádicos? Pois então, ao ficar com João, ela está sendo sincera! Ao “trair” João com Carlos, ela está sendo sincera! Sincera a si mesma!

O problema é que não é assim que funciona. Joana de fato ama Carlos – e percebeu isso através dos seus sonhos. Não apenas os que tem durante a noite, mas – principalmente – os que tem durante o dia. Não é em João que ela pensa quando tem um dia estressante no trabalho, não é com ele que ela pensa em dividir o bonito pôr-do-sol que avistou da janela do ônibus. Não é ao lado dele que ela se imagina levando o pequeno Léo ao parque. Joana ama Carlos. E todos os dias se culpa por não conseguir se desprender de João. Mas que escolha tem ela? João é um homem rico, por quem “se apaixonou” ainda jovem e, sem ele, como poderia ela cuidar de sua mãe doente? Carlos, por lindo e apaixonante que seja, não tem um tostão. A situação atual – casada com João, ficando com Carlos, cuidando da mãe – é a situação em que ela é menos traidora, ela pensava. Sei, pai nosso que estais no céu, que traio a mim mesma, a Carlos e a João, ao permanecer nessa situação, mas eu seria uma traidora muito pior caso eu matasse minha mãe. E se eu parasse de “trair” João com Carlos, eu estaria traindo a mim mesma e a Carlos de maneira imperdoável. Eu escolho, Deus, a menor traição.

Mas a menor traição, meus caros, ainda é uma traição. Joana trai a si mesma. A crueldade que vocês tinham lhe imputado por ser uma traidora – precisamente era essa a crueldade que faltava a Joana, para que ela parasse de trair. Porque ser sincero inclui ser cruel. Se Joana conseguisse ser um pouco mais cruel com sua mãe e um pouco mais cruel consigo mesma (pois ela certamente sairia dessa muito lesada, com o nome manchado e com menos amigas) – talvez ela conseguisse viver seu amor com Carlos e cuidar do pequeno Léo com a sinceridade e a intensidade que ele merece. E Joana saberia ser cruel com o pequeno Léo. Porque aqueles que sabem ser cruéis com seus pais -- sabem ser cruéis com seus filhos. E é preciso que sejamos cruéis com nossos filhos. Faz parte do nosso respeito por eles. É apenas a crueldade que nos permite rir de La Vita (che) è Bella.

Haverá quem queira realmente não trair? Enveredar-se pelos caminhos da verdade e da sinceridade? Lembremos sempre a importância da penetração para a vida. Lembremo sempre que o oxigênio é um gás combustível – que o queimamos para viver. Lembremos sempre que temos caninos para arrancar a pele de animais menores. Lembremos sempre que nosso estômago trabalha com ácidos. Lembremos sempre que os arcos com que se tocam os violinos são feitos de crinas de cavalo. Lembremos sempre que o amor é egoísta e ambicioso. Lembremos sempre de escrever com sangue, de amar com o coração. E que, se formos nos suicidar, que explodamos com fogos de artifício.

2 de julho de 2013

Cansado demais para chorar

Uma "injustiça": 
É nos invernos mais frios que precisamos racionar com mais rigor.

29 de junho de 2013

Cuidado com os que dizem a verdade!

Subestimamos a freqüência - e o perigo - de suas mentiras.

24 de junho de 2013

Taí

Meu cinismo e a estranha mania dele  –  de virar prosa.

6 de junho de 2013

Caro teofóbico,

A pequenez do deus contra o qual você luta é a sua própria.

2 de junho de 2013

A consumação não é necessária para a verdade

O meu suicídio é tão verdadeiro quanto o amor de Romeu e Julieta.

E o amor de Romeu e Julieta - o nosso amor, por excelência - não é o mais real de todos os amores? O amor que quase aconteceu? Que, por uma confusão de trinta segundos, deixou de ser?

Que por uma confusão de trinta segundos deixou de ser.

22 de maio de 2013

Escondendo as morais com a moral

Não se percebe as falhas nos troncos quando se olha uma floresta. Estar em um grupo significa: olhar-se de mais longe. O jeito mais fácil de sentir-se bom é: fazer parte de um grupo que diz "Eu sou bom".

20 de maio de 2013

Amar é...

A alma se curando por dentro.

19 de maio de 2013

Amor de filósofo

Serei pai do seu filho, meu amor. E isto não é apenas um desejo meu - é um destino que se realizará. Porque, se eu não for o pai biológico dele, serei-lhe igualmente paternal ao ser pai de seu espírito.

Porque, se eu não for seu amante - serei filósofo. E você não terá a coragem de negar ao seu filho a leitura de meus livros. Não, você sentiria isso como uma vergonha. Talvez você não leia os meus livros - não me importo, não os escrevo para você! - mas o seu filho os lerá! E, através dele, você vai continuar me amando. Eu criarei seu filho através das leituras que ele fizer de mim. E eu lhe ensinarei a enfrentar a vergonha e o medo, e eu o ajudarei a amar.

E aos outros que estão revolvendo meus baús com minhas cartas de amor: por um acaso ofendem-se? Acham-me um monstruoso por admitir um amor assim, autoritário violento e mau? Um amor que não deixa abertas escolhas, que desrespeita decisões, que não se importa de ser monstro? Mas não é assim - o amor?!

Jovens "alienados"!

'Nossos pais lutaram muito para que chegássemos onde estamos' é o que parecem dizer todos esses velhos que nos chamam - ora: nos acusam! - de "alienados". 'É nosso dever, enquanto pais de nossos tempos, cuidar para que o mundo não se perca', eles continuam, pra lá e pra cá, geração após geração - não se calam! Há pelo menos duzentos anos os jovens vêm sendo chamado de "alienados", sem poupamentos. Ora, ora!, mas não havia alienados antes do século XIX! Vocês se dizem pais para esconder o fato de serem filhos! Filhos do século XIX! Nem direi nada sobre aqueles, dentre meus colegas, que são antigos, mas que se olhe à minha volta todos os que são barrocos, os que são renascentistas!! Que nos importa o seu tempo?, que nos importa onde chegamos?, que nos importa sermos alienados de nossa época? Não conhecemos esse sentimento! Não pertencemos à mesma época que vocês! Recusamo-nos a ser, como vocês, filhos de nossos pais!

Um homem de poucos bens

Tenho apenas três coisas  - meu amor, - meus textos e - meus amigos. Sou mesmo um afortunado.

Violência assistida

Estupro é o que nos impede de sair de nós mesmos. Muitos são os que estupram ao amar, e o pior  - com consentimento!

10 de maio de 2013

Os meus textos se remetem a erros que cometi e são destinados a pessoas que amei.

6 de maio de 2013

Confiar é abandonar

O que significa confiar? Quem diz ‘Eu confio em você’, está dizendo: ‘Acredito que você vai tomar a decisão correta’. E se você realmente acredita – se você realmente confia – em alguém, então você não precisa ajudá-lo a tomar nenhuma decisão. Confiar totalmente em alguém é deixá-lo sozinho – como o pai que solta a bicicleta, porque confia que o filho vai conseguir. Confiar é soltar. Confiar é abandonar.

O maior de todos os abandonadores é Deus. Porque Ele fez os homens e depois se foi, dizendo: ‘Confio que fareis o bem’. Deus acredita que faremos um bom uso de nosso livre-arbítrio e que usaremos de nossas capacidades para fazer as coisas certas e boas. E ele não confia e fica olhando! – como a mãe que apenas finge que confia no filho brincando, mas segue-o, nervosa e impecável, com o olhar – não! Deus confia totalmente em nós. Isto é: Deus nos abandonou.

Pensam, meus amigos, que faço aqui um elogio ao abandono? Não mesmo. Trata-se, antes, de uma crítica à confiança! Eu tremo só de imaginar o que seria de nós, caso nossos artistas e pensadores tivessem confiado no mundo e nos homens; o que seria de nós, se tivessem dito “minhas obras são desnecessárias, porque acredito que o mundo vai se ajeitar sozinho”?! Não! Nós, artistas e pensadores, precisamos desconfiar do mundo e dos homens; não acreditamos que seguirão, sem a nossa ajuda, o melhor caminho. Nisso é necessário que sejamos mais responsáveis do que Deus.

Porque eu estou cansado de ver homens se colocando na posição de Deus e “confiando” em outros homens e no mundo, esses que acreditam que “tudo ficará bem no final”, esses que acreditam que “o tempo cura”, esses que escolhem trabalhar de 8h às 18h, esses que não checam o dever de casa dos filhos, esses que não questionam a escolha da profissão dos amigos, esses que têm medo de se intrometer – a confiança que depositam nos outros é a sua desculpa para que se abstenham de cuidar deles. Esses confiadores, esses respeitadores, esses -  - abandonadores! Não confiar: ajudar! Chega de deixar os outros sozinhos. Que confiemos nos nossos pais ou em nossos ex-namorados! - mas de nossos amigos, de nós mesmos, dos nossos amores? Desconfiar sempre! Porque de outro modo seria um crime. De outro modo seria um abandono.

É por lealdade e por amor que desconfiamos de uma mulher. E aqui, como em todo lugar, amar uma mulher não está muito distante de amar a verdade: é preciso fugir das contradições, ser sincero e leal, aliar-se à justiça, buscar o prazer e a liberdade, atentar-se aos detalhes, buscar o que há por debaixo, não ter vergonha da nudez, fazer-se belo, divertir-se com ela, brigar por ela, render-se a ela, olhar as nuvens e sorrir. Não pode ser bom filósofo aquele que tem medo de mulher.

20 de abril de 2013

Um texto escrito em caderno, depois de tanto tempo

“Por que não consigo ser como o Renato?”, eu perguntava a mim mesmo, enquanto o ouvia no carro. Por que eu não consigo ser singelo como ele?, por que eu não consigo fazer poesia desse jeito sincero e simples?

Eu invejo o Renato, mas não pela sua fama ou pela sua capacidade artística. Eu não consigo ser como o Renato, não consigo fazer poesia nu desse jeito, porque eu tenho vergonha. Eu invejo a falta de vergonha do Renato.

Uma vez a minha irmã disse “Puxa, eu tenho a impressão de que ele sofreu muito”, e isso me deixou com raiva, “Não, ele só viveu sinceramente!”, eu disse, “Ele não sofreu mais do que ninguém”. Ele não sofreu mais do que eu. Mas eu acho que é bem fácil ter a impressão de que o Renato conheceu a solidão, a tristeza e o amor.

Aí eu pensei: “Na verdade, é bem fácil imaginar que ele tenha sido órfão”. Num sentido profundo, metafórico, não no sentido literal. Mas é importante isso, porque a minha vergonha tem a ver com eu não ser órfão e, mais que isso, não poder ser órfão. Meus pais me matariam, se eu me tornasse órfão.

Eu tenho vergonha de me admitir triste e sozinho, porque isso seria uma traição às pessoas que deram a vida para a minha felicidade e estiveram sempre ao meu lado. Eu os ofendo com a minha tristeza, eu os ofendo com a minha solidão. Nem me pergunte sobre o ciúme (que tem, afinal, um pouco de tristeza e de solidão), pois este é o mais ofensivo dos sentimentos.

Eu invejo o Renato Russo, porque ele não tem vergonha de admitir que é órfão. Triste, sozinho e sedento de amor. Eu também. Eu também sou órfão. E não somos todos?

17 de abril de 2013

Consolo só para os alegres

As coisas não são como desejamos que sejam.

Isso significa que várias vezes elas são muito melhores do que podíamos imaginar!

Pergunte ao garoto que você era há uns cinco, seis anos atrás… Você sinceramente poderia imaginar que teria vivido tantas coisas quanto viveu? Você sinceramente não se orgulha de ter tido a capacidade e a oportunidade de sentir as coisas que sentiu?

Ora, ora! Eu acho mesmo que a sua tristeza de agora é em grande parte um defeito de perspectiva! Porque eu te conheço, e eu sei como você era triste. Você se sente o mais triste dos seres agora, mas você se sente assim porque está se comparando à maior das felicidades! Porque você sentiu, sim, a maior das felicidades! Enxerga-se nos seus olhos a sua capacidade para a alegria!

A versão de você que vive hoje – é a melhor versão de você. Você viveu e cresceu, e tem se tornado cada vez mais bonito. Eu tenho orgulho de você. Eu te amo. Agora só falta você

15 de abril de 2013

A menor distância

A menor distância entre duas pessoas não é quando elas se encostam. É quando uma mora no coração da outra.