Nada contra quem escreve mau. O problema sempre foi quem escreve bom.
5 de fevereiro de 2016
Após o crepúsculo
O vale do cinismo é o mais tenebroso e escuro dos obstáculos separando os homens de Deus.
Reino dos maus
Ser bom ficará mais e mais difícil, pois a bondade foi inventada para servir de teste domesticador. Termômetros da justiça, só os divinos! Na terra, são os homens contra os sentimentos.
28 de dezembro de 2015
10 de dezembro de 2015
5 de dezembro de 2015
estágios iniciais do exorcismo
mora um suicida em mim
eu queria só
que ele se matasse
e me deixasse viver
em paz
eu queria só
que ele se matasse
e me deixasse viver
em paz
30 de novembro de 2015
A metáfora de Sócrates
Em tempos de repressão, pouquíssimos são os sentimentos que assumem a sua primariedade. A tristeza, para dar o exemplo, não "apenas vem" ou "sai", como deseja o poeta otimista, mas ela precisa efetivamente ser movida para fora, incentivada, aceita, fomentada, cultivada. Os sentimentos são produzidos, mesmo aqueles que já nos habitam: senti-los envolve um processo. O chefe do jornal dos nossos sentimentos em cada um tem diferentes sensibilidades editoriais e de diferentes sentimentos permite a vazão, a expressão — não raro seguindo uma agenda, política como tudo o mais, igualzinho aos jornalecos que se vê por aí. Há muito trabalho a fazer se quisermos ser como cientistas ou até mesmo como artistas — nesse ramo de editoria subjetiva. Nossos amigos precisam de nós e de nossas mãos para recebê-los: eles não nos preexistem, afinal: nós que os criamos! A maior caridade é receber a tristeza do outro, agraciá-la com nossa atenção e corajosamente dar-lhe o espaço que ela merece: e não aquele que nossos editores acham que ela merece. Editores são bichos-papões em todo lugar. Resistamos. Os homens, para nascer, precisam ser paridos. Também assim é a liberdade de sentir. Somos deuses, com o poder de criar, nos outros e em nós mesmos, mundos que o mundo nunca viu antes.
24 de novembro de 2015
Coração
O coração perfurado bombeou a última vitalidade
Morreu de tédio quarenta anos depois
Não conseguia abrir os olhos porque os olhos da alma quem abre é o coração
Mas coração perfurado não tem alma e morre
21 de novembro de 2015
9 de novembro de 2015
Ambiguidade existencial
A ânsia de viver de um escritor produz poderosos consolos — muitas vezes contra a vontade dele!
7 de novembro de 2015
10 de outubro de 2015
Canção de vida e morte
Nós, espíritos primaverais, temos muito o que aprender com nossas amigas flores. Não tanto a abrir, pois a isso somos todos naturalmente inclinados, mas sobretudo a fechar — com leve e graciosa indiferença, não por não ser terrível o destino de quem nunca mais abre (é), mas pela calma de saber que abrir não é uma escolha. Nossa maior neurose não é a de querer pôr fim aos sofrimentos, mas a de querer dar início às potências. Quanto mais romântico, nesse sentido, tanto mais doente.
Não somos nós os autores de nossos prazeres. Nossas mais belas composições são menos atos de canalização de força do que de permeabilização ao que nos é externo. Aqui, como em todo lugar, assombra-nos o espectro do indivíduo. Pura ilusão. Na natureza não há indivíduos; no máximo, há contornos.
Querer menos, desejar mais. Diminuir o atrito interno. Hibernar com devoção, entregar-se à incerteza.
Quantos conselhos em linguagem de esfinge não deixaremos para o futuro? De nós esperamos apenas que cresçamos. As maiores notas de suicídio foram as que nossos eus do passado deixaram para nós — nós, herdeiros; eles, mártires. Continuamente morremos ao parir a nós mesmos. A cada dia um novo sol nos espera. Muitas auroras ainda estão por vir, e serão nossas alegrias que as desfrutarão, sentadas na praia ou no topo da montanha. Nossas tristezas e nosso cansaço pertencem ao eclipse vindouro: cairão, enfim, em desgosto.
Morreremos ainda cem mil vezes, e tantas vezes mais renasceremos. A fênix que em nós faz lar brilha sempre mais forte, e a cada morte se incandesce ainda mais. O que não mata, fortalece? Precisamente a morte — a nossa morte! — torna-nos mais fortes, torna-nos quem somos. Essa dualidade de si — de sermos ao mesmo tempo filhos e pais de nós mesmos, ao mesmo tempo fetos nascituros e idosos suicidas — explica a variância estilística na prosa e o diálogo interno na filosofia. Somos dois. Um a morrer, outro a nascer.
Com que caneta escreveremos o futuro? Com que braços ninaremos nossas crianças? Com quantas poesias se ganha uma guerra?
Temos muito o que aprender com nossas amigas flores.
3 de outubro de 2015
1 de outubro de 2015
Por amor ao mundo
De todas as artes o teatro é a mais dada ao choro. Nele a solidão é impossível, pois mesmo o espectador solitário se confronta com a carne-e-osso no palco à frente. A poesia, ao contrário, permite e até encoraja a solidão, e por isso exige uma música interna adequada, um silêncio mental cavernoso, capaz de ecoar as rimas e de dar profundidade aos sons. O teatro não. No teatro, a caverna se impõe de fora pra dentro, destrói os barulhos internos, impera autoritária sobre qualquer que seja o concerto dos órgãos, rouba-lhes as batidas ruidosas para em seu lugar colocar gloriosas cordas de harpa — com as quais os anjos-atriz produzirão celestial melodia.
Assim foi meu encontro hoje com Hannah. Um confronto lacrimejoso, entristecido; sobretudo desentorpecido. Não havia dorflex que me impedisse de, olhando-a nos olhos, sentir-lhe a companhia. Ela, mulher, amante, pensadora, atriz, judia, filósofa, musa, singela. Atacava-me com as palavras, furando minha tristeza, alimentando-me de humanidade. Nunca fui tão judeu quanto defronte dela. Tornou-me homem ela, pegou-me pelo braço e me ensinou a coragem que dormia em mim, sempre dormiu. Não há monstros nos outros, ela diz, em franca oposição aos corações de todos em sua volta. Nossos monstros são nossas mediocridades. Nossas banalidades, nossas fraquezas. Um grito de vida e de esperança procurando —não: exigindo! — grandeza. Nossa grandeza.
Com a pequenez da minha hombridade judia contrastava a grandiosidade da estória do meu povo. Não, não o meu povo judeu, que nunca me pertenceu nem me deixou pertencer. O povo-verdade, povo ensimesmado, povo vivo. Sorriso de criança. De amor e de esperança a terra se adensa. Nosso sofrimento é nosso adubo. Nossas artes, nossas folhas. Por que o teatro faz tanto chorar? Porque, embora não sejamos todos poetas nem músicos, somos todos atores no palco da vida. E a amizade de que tanto carecemos não é senão sorriso de atriz. Ela, que chora com o teu choro, te ama como às estrelas os gregos. Fazer teatro é fazer do próprio corpo um grande ombro no qual os homens chorem. O teatro é uma mulher! Seu nome é Hannah e a ela não podemos senão amar.
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