18 de outubro de 2017

Música como alongamento da alma

Uma melodia suficientemente bela afeta a fisiologia da alma. O mundo se desencolhe. A cabeça voa a alguns milímetros do pescoço. O coração pede mais espaço, para respirar confortável. Com as pernas pulamos, chutamos ou aterramo-nos. Não pense que se trata de ontologia mística ou de metáfora. A música expande a caixa torácica, torna longo o pescoço, espraia os dedos, faz dançar as coxas e a cintura. Essas alterações possuem realidade física, fisiológica, pois a alma mora no corpo e uma expansão significativa nela — — — precisa acatar uma expansão correspondente nele. Em tempos de doença do corpo, o atleta deve abrir os ouvidos e escutar música. Corpo que se expande sem correspondência no tamanho da alma — — — facilmente desinfla. Por último: uma composição poderosa demais fatiga e destrói a alma da mesma forma que um exercício além da capacidade do praticante lhe danifica os músculos. Exercitemo-nos com prudência.

17 de setembro de 2017

Sol da alma

Sem solidão, o artista morre.

De feitiços e feiticeiros

Má consciência e criatividade: é assim que um pensador consegue manter vivo (e sempre renovado) seu auto-desprezo. 

16 de setembro de 2017

Mais um bobo preconceito de filósofo

O que é exótico chicoteia o pensamento, obrigando-o a agir. Refletimos com mais liberdade — e portanto mais dificuldade — sobre os nossos hábitos mais arraigados. Ser um estranho em nossa própria terra: isso devemos cultivar. Filosofar é falar a língua-mãe com sotaque estrangeiro.

17 de julho de 2017

O Valete e a Cortesã

Existem dois antídotos para a inquietude e nenhum deles é o amor. Dela nos livramos quando rimos de desprezo ou quando choramos de emoção. Então, se o amanhã te amedronta, vai e te acha um idiota do qual rir; percebe toda a leveza e desinteligência de que o mundo é feito, ri de todos os acasos e de todas as incompetências que te trouxeram até aqui: descansa sabendo que o futuro é acima de tudo bobo. O segundo antídoto requer em nós a grandiloqüência cavernosa da alma: nosso choro deverá ser o eco do das deusas que perderam o filho. Inconsoláveis, desesperançosos, muito além da vida e de todo bem e mal devemos despejar nossas lágrimas. Os poetas têm a fama de tristes porque entre eles é mais comum esse segundo tipo de cura, a cura através da tragédia. Careciam de enormes consolos, esses espíritos afiados: suas palavras são o presente de um convalescente — presente que herdamos. Em sua homenagem, engrandecemo-nos e, benzidos da maternalidade cósmica, renascemos de olhos ainda mais abertos.

11 de julho de 2017

Dignidade salgada

Viram-me chorar e chamaram-me de fraco. Maus compreendedores. Do meu choro vem a minha força. Dele eu não abro mão.

Músculo lacrimejoso

As janelas da alma choram. A musculação do coração é o espasmo. De medo e dor a carne incha. Poesia nenhuma desfaz a necrose da alegria. Nenhum carinho acolhe as ruínas que somos. Afogou-se em mar de pálpebra.

Calvinistas entre os hebreus

Nada machuca mais o cansado do que o pouco caso de seu esforço. Os maiores anti-racistas são aqueles que odeiam a naturalização das próprias conquistas. Querem se acreditar criadores de seus próprios eus.

O filósofo triste adverte: não escolhemos quem somos.

Ego impotente

Desejaríamos que a força fosse uma escolha.

Mas não. Não se pode escolher não ser fraco.

21 de junho de 2017

Consolo da espécie

Todo sistema com capacidade de cura é potencialmente imortal.

Afetos montanhosos

Os gigantes são tristes e solitários.

Dois-em-um

Para criar o que quer que seja, o artista precisa se duplicar. Os seres comuns vivem tão-somente no mundo da afetação, receptores passivos de tudo quanto Deus lhes dá. Os artistas não escapam desse mundo, e afinal é com o intuito de afetar que criam, mas habitam também o reino de deus, um submundo da consciência, a partir de onde pressentem (isto é: sentem sem sentir) o que virá a compor sua obra. Eles não são personagens dos seus romances, nem mesmo quando se trata de autobiografia, mas algo distinto, nublado, sélfi-distante. Esse exercício — de ser além do que se é, de colocar-se do outro lado do cavalete da existência — aproxima os artistas do divino e os imbue de algumas ferramentas sentimentais que dariam inveja a qualquer filósofo (que nada mais é do que um artista doente; todo filósofo padece de sua obra). Dentro de alguns séculos, quando tivermos finalmente afetado tudo, criaremos "terapias" para emular esse devir-deus dos artistas, sedentos que estaremos da nossa própria potência transmundana. Até lá, o mundo permanece dividido em duas classes: os criadores e os criados.

Constante refinar-se

Nosso primeiro eu é isto: o primeiro. Rascunho a ser superado.

Violência e sensibilidade

Garras afiadas nem sempre se opõem a olhos secos.

O eu e suas bestas

Quem tem alma simples não filosofa. Para conversar consigo é preciso ter, no mínimo, alma dupla.

Pensar sob quarentena

Não faça da impotência ideologia.

20 de maio de 2017

Elogio à pátria

Alguma língua possui subjuntivo mais belo que o português?

18 de maio de 2017

Pensamento magro

Desconfie de toda filosofia gorda. Quem para pensar precisa de polissílabos se assemelha a quem para correr precisa de muletas. Vigorous thinking is concise. Em seu habitat natural o pensamento corre, dança, salta, escala, rola — brinca! Longe dos venenos o pensamento medra elástico e esguio, rente à vida, semeado pelo prazer. Não precisa enrijecer ali onde se pede curvatura. Mantém um tônus espontâneo, desesforçado, muito diferente dessa hipertrofia compulsiva a que aspiram nossos mui corretamente chamados “acadêmicos”. Esses livros infinitos que se lê, coletâneas, enciclopédias, listas de exercícios, comentadores, bibliografias secundárias, citações referenciais — tudo isso, quando não é asquerosa gordura, é plástica. Relembremos nosso amigo Arthur, lebre entre elefantes: “Para ter lido tanto assim, deve ter pensado muito pouco!”. Contra essa excessividade do intelecto, cultivemos uma filosofia funcional — leve, definida, ágil. Nossos músculos são mais intensos que extensos. Nosso pensamento, bem como nossa prosa, é de uma finesse calistênica.

10 de maio de 2017

A felicidade tem muitos pré-requisitos

É preciso arriscar perder para ganhar.

4 de maio de 2017

Ser-para-si

As crianças são tão acostumadas a serem feitas de objeto que acabam crendo que sê-lo é nobre e digno. Assim, mostram à mãe o seu amor advinhando o que ela deseja — e fazendo o possível e o impossível para se transformarem nisso. Toda instituição aproveita esse funcionamento em algum grau: define o que é “desejável” e pune o que não é. As pessoas mais felizes são aquelas que melhor conseguem distorcer os próprios desejos para que se conformem aos desejos do Outro.

Não é assim que queremos amar. Não queremos amar objetos; não queremos amar quem se sujeita. Queremos sujeitos próprios. Queremos senhores de si. Alguém que deseje realizar os próprios desejos, não os desejos de outro alguém.

E para isso é preciso ter desejos próprios. Este é o antídoto contra essa neurose no amor. Ter desejos próprios! Não os projetar, portanto, nem na criança nem no namorado nem no aluno nem no amigo.

Não precisar de outros. Dispensá-los. Conseguiremos amar assim? Quanta imoralidade!

Queremos ser desrespeitados, pois somos poderosos mas não infalíveis. Queremos que desconfiem de nós, pois somos humanos e não tijolos institucionais. Queremos ser desobedecidos, pois não amamos o poder, apenas ojerizamos a fraqueza. Amemos a força do outro, a independência do outro, a rebeldia do outro, a transgressão do outro. Amemos, enfim, o outro — não a imagem que ele tem do nosso desejo.

Comecemos amando o outro — — — em nós.