Tudo nele era frágil, como se fosse bolha de sabão, castelo de areia, açúcar na chuva, esperança na guerra.
25 de fevereiro de 2021
Insânia nervosa
24 de fevereiro de 2021
Do amor-próprio a saudade
Cortou-se no vento frio que vinha de dentro
Paralisado, desceu.
A umidade assombrava, como se tudo ali
fosse tocado por uma falta de sol
Muita poeira, pouca ação
Aranhas infelizes teciam-no escuro
De longe a tristeza se confundia
com uma faca
cujo fio residia no cabo,
de forma que era cega para fora
Cortava ao contrário, abrindo
o punho de quem a empunhava
Todo sujo de sangue,
apodrecia devagar
matando aos poucos
sem nada
cérebro ruim
poesia ruim
1 de fevereiro de 2021
12 de janeiro de 2021
Reencontro de pátrias
Ah, que doce mais doce: amigo meu, antigo como o vento, voltou a escrever em suas paredes. Que sorriso profundo me habita, que brilhar dos olhos me toma, que eriçar dos pêlos da minha nuca. Meu coração bate mais feliz, porque nesta Terra, depois de longa contusão, voltou um espírito a dançar — suas letras são suas pernas. Mesmo quando dói, quando o joelho lhe arranca a felicidade e o cansaço a preenche por inteiro — perdoa-me, caro Polter Geist, se parece que eu fico feliz com sua miséria: é que eu te amo o nanquim, eu te amo as penas, eu te amo os parágrafos e as palavras tristes. Perdoa que te ler seja o meu encanto.
Desvirginar-se
2 de janeiro de 2021
28 de dezembro de 2020
Acalenta
Coração que dói não sabe esperar. Sua ânsia é tua ânsia. Tem paciência com ele: o inverno passa e tu o esquentarás.
20 de novembro de 2020
Vela que se apaga
Ficamos como que surdos a nossa própria música. De que modo podemos convalescer, se de nós mesmos abrimos mão? Médico nenhum cura quem da vida já desistiu. Como Ludwig, como Sewerin, devemos compôr não com nossos ouvidos, não com nossos dedos — mas com nossos corações. Que a poesia em nosso interior nos aqueça, luz em meio à escuridão. Luz que esmorece, gota a gota. Veneno que mata devagar. Deixa-me no escuro. Aqui no escuro, onde a vida cai.
4 de novembro de 2020
Tripla paráfrase
3 de novembro de 2020
16 de abril de 2020
Ar fresco
O ar, é claro, sempre esteve aí. Nós é que às vezes nos esquecemos de balançar.
18 de junho de 2019
Jejuar
Cuidado para não saciar a fome rápido demais. Para certos valores, é preciso cultivar vazios.
Pobreza adulta
Sobrevivi a tantos corações partidos.
Talvez, se a coragem de ser triste
não me tivesse abandonado,
eu podia fazer poema dessa chuva
Em vez de ficar todo molhado.
Não mais adolescente
Talvez, debaixo de toda essa ansiedade, haja tristeza encubada e medrosa, como criança que se esconde debaixo das cobertas.
Talvez houvesse alegria.
6 de fevereiro de 2019
Uma vida menos agüada que aterrada
Como golfinhos ao avesso, acessamos periodicamente nossas cavernas para respirar. A terra, nossa guardiã ancestral, provê-nos o sal com que tornamos palatável a vida infra-marina.