Se a verdade ofende, então por definição o ofendido está errado.
18 de janeiro de 2019
Seres urobóricos
As maiores dificuldades são sempre auto-infligidas. O consolo é que as maiores forças também.
10 de novembro de 2018
26 de outubro de 2018
Prece do tempo
24 de setembro de 2018
As misérias do processo
16 de setembro de 2018
18 de julho de 2018
(fragmentos perdidos) Profundo 'tudo bem'
Talvez seja justo dividir as ações humanas (incluindo os pensamentos) em revoltadas e integradas. Podemos imaginar um dedo que se revolta contra a mão, e até mesmo uma célula que se revolta contra o tecido, mas não faz sentido pensar numa gota d'água que se revolta contra o mar de que faz parte. Não pode haver guerra sem partes, e onde não há individuação não há o que partir. Também é verdade, é claro, que as individuações não precisam levar à revolta: nem todo contorno é uma fronteira militar. Mas para que haja revolta, é preciso que haja partes. Aquilo que não se particiona permanece, por inércia, um todo integrado.
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A cognição opera por divisão. Separa, diferencia, contrasta, compara. Claramente a capacidade de dividir, de diferenciar, é evolutivamente benigna. Na guerra contra a entropia, a existência amoébica não interessa. A quem se identifica com a revolta, a integração soa como um passo para trás.
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Mas a própria cognição conhece seus limites. Sabe que não pode ter sido, ela mesma, resultado de um ato voluntário revoltado, separado do mundo. A cognição é parte do mundo, assim como o ser humano é parte do reino animal e a Terra, um planeta entre milhões. Não há excessões. O que está no mundo ao mundo pertence. Não podemos aspirar a ser nada senão aquilo que já somos. Qualquer robô, dermocosmético, nazismo ou tortura que inventarmos terá sido permutação de elementos previamente existentes. Nada terá sido criado. Nenhum passo para longe da Natureza terá sido dado. O mundo é uma totalidade causal fechada, sem exterior. Também isto a cognição já sabe.
Para o cognitivista, se eu puder reinventar o termo, o significado da vida encontra-se na realização de um número cada vez maior de contingências, isto é, na expansão do mundo "efetivo" (au lieu do mundo "possível").
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26 de junho de 2018
Metamorfosear-se em predador
Antes de dormir, pergunte-se com sinceridade e um pouco de carinho: de quê fugi hoje? Ignore impulsos catárticos — o que não se fez durante o dia tampouco se pode vomitar à noite. Faça o possível para se livrar de julgamentos acerca das consequências: não nos interessamos por "fazer o bem" nem em colher créditos com o futuro. Julgue senão o páthos presente nas suas ações e inações: houve ali paixão? vingava-se de quem? com quem competia? estava cansado? sentia-se superior? encarecido? quente? sub-utilizado? preguiçoso? desconjuntado? irrespirado? Observe o medo, a culpa, a intromissão de pensamentos, o franzir das sobrancelhas, a produção de adrenalina, as contrações e os relaxamentos, o encolher-se da alma, a vontade irrefreável de dormir. Torne-se, com o treino, senhor de suas sensações — conheça o que lhe faz girar as engrenagens, sutilize a auto-consciência até os níveis químicos, sub-atômicos, sinta-se em cada grão, identifique os seus eus profundos — — saiba o que você é ao ser. Não o que você acha, agora à beira da cama, que foi. Não o que você causou ao agir, nem como transformou ao mundo ou aos outros. Preencha-se de si mesmo: se você não é extenso o suficiente para isso, engrandeça-se. Desenvolva olhos de águia e com eles mire as suas covardias. Calcule a trajetória que fizeram até ali, encontre seu ponto fraco, mapeie seus hábitos, triangule onde estarão amanhã. Por enquanto, contente-se em espreitar: estamos apenas meditando antes de dormir. Mas, aos poucos, perceba o seu coração acompanhando os olhos, tornando-se gradativamente — — de rapina. Quando estiver pronto, e tão naturalmente quanto a covardia hoje lhe causou fugas, amanhã um algo diferente causará seus movimentos. Aprenda, de si e para si, a desacovardar-se.
20 de junho de 2018
Our biggest asset
Covardias acumulam e cobram dividendos. Ai de quem as cultiva: de seus ovos nascem dragões de neurose! Aprendamos a identificá-las quando ainda são pequenas e tratáveis: pequenas coragens — dizer a verdade, reclamar direitos mesquinhos, cuspir o veneno de volta no copo — são como ações investidas no incípio de uma empresa bem sucedida. Nosso portfólio de investimentos espirituais começa com as pequenas covardias que superamos. Não as subestimemos.
17 de maio de 2018
Unicidade
Mas haverá mesmo essa distinção entre estética e ética? Não é verdade que todo caminho define ao mesmo tempo uma direção e também uma forma de caminhar? Não são quase sinônimos? "Para frente" é uma direção ou um modo? Retidão é um alvo ou uma forma de contornar? Existe diferença entre um objeto e os contornos funcionais que o definem? A natureza afinal possui substrato?! Somos (aquilo) o que somos ou (a forma) como somos? Não é todo ser afinal — — adverbial?
As estéticas são éticas. A breguice (pra dar o exemplo) não somente descreve, mas prescreve também.
Tomar cuidado com armadilhas filosóficas!
Historinhas
É possível ser cínico e responsável ao mesmo tempo? As responsabilidades precisam ser inventadas e, então, aceitas enquanto invenções. O mundo criou uma tabela de valores tacanha, inveterada, incrivelmente brega. Rejeitemo-la em bases estéticas, mas sem lhe esquecer as lições.
16 de maio de 2018
Pai de rapina
Perenear nosso estilo é semelhante a acolhê-lo com grandes asas paternais. Protegê-lo, sim, mas também desafiá-lo, pô-lo à prova; alimentá-lo com música e silêncio, bem como avaliá-lo (com toda crueldade) e incentivá-lo a enfrentar a vergonha e o medo. Somo-lhe pais para o bem e para o mal. A tarefa da paternidade possui duração. Perenear um estilo, como a um espírito, é prepará-lo para a adultice, cultivá-lo em meio a bons hábitos e suficientemente alertá-lo para o perigo (quando não for possível fortalecê-lo). Nem toda poesia terá métrica. Que tenha então alma.
Rio
10 de maio de 2018
Orgulhinhos balsâmicos
8 de maio de 2018
Palavras descansadas
Superabundam textos tristes. Nenhum espanto — os alegres costumam estar ocupados. Lembremos que dançar cansa! Mas não desanimemos: a alegria está aí (bem como o cansaço, é verdade). A nós, escritores, talvez caiba uma responsabilidade um pouco maior, que é a de comunicar a alegria com frequência mais representativa do mundo real. Afinal, são os poetas que erguem os alicerces emocionais da civilização. É um imperativo científico reconhecer a existência da alegria bem como a do sofrimento. Ensinemos às próximas gerações a capacidade de ter prazer! — e façamo-lo com desenvoltura, elegância, ritmo. Sorrir! — com o corpo, com as palavras, com a própria vida. Dançar. Transar. O mundo não é apenas terrível. Vale a pena repetir. O mundo não é apenas terrível.
4 de maio de 2018
Ombros de poeta
O que vos tento dizer, meus caros, o que de minhas ações e sofrimentos é consequência viva, esta verdade da qual sou testemunha admoestada, da qual mil vezes tentei fugir, que se prende a minh'alma como sanguessuga benigno, bálsamo venenoso, molho à minha sopa de pedras conceituais, aquilo que mais profundamente me tornei, fui tornado: — sobrevivente! Minha crônica de mim mesmo não é exemplo, mas é espécime. Sou filho da natureza, de alguma natureza, e estou vivo. Mais do que isso: por tanto que eu tenha sofrido, e por mais que eu tenha tão compreensivelmente amaldiçoado os deuses e desejado qualquer outra coisa que não o meu fardo e meu fado e meu fato — — de tudo isso fiz alguma coisa e sobrevivi nem que alguns anos. E de novo e de novo, e tanto mais forte quanto fundo quedei, levantei. Como se houvesse sempre sorriso me esperando, como se disso eu não escapasse nunca, como se eu fosse missionário da alegria dos homens, ainda que impossivelmente dolorosa e ridiculamente improvável. Abandonemos nossa ideia enfraquecedora de natureza: a floresta não se importa de queimar. Ela, muito mais que nós, renascerá. Porque seus frutos são necessários. E é de necessidade semelhante que somos feitos, que tiramos nossa imortalidade. Fria poesia do carbono. Indiferença: esse é meu consolo e conselho para vós que chorais. Debaixo do vosso choro há uma necessidade e aqui os filósofos acertaram: carência orgânica e obrigatoriedade lógica são irmãos conceituais e por isso recebem, adequadamente, o mesmo nome. Não pergunteis apenas do que necessitais, mas que necessidade conjugais, manifestais. Encontrai em vós o que é da Natureza e olhai-vos com Seus olhos. Sofrei, perecei, renascei.
Acre consolo
E se a convalescença — o valor supremo para todos nós que estamos doentes — necessitar dos nossos gritos e quedas e da mais profunda dor e supremo sofrimento? E se, ao final de cada sessão de tortura, remitisse-se o câncer de que padecemos? E se houver sono, verdadeiro descanso, depois das mortes? Que caminho é esse? Por onde se vislumbra dor e escuridão, por onde sequer réstia de luz nos chega a iluminar... Estaremos confundindo, como os antigos, sofrimento com crescimento? Seremos nós parte desse conjunto insuportável de miséria — desnecessária, sem fio nem alvo — dos homens? Habitamos a galeria dos mortos-vivos? Viveremos?!
3 de maio de 2018
Pior
Acima de todas as coisas, deve-se odiar a si mesmo. Com a força de mil dragões e cem tempestades, como se não houvesse tesouro que não se reservasse por detrás do castelo tenebroso de si próprio, e como se só através da raiva e do auto-desprezo esse tesouro se revelasse. Como se tudo de bom só pudesse existir se um ódio maior que a vida, maior que Deus, consumisse tudo e todos, principalmente a si mesmo. Como se de todos os assassinos e estupradores e genocidas e tiranos e psicopatas reunisse-se em si mesmo o que há de pior, o extrato mesmo da maldade, e dessa substância escura não se visse nenhuma luz nem se sentisse nada que não profundo desprezo, nojo, podridão — como se os vilões dos desenhos fossem reais e você os incorporasse com cada célula do corpo. Como se nada nada em você pudesse se salvar ou ameliorar, tudo em si corrupta escuridão e desfalecimento, hanseníase moral da humanidade, fétido feto abortado da luz, morto de propósito com agulhas elétricas enfiadas pelo cu de Maria. Como se nada pudesse ser capaz de perdoar a sua alma e qualquer animal, por inferior e simples seu sistema pensamentivo, imediatamente se enojasse da sua presença e reconhecesse nela supremo perigo e animosidade, como se a própria natureza o rejeitasse em tudo — e apesar disso ainda fosse patético e miserável. Nada, e paradoxalmente, o pior de tudo. Fera da fera, lobo do lobo. Torturador, algoz, assassino. Nada satisfaria mais Deus que a tua aniquilação.
Contra o que se deve revoltar
Tudo o que nos apequenou e amoleceu, tudo que justificou o apequenamento, que condescendeu-se à moleza. Tudo que livrou a cara do tapa da natureza e mais ainda aquilo que justificou a fuga do tapa com um esbravejar rouco contra as tempestades. Tudo que em nós fugiu da natureza e tudo que lá fora encontrou refúgio, cama inflável, joelheira, capacete, sistema de segurança, prudência: a competência se conquista cortejando o desconhecido. Quem preferiu castrar antes para não precisar abortar depois. Quem pede cautela, regulação, paternalismo urubuzante, tutela, pastoreio, mão-na-mão e colo. O direito de morrer se conquista vivendo perigosamente. Que o perigo deixe sua marca em nós e que a prudência — nossa prudência — não tenha como alvo nada que nos é exterior. Entendamos as guerras e a bestialidade. Somos monstros! E devemos nos revoltar contra tudo que tentou esconder este fato. Véu dos véus, essa moléstia sobre o espírito! O carinho, meus caros, deve vir depois, depois! Antes: precisamos brincar na lama da natureza.