27 de outubro de 2022
21 de abril de 2022
Desrespeito
A dívida em si é indolor. O grande sofrimento se encontra na vergonha. Quem não tem vergonha não sofre senão quando é descoberto. Quem tem vergonha sofre sem causa nem palco.
Receber ajuda não incomoda; pedir ajuda destrói.
Este aqui se encontra sob os outros homens, mas não aquém. Aquele mora na montanha mais alta, mas morre sem par nem lar.
27 de outubro de 2021
Forja
25 de julho de 2021
Naturalmente
18 de julho de 2021
Recursão inversa
21 de junho de 2021
Palavras rupestres
A missão do escrever
Curta
15 de março de 2021
Eu queria que todos os textos que saem de mim viessem de um lugar de abundância. Mas a abundância, em mim, é escassa. Eu só tenho faltas e ausências pra dar.
Nada que eu faço eu faço direito, e nada que é meu direito eu faço. Agora eu escrevo textos ruins, como se eu fosse o fantasma de um escritor famoso — que nunca existiu. "Eu sou nada", repito, fingindo, como se pessoa no mundo soubesse, como se ajudasse.
Mas não é nada mesmo. É só demora e preguiça, moleza e falência. Quem perde a sela cai do cavalo. Revivendo a fome de anos amaldiçoados, mas até a maldição expirou e não sobra nada.
Nada
1 de março de 2021
Mixed fucking signals
25 de fevereiro de 2021
Volátil
Tudo nele era frágil, como se fosse bolha de sabão, castelo de areia, açúcar na chuva, esperança na guerra.
Insânia nervosa
24 de fevereiro de 2021
Do amor-próprio a saudade
Cortou-se no vento frio que vinha de dentro
Paralisado, desceu.
A umidade assombrava, como se tudo ali
fosse tocado por uma falta de sol
Muita poeira, pouca ação
Aranhas infelizes teciam-no escuro
De longe a tristeza se confundia
com uma faca
cujo fio residia no cabo,
de forma que era cega para fora
Cortava ao contrário, abrindo
o punho de quem a empunhava
Todo sujo de sangue,
apodrecia devagar
matando aos poucos
sem nada
cérebro ruim
poesia ruim
1 de fevereiro de 2021
12 de janeiro de 2021
Reencontro de pátrias
Ah, que doce mais doce: amigo meu, antigo como o vento, voltou a escrever em suas paredes. Que sorriso profundo me habita, que brilhar dos olhos me toma, que eriçar dos pêlos da minha nuca. Meu coração bate mais feliz, porque nesta Terra, depois de longa contusão, voltou um espírito a dançar — suas letras são suas pernas. Mesmo quando dói, quando o joelho lhe arranca a felicidade e o cansaço a preenche por inteiro — perdoa-me, caro Polter Geist, se parece que eu fico feliz com sua miséria: é que eu te amo o nanquim, eu te amo as penas, eu te amo os parágrafos e as palavras tristes. Perdoa que te ler seja o meu encanto.
Desvirginar-se
2 de janeiro de 2021
28 de dezembro de 2020
Acalenta
Coração que dói não sabe esperar. Sua ânsia é tua ânsia. Tem paciência com ele: o inverno passa e tu o esquentarás.
20 de novembro de 2020
Vela que se apaga
Ficamos como que surdos a nossa própria música. De que modo podemos convalescer, se de nós mesmos abrimos mão? Médico nenhum cura quem da vida já desistiu. Como Ludwig, como Sewerin, devemos compôr não com nossos ouvidos, não com nossos dedos — mas com nossos corações. Que a poesia em nosso interior nos aqueça, luz em meio à escuridão. Luz que esmorece, gota a gota. Veneno que mata devagar. Deixa-me no escuro. Aqui no escuro, onde a vida cai.