20 de abril de 2023

À parte os afogados

A paralisia é o sintoma e o veneno. Da ansiedade o oposto é a ação. As asas bate-se antes de voar. 

7 de abril de 2023

A criatividade e o cansaço

O gasto de energia bem sucedido quase não cansa a alma. Criar dói, mas alivia. O não conseguir mata.

4 de março de 2023

Cheio de breu

Eu não tenho medo de morrer, mas eu morro de medo de me matar. Não se preocupe: eu não tenho a personalidade suicida e, além do mais, tenho promessas que me ancoram. 

Gosto de pensar que amo a vida — é possível! Afinal, os amores sempre testam os nossos sentimentos. A verdade é menos poética do que desejamos.

Felizmente, o amor é sobretudo uma escolha. E, embora eu tenha desistido de quase tudo na vida, tenho orgulho de dizer que nunca desisti do amor. Nele, e talvez somente nele, eu me fiz sólido.

Se algum dia eu padecer, pode crer que foi de vergonha. Não de desamor. A vergonha, e ela somente, me enegra. Até a culpa eu lhe prefiro: motivo pelo qual tantas vezes me escondi nesta para fugir daquela. Inimigo maior —— ainda não encontrei. A vergonha é meu dragão; volta e meia eu me pego sem espada.

Não duvide quando digo que lhe escrevo equânime. Escrever, pra mim, é o oposto de se envergonhar. Se escrevo, estou ganhando. Mas se algum dia eu parar de escrever, se algum dia eu parar de praticar, se algum dia eu parar de viver, pode crer que a vergonha me venceu. 

8 de dezembro de 2022

Afrouxar dos punhos

Os sofrimentos também respeitam as regras de conservação da energia e tendem a encontrar formatos mais estáveis e mais econômicos de subsistir. Permanecem na forma de tensão, espalhados nos músculos exercendo relativamente pequeno, porém constante, estresse nos nervos. Como os olhos semi-cerrados de um viajante cansado, que não pode nunca se entregar à doçura do sono completo por medo de perder o ponto de desembarque, assim são os punhos de quem sofre — sempre semi-cerrados, a tudo agarrando com pequena porém constante força, como se o mundo fosse de vidro que cai e quebra e precisa por isso ser estabilizado e segurado. 

Mas o mundo não é de vidro, revela o grande sofrimento. Quando o tensionar pequeno e constante dá lugar à convulsão de choro e berro, quando o córrego de lágrimas e sangue vira mar e tempestade, quando as pernas cedem e os músculos espasmam, e a alma estilhaça e implode... Aí, quando não há opção nem agência diante do escuro, quando a vela da vida se apaga e o frio da solidão congela, quando aquele que vê --- cede a visão. O grande sono vem indistraído, os goles de ar exasperado se soltam, a eletricidade dos nervos se dissipa, e a consciência se entrega. A doçura nas mãos se abre.

5 de dezembro de 2022

Água nos olhos

 Queria sentir sua tristeza sem inibições seletivas. Tinha saudades de se banhar nos próprios sentimentos, longe da culpa e da vergonha — essas capas de chuva da existência. Com as quais não se molha, é verdade, mas tampouco se brinca. Tampouco se chora. 

Queda

 Entenda... Ele não lia um livro há anos. Tinha engordado 20kg. Já não tinha mais fio nem coração. Pensava devagar, como se tivesse pernas desalmadas. Definhava como os velhos do passado. Em 30 anos, tinha subtraído três séculos. Cairia.

Epitáfio

Sua tristeza o compunha como o hidrogênio o sol. Tinha desaprendido a crescer e, na falta de luz e água, murchava cada dia mais esplêndido. Casara-se com o próprio medo e, paralisado, vomitava na tela a impotência branca — inodora e infeliz. Morreria depois de conhecer a felicidade, envenenado de memória e dor. Chorar já não sabia mais. As estrelas devolviam-lhe a negligência na qual se banhara. Não havia prateado nem dourado. O único brilho era a iridescência de sua gordura, que do seu cu fazia um arco-íris irônico e cruel. Como se Deus troçasse de sua existência, desafiando-o a reagir. Dali nada viria, é claro. Nunca veio. A única tônica havia sido a covardia e a desistência. E pereceria assim, nadificado, entregue sem protesto à Preguiça do espírito. Nunca se casaria, pensou. Permaneceria para sempre só, sem voz e já quase sem cabelo. O coração gelaria e não viraria sequer fóssil. De amor passado e expirado ele se tinha matado por dentro. O nó na garganta amarrava-o a um passado que ele presentificava por desespero. Foda-se o sorriso. Suas últimas palavras foram feias e não serão jamais repetidas.

27 de outubro de 2022

Vocação para consolar

Não sabendo ganhar, especializou-se em amortecer as derrotas.

21 de abril de 2022

Desrespeito

De todas as coisas que doem, a que mais dói é a falta de respeito. Mais do que a invalidez, mais do que a incapacidade, mais do que o fracasso. Aquele que fracassa admirado dorme melhor do que o bem-sucedido que se apequena.

A dívida em si é indolor. O grande sofrimento se encontra na vergonha. Quem não tem vergonha não sofre senão quando é descoberto. Quem tem vergonha sofre sem causa nem palco.

Receber ajuda não incomoda; pedir ajuda destrói.

Este aqui se encontra sob os outros homens, mas não aquém. Aquele mora na montanha mais alta, mas morre sem par nem lar.

27 de outubro de 2021

Forja

Idéias, para terem valor, precisam ser trabalhadas e articuladas. Para fazer armadura, o caldeirão é mais importante que o ferro.

25 de julho de 2021

Naturalmente

É de maior interesse aos pensadores anti-sistêmicos que os sistemas fracassem terrivelmente.

18 de julho de 2021

Recursão inversa

Às verdades mais simples chega-se pelos caminhos mais torcionários. Frequentemente se intui o complexo como resultado de engenho, e engenho demais! Tão-quanto o haja aí, onde o simples impera há-o tanto mais — e, ó Deus, tanto menos!

21 de junho de 2021

Palavras rupestres

Ele murmura a melodia que não sabe escrever: 
é ilítero na música —— pobre ateu do coração. 

Seu deus não lhe sorri quando lhe faltam flores; 
abrochado é o seu peito, que não pulsa sob o Sol — processa o oxigênio todo em vão.

Talvez, se a poesia não fosse sem ponta,
seu bisturi cortasse agora outro tipo de veia.

Mas o médico em seu mar de infinito negro
até o fim desdenha de quem sustenta seu débil ensejo.

Há-se de confiar na luz que guia o nanquim pra longe do preto, como no papel cujo branco distrai o olho da artesã. 

Ela é quem teia a mão do destino, que encorda os violinos que em céu de dó e de si abluem o mundo.
 
Sem companhia, sem áurea nem púrpura, carrega no pé as dores de Adão. Desfaz-se da mágoa do vento, cochicha às nozes o que lhe dói, pisa em falso, cai no pranto.

O deus que antes calava agora dança à canção do seu par. As palavras vazias enchem-lhe a boca, leão do deserto do meu barco que encolhe e encalha 
sem nenhum chegar.

A missão do escrever

Fossem minhas alegrias belas como minhas paixões, não precisava eu escrever: porque nem as paixões se haveriam de alegrar, nem as alegrias se haveriam de sofrer.

Curta

Você diz que se pode escrever como artista ou engenheiro. 

Ora, que é o engenheiro senão poeta do concreto?

Ambos envigam os baluartes do coração.

15 de março de 2021

 Eu queria que todos os textos que saem de mim viessem de um lugar de abundância. Mas a abundância, em mim, é escassa. Eu só tenho faltas e ausências pra dar.

Nada que eu faço eu faço direito, e nada que é meu direito eu faço. Agora eu escrevo textos ruins, como se eu fosse o fantasma de um escritor famoso — que nunca existiu. "Eu sou nada", repito, fingindo, como se pessoa no mundo soubesse, como se ajudasse.

Mas não é nada mesmo. É só demora e preguiça, moleza e falência. Quem perde a sela cai do cavalo. Revivendo a fome de anos amaldiçoados, mas até a maldição expirou e não sobra nada.

Nada

1 de março de 2021

Mixed fucking signals

For the first time in his life, he was made to feel ashamed of fending for himself. Wasn't that what he was supposed to do all along?

25 de fevereiro de 2021

Volátil

 Tudo nele era frágil, como se fosse bolha de sabão, castelo de areia, açúcar na chuva, esperança na guerra.

Insânia nervosa

Não confiava em nada, dentro ou fora. Em todo sorriso via ameaça. O que há por baixo? Talvez ela estivesse mentindo. Na dúvida, melhor morrer.

Dolor omnia solvit

 Nenhuma certeza sobrevive ao sofrimento.