Nem todos os textos são metáforas, mas todos são metonímias.
29 de abril de 2016
5 de abril de 2016
20 de março de 2016
Os que desmancham
Apenas os destinos retilíneos são previsíveis
Perseverança
5 de fevereiro de 2016
Após o crepúsculo
O vale do cinismo é o mais tenebroso e escuro dos obstáculos separando os homens de Deus.
Reino dos maus
Ser bom ficará mais e mais difícil, pois a bondade foi inventada para servir de teste domesticador. Termômetros da justiça, só os divinos! Na terra, são os homens contra os sentimentos.
28 de dezembro de 2015
10 de dezembro de 2015
5 de dezembro de 2015
estágios iniciais do exorcismo
eu queria só
que ele se matasse
e me deixasse viver
em paz
30 de novembro de 2015
A metáfora de Sócrates
24 de novembro de 2015
Coração
O coração perfurado bombeou a última vitalidade
Morreu de tédio quarenta anos depois
Não conseguia abrir os olhos porque os olhos da alma quem abre é o coração
Mas coração perfurado não tem alma e morre
21 de novembro de 2015
9 de novembro de 2015
Ambiguidade existencial
7 de novembro de 2015
10 de outubro de 2015
Canção de vida e morte
3 de outubro de 2015
1 de outubro de 2015
Por amor ao mundo
29 de setembro de 2015
28 de setembro de 2015
Amor-poema em língua estrangeira
As marcas nas nossas paredes
Na dor, mas não pela dor
Duas paixões do encontro
Parindo adultos
Educação religiosa
Em adição às potências anteriores, não substituição
Novos mundos exigem novas defesas
18 de setembro de 2015
29 de julho de 2015
13 de julho de 2015
12 de julho de 2015
O princípio da educação
Tomar decisões corretas não basta. É preciso criar sistemas que tomem decisões cada vez mais corretas com o tempo.
25 de junho de 2015
Entre o grito de dor do porco e o tremor de anúncio da tempestade
Algumas ansiedades são de violino; outras, de gongo.
16 de junho de 2015
Previsão dos tempos
A raiva bem gritada é virtuosa. Esvai-se, como tudo o mais que é vivo e pulsante, ao atingir seu fim. A raiva, como o gozo, só adoece quando contida — e mal contida. Pois para a vida nunca há contenção de fato, apenas adoecimento. O não direcionamento da raiva é antes um mal direcionamento. A raiva não gritada é antes mal gritada. E a tragédia é termos sido, para a raiva, educados nos mais castrantes seminários! De nosso celibato cavernoso medram nuvens de cinismo! Para expôr ao sol o coração, é preciso abrir o peito — rasgá-lo! — e aí não temos senão dentes e garras.
Casamento (arranjado) de conceitos
Para os que, como nós, sofrem de ansiar demais, é questão de bom senso cultivar uma modesta indiferença às nossas ansiedades.
15 de junho de 2015
É possível ser feliz na chuva?
Sim, mas para isso é preciso abrir mão da secura. Recomenda-se, para acelerar a adaptação, banhar-se de poesia.
Saudável (no) ócio
Às vezes é preciso amar antes da hora. Amar o que não se conhece, o que ainda não veio, o que pra sempre está no futuro. Para isso é preciso muita força e saúde. Mas a recompensa é grande: o próprio amor. Porque o amor sempre volta.
8 de junho de 2015
4 de junho de 2015
Navegar é preciso, desprazer não é preciso
É fundamental ter mecanismos para tirar prazer da tristeza e da solidão.
3 de junho de 2015
Todos os nãos o não
O dia mais triste da minha vida foi quando me despedi do meu amor... e não chorei.
24 de maio de 2015
21 de maio de 2015
17 de maio de 2015
Lição para quando nos impotencermos
Mesmo um torturando tem poder, se for ainda capaz de rir-se de seus algozes.
Ineficiência intra-orgânica
Aquele ali não voa, apesar de esbeltamente alado. Ocorre lhe faltarem pernas, sem as quais o seu furioso bater de asas não é senão um desengonçado arrastar-se na lama.
13 de maio de 2015
12 de maio de 2015
Sabotagem
Nossos sentimentos são soberanos. Se os quisermos depôr, será preciso mais que um pouco de anarquia.
10 de maio de 2015
Saborosamente definicional
Pode um compêndio lexical ser pedaço de literatura? Pois que tenhais duas definições, tão incompletas quanto incompatíveis, distantes entre si como a barba marrom de um homem é de sua fidelidade amorosa:
Um livro é um esforco de coerência.
Opressão é vetor de violencia sistêmica.
Todo homem é um dicionário.
5 de maio de 2015
Meia dúzia
4 de maio de 2015
27 de abril de 2015
16 de abril de 2015
27 de março de 2015
Contra os cientistas de helicóptero!
Sobre o mar conhece mais quem em suas águas mergulhou uma única vez do que aquele que todo dia as sobrevoa.
24 de março de 2015
Avante!
Todos os que na vida já quiseram voltar atrás sabem o que é covardia filosófica: o medo de pensar a partir do presente.
23 de março de 2015
"Post hoc ergo propter hoc"
Khrónos é o mais vaidoso dos gregos: de todas as causas assume a paternidade. Chegou até a aprender latim, para figurar nos grandes livros de filosofia.
Não lhes dêmos ouvidos: a natureza é muito mais sutil e misteriosa do que esse gigante ultrapassado nos faz crer. Gaia, afinal, é uma mulher.
6 de março de 2015
A última fronteira do conhecimento
Em comparação com outros empreendimentos intelectuais — digamos, mapear a genealogia de uma montanha ou rastrear os ricochetes subatômicos de uma explosão nuclear —, amar uma mulher traz as mais maravilhosas recompensas e as mais miseráveis punições. De fato, o cientista que sobrevive a uma paixão dificilmente volta a encontrar desafio ou felicidade em sua carreira: sente ele que os maiores buracos negros já se explodiram, as maiores pontes já se atravessou, a vida mais morta já se ressuscitou. Nada lhe parece digno de sua energia ou capacidade, nada na natureza o espanta, nenhum mistério lhe provoca sequer faisca de curiosidade.
Nada, isto é, senão sua solidão.
11 de fevereiro de 2015
Nossas maiores prisões, construímo-las nós
Em nenhuma outra circunstância as pegadas da deliberação e intencionalidade são tão bem escondidas quanto no início de uma paixão. Conforme a paixão míngüa e a energia mantenedora desse escondimento se dissipa, o apaixonado, agora mais velho e mais maduro, sente-se traído quando começa a descobrir essas pegadas, quando começa a descobrir que fora tudo um plano — seu plano.
10 de fevereiro de 2015
Como bons filhos de Heráclio
As pessoas que éramos no passado não têm nenhuma responsabilidade sobre quem somos hoje: elas não nos "criaram" nem "pariram", elas não nos fizeram nada! Nós que lhes fizemos algo: nós as matamos! Somos carrascos, não filhos. Ou será isso que significa -- ser filho?
9 de fevereiro de 2015
Romantismo de bobeira
Imprudência, não honra
17 de dezembro de 2014
28 de novembro de 2014
A cada vez mais gay
Engana-se quem pensa que sair do armário é um acontecimento único na vida. Como se só houvesse um armário nos aprisionando. Sempre há alegrias maiores a sentir; sempre há armários maiores dos quais se libertar.
27 de novembro de 2014
Para o auto-conhecimento uma epistemologia mais sutil
Não se vence força inconsciente com montanhas de intencionalidade e deliberação. Precisamos de idiomas menos grosseiros para conversar com nossas entranhas.
26 de novembro de 2014
Onde ainda acreditamos em deuses
As idéias, para que sobrevivam, não basta serem boas.
Argumentar a favor da validade de uma idéia com base no fato de que ela continua ganhando adeptos e sendo repensada de novo e de novo -- é tao místico quanto acreditar que as pessoas boas têm mais chances de sobreviver que as outras, e tão idiota quanto achar que a sobrevivência das pessoas é indicativo da sua bondade.
Eu e você não acreditamos sequer numa justiça cósmica, divina - que dirá numa justiça humana! que dirá numa justiça filosófica!
Boas idéias morrem com a mesma frequência - e com a mesma sem-cerimônia - com que morrem boas pessoas. Quem quiser pensar faz bem em acostumar-se ao luto.
22 de novembro de 2014
23 de outubro de 2014
Amor parteiro
O caminho para entender um homem é sempre torto e desagradável, porque sobre suas complexidades recai um grosso véu acinzentado. Ao contrário das mulheres, cuja nudez até um cego pode ver, os homens exigem veemente intencionalidade: a nudez do homem não o habita naturalmente - precisa ser parida.
4 de outubro de 2014
Não confundir amizade com política
O prazer que você tira das conversas com esse amigo - - depende de vocês concordarem?
2 de outubro de 2014
Metáfora feminista
A mulher que decepa o pênis de um homem - - não é uma mulher. É um homem travestido.
1 de outubro de 2014
30 de setembro de 2014
Des-conto erótico
A prosa tem algo de explícito que a poesia normalmente esconde. Poeta fica horas encaixando sílaba, procurando rima, testando novas ordens de palavras, torcendo a gramática, inclusive fingindo beleza!, mascarando, pintando – não muito diferente de como as mulheres se pintam e cobrem, fantasiam, dançam, escondem e revelam.
A prosa, não. É mais masculina, mais direta, mais nua. Muitas vezes mais indecente e ríspida, insensível, boba, ingênua. A prosa ou te penetra ou não: é isso e acabou. A poesia, não. A poesia é uma mulher, nunca dá pra saber o que ela achou, o que ela quer de você, de quem ela gosta. Faz mistério, finge, embaralha, confunde, seduz.
Fale de sexo com um poeta e ele logo muda de assunto: vai falar de pescoço, de unha, de coxa, de olhar, de cantada, de feeling, de peeling, de perfume, de gozo, de gemido, de toque, de mão, de cama, de noite, de quatro.
Com um prosador, nada há do que falar: ou se penetra ou não. As margens são claras. Não é não. Nada de surpresas. Nada de invasões. Respeito é bom e eu gosto. Respeito ao corpo, ao indivíduo, à escolha, à ordem direta das palavras, ao sujeito-e-predicado, à conotação. (O prosador – tão prosaico é! – não sabe que o sexo é metáfora.)
O que pouca gente sabe é que, quando chega à noite, a Dona Prosa levanta da sua cama, como que enfeitiçada por uma música que vem lá de fora – de onde? de fora – levanta da sua cama, coloca um sapato (que já deixa de antemão preparado, antecipando a insônia que sempre vem), coloca um sapato, com cuidado para não acordar o marido, que dorme, que dorme, e sai. Sai à noite, pra ouvir o canto que vem do vento, do vento, que não vem de lugar nenhum, mas que vem, que vem. Caminha cambaleante, quase caindo, quase dormindo, sussurrada, bêbada?, não, mas certamente embriagada, ela anda, vai, tem que ir, os deuses a protegem, e ela vai, e vai e vai. O corpo leve, os olhos desfocados – não há medo, não há perigo – ela vai, acompanham-na os uivos dos lobos urbanos, quer dizer, dos cachorros, e ela vai e vai e vai… Como se a calçada fosse um mar, ela flutuando, os sapatos ainda meio mal postos, a camisa ainda meio mal colocada, o casaco por cima just in case, e ela vai e vai e vai… Logo não é mais apenas música que a guia, mas também cheiro, e ela logo deixa de ser humana, e se sente bicho, sente os pelos arrepiarem, os instintos se guerreando aquecendo a pele por dentro, o sexo, o sexo, o sexo; sexo, sexo, sexo; sexo sexo sexo; sexosexosexo; sexo. Malditos ferormônios, ela pensa, um instante antes de se deixar ir, tomada que está, incapaz de resistir, já não é mais mulher, é besta, é fera, é garra, é deusa. É, finalmente, mulher.
Um gemido.
Ah.
Ahhh.
Ahn.
AH -
- - - (ah!)
Ah!.
Ninguém sabe que, chegada a noite, a dona Prosa vai ter com a Poesia. Nós somos seus filhos, seus bastardos. Temos duas mães, perdidamente apaixonadas, eternas amantes, a inveja de Zeus.
Nós, os fazedores de sexo.
26 de setembro de 2014
Assenhorando-se de si
É bem raro estarmos tomados por apenas um sentimento. Em geral há uma multidão deles, confusos e embaralhados, brigando entre si por expressão - como se desejassem ganhar materialidade na forma de palavra ou gesto. Que indesejável não deve ser a existência silenciosa e subordinada que a maioria deles leva em nosso interior! Mas não lhes tenhamos pena. Bom jardineiro não pode ter em igual estima a flor e a erva-daninha. Confrontados com a possibilidade de cultivar um sentimento em detrimento de outro, devemos aprender a ser cruéis - é uma questão de estilo e de saúde.
Em quase todos, são a conveniência e o costume que escolhem de que sentimento permitir a expressão. Mas, para os poucos a quem isso soa insuportável, um conselho:
entre a raiva e a culpa, sempre a raiva.
21 de setembro de 2014
Mesmo que X seja vermelho, a vermelhidão de X nunca terá cor
Poucas coisas são tão enormes quanto a nossa pequenez.
Saudade de chão
A parte ruim de crescer é ver seus amigos ficando pra trás. É insuportável permanecer na presença de crianças assim. Depois vêm ídolos, professores, pais e, finalmente, deuses. Não imaginávamos, no começo da escalada, a solidão do cume: é preciso aprender a olhar com outros olhos - a amar mais de longe - a tirar prazer da companhia de outras aves. E nunca, jamais: sentir vergonha de nossas asas.
19 de setembro de 2014
Sexo, pensamento e temporalidade
Textos, principalmente as máximas e os aforismos, são ejaculações - vêm e vão em menos de trinta segundos. Mas quem já gozou sabe: duram anos e anos.
Propaganda eleitoral gratuita
Há, entre os que defendem nossa posição, quem a defenda por torpeza, tolice e até maldade. Isso não a torna -- nem torpe, nem tola, nem má. E mais: mesmo que nossa posição fosse torpe, tola ou má, disso não decorreria - não automaticamente - sermos nós mesmos torpes, tolos ou maus.
Mas quem tem tempo para tais distinções? Só temos trinta segundos. Só temos trinta segundos!
Só temos trinta segundos?
Criações nossas
Sobre algumas coisas é necessário falar, não porque existem e por isso urgem - mas porque urge fazê-las existir.
10 de setembro de 2014
Por falta de coragem
Brochar não é nada. Impotência mesmo é não ter conseguido dizer Eu te amo a tempo.
Todo amor é pra sempre
Na verdade, é provável que “para sempre” tenha sido inventado justamente para dar conta de responder a algum engraçadinho que resolveu perguntar: “Até quando vai o amor?”.
O amor vai pra sempre. Sempre.
nem todas as lágrimas nos pertencem
O amor faz com que a gente sinta o outro em nós. Faz com que a primeira pessoa do plural faça sentido. Sentimo-nos mais que um. Duas almas nos habitam o corpo. É bem terrível quando um amor morre. Mas poderia ser pior -
- ele poderia ter se suicidado.
16 de agosto de 2014
Mais nudez, por favor
Mesquinhez, sim!
Os argumentos, como os socos, têm na raiva seu melhor combustível. De nenhum filósofo a Paz é musa.
Perdendo a vergonha (de nossas cagadas)
Às vezes é preciso escrever maus textos. Grandes plantas nascem de terras adubadas com merda.
Antes quase-morto que semi-vivo!
Você já suou de tristeza?
Não subestimemos o esforço físico que é necessário para que nossa sensibilidade alcance os níveis elevados que lhe são próprios.
O apaixonado dorme como anjo, porque passa o dia cansado. Não há sistema imune que nos defenda de nossos afetos; somos, frente a eles, eternos enfermos.
O que a maioria não percebe é que a doença é desejável. O que não toleramos é a dor e a falta de controle.
Mas não são a dor e a falta de controle –- componentes do amor?
Sim. O amor é uma doença.
10 de agosto de 2014
Caminhos tortos são mais arborizados – as árvores os entortaram!
21 de julho de 2014
Nós, da tribo Osqueapesarde
Só sente verdadeiro medo diante das regras quem acredita que elas têm verdadeiro poder.
Mas o poder das regras é pequeno e limitado – pequeno e limitado é o medo que devemos sentir diante delas.