Foi então que tomado de coragem se levantou de seu assento, sorrindo com uma leveza de criança, embalado naquela indiferença à própria vergonha que subitamente o arrebatara, e prefaciou sua fala cuja quentura já sentia na barriga com a pergunta: "Senhoras e senhores, vocês se incomodariam se eu invadisse o silêncio desse trem para ler uns trechos deste livro?" e tinha de ser econômico e direto, pois falar para um grande público, aquelas dez ou doze pessoas naquele vagão, requer destreza discursiva tal que não se deve alongar as frases e disso ele sabia bem, mas em seu coração se justificava (silencioso por fora) "é que tem beleza demais aqui e nada me daria mais prazer do que dividir essas belezas com vocês, estranhos que abençoam meu caminho" e em seu olhar se notava aquela audácia de ator mirim, orgulhosíssimo de sua própria interpretação, sorrindo no palco da vida, e naquele vagão pelo menos uma jovem e um idoso foram capazes de se emocionar com aquele olhar e positivamente acolheram-no com a cabeça; o restante dos passageiros manteve-se em silêncio mas isso era tudo de que ele precisava: bastava que não protestassem que, sabia-o, daria a si mesmo a permissão para começar seu doce espetáculo e, sem tomar fôlego, logo começou:
4 de fevereiro de 2017
Capítulo 3 — Milagre no expresso
3 de fevereiro de 2017
Prescrição para quem sofre de pequenez aguda
Dicionários de si
2 de fevereiro de 2017
Das entranhas!
A poesia arranha a alma. Sim, meus caros, para ser poeta é preciso ter a alma arranhada. Têm certeza de que é isso o que desejam? Ora, de onde vocês achavam que vinha o sangue com que escrevemos?
27 de janeiro de 2017
Paciência, pero no mucho!
23 de janeiro de 2017
Prece tardia
22 de janeiro de 2017
Clara apologia
O motivo pelo qual tenho acordado de tão bom humor é que tenho sonhado. Coisa estranha aconteceu à minha amiga, que comigo experimentou a melatonina: teve pesadelos, horríveis pesadelos, e se arraivou de mim quando lhe contei que era esse um dos efeitos, e afinal motivos, da substância. Ocorre ser a melatonina, diferentemente de alguns remédios, não uma fuga mas o seu contrário: ajuda ela a não fugir dos sonhos (e, sim, também pesadelos), portanto, a não fugir de si. Com isso recebo ajuda para ir ao meu encontro. A melatonina é o meu óleo de coco.
21 de janeiro de 2017
Fala a alma de artista
16 de janeiro de 2017
Duas galáxias conversam
"Mas eu amo o teu fogo — quem não se queima não vive. Não confias na minha capacidade de sobreviver? Ora, achas-te tão maior que eu assim? Como poderei compartilhar contigo o que me dói, se nem a ti mesmo pareces aguentar?"
"Não nascemos para o fogo, querida. Poupo-te assim. Soframos menos."
"Claramente não entendes do sofrer. Vive e queima! — assim dita meu evangelho. Na vida não tenho medo senão de me acinzentar — nada que é vermelho me enfraquece. Acaso pensas que te amo as partes apagadas? Queima comigo, meu amor! É tudo que te peço. Do mundo faremos gloriosa fogueira."
"Tinha razão o sábio: diamante e carvão não se dão — pois embora os dois brilhem, só um sobrevive à combustão."
"Sinto muito. Vou."
"Eu mais ainda. Vai."
Gatunos na dor e no amor
As garras mais afiadas são retráteis. Duas lições há aí: primeira— mansidão é algo que se finge; segunda— arranhadores ferozes também acariciam.
13 de janeiro de 2017
Advinhar o mundo
Cartomantes do destino somos nós. Tecelões da realidade, costurando impressões — preguiçosamente curiosos somos nós, dos deuses roubando ~ aos homens e-levando. Poetas somos nós!, urubuzando os cientistas, apenas o suficiente para satisfazer-nos a alma. Filósofos somos nós, da barriga pensadores, ar negro expiramos conforme filtramos os brilhos — ex-cegos somos nós!, acavernados em nossa pequenez, de sombras gigantes os ventríloquos; em tudo bruxos, a tudo feitiços. Nossa incompreentude é nossa tolice favorita. Mas que seriam os grandes homens — sem nossa diversão?
Lição de a anos-luz
Não se preocupe com o brilho. Para ser estrela é preciso em primeiro lugar que exploda.
Caridoso com as próprias violências
Não sejamos duplamente maldosos: nós, que somos maus por natureza, devemos — em nome da bondade! — preservar nossa maldade. Amá-la! Com isso incentivamos a bondade nos bons, pois tudo que é fiel à sua natureza aumenta a esperança no mundo, mesmo quando pareça destrui-lo.
Melhor dizendo: mesmo quando o destrua.
Quando um mau censura a própria maldade, duas maldades foram cometidas. Fazer tanto o bem quanto o mal — sem censura! Essa é a nossa receita para um mundo que padece de insinceridade.
Melhor dizendo: essa é a nossa receita para um mundo que padece.
6 de janeiro de 2017
11 de dezembro de 2016
Montanhistas da saúde
Nem todo romantismo adolescente se baseia em inverdades. Deve-se olhar com compaixão ao garoto que à oportunidade de convalescença prefere arraigar-se nos seus sofridos porém conhecidos pesadelos. Não é que ignore o que sofre ou deseje a dor que sente; tampouco se esquiva de admitir-se doente. É que das profundezas de fato nascem alguns belos versos e resplandecem certos brilhos (que sob luz mais forte não medrariam). Também os olhos e os músculos da face acostumam-se ao franzir constante mas delicado que a meia-luz obriga — há sabedoria nessa testa! há agudez nessas pupilas!. Mesmo que se ressinta (isto é: que se apaixone pelo seu sofrer), nenhum tolo nega sua potência, pois tudo o que vive --- tem potência ------- e mais ainda o que sobrevive! O medo do romântico tem sua razão de ser. Os prazeres de que fala, ele os sentiu sim, não lhos neguemos. Consertemo-lhe apenas a falsa crença de que a luz elimina o que se podia ver na escuridão. Não só nossas cavernas nos farão companhia por toda a vida, mas lembremos que temos pálpebras — o órgão do descanso e o órgão da humildade: para os humanos, ver é sempre uma escolha. O ar daqui de cima te fará bem, meu caro, e eu prometo que o que aí embaixo te inspirou se encontra não em volta de ti, mas no teu interior; não o perderás, porque está sempre contigo. Aqui em cima, o único risco que corres é o de tornar-te quem és.
9 de dezembro de 2016
23 de novembro de 2016
Brevidade na desrazão
Um pequeno jejum — como uma pequena loucura — nunca fez mal a um pensador. O risco que os religiosos correm é o de tomar asco da comida, isto é, de acreditarem em seu jejum.
Sem explicitações
22 de novembro de 2016
Pontes de palavras
Para que nossos futuros nos herdem melhor
As vítimas do silêncio
10 de outubro de 2016
3 de outubro de 2016
Consolo para os que se sentem improdutivos
Para a liberdade um treino
Escrever para se limpar
A felicidade como armadilha
8 de agosto de 2016
7 de agosto de 2016
As renúncias cobram juros
17 de julho de 2016
Uma criança
12 de julho de 2016
A defensividade é um narcisismo
29 de abril de 2016
5 de abril de 2016
20 de março de 2016
Os que desmancham
Apenas os destinos retilíneos são previsíveis
Perseverança
5 de fevereiro de 2016
Após o crepúsculo
O vale do cinismo é o mais tenebroso e escuro dos obstáculos separando os homens de Deus.
Reino dos maus
Ser bom ficará mais e mais difícil, pois a bondade foi inventada para servir de teste domesticador. Termômetros da justiça, só os divinos! Na terra, são os homens contra os sentimentos.
28 de dezembro de 2015
10 de dezembro de 2015
5 de dezembro de 2015
estágios iniciais do exorcismo
eu queria só
que ele se matasse
e me deixasse viver
em paz
30 de novembro de 2015
A metáfora de Sócrates
24 de novembro de 2015
Coração
O coração perfurado bombeou a última vitalidade
Morreu de tédio quarenta anos depois
Não conseguia abrir os olhos porque os olhos da alma quem abre é o coração
Mas coração perfurado não tem alma e morre
21 de novembro de 2015
9 de novembro de 2015
Ambiguidade existencial
7 de novembro de 2015
10 de outubro de 2015
Canção de vida e morte
3 de outubro de 2015
1 de outubro de 2015
Por amor ao mundo
29 de setembro de 2015
28 de setembro de 2015
Amor-poema em língua estrangeira
As marcas nas nossas paredes
Na dor, mas não pela dor
Duas paixões do encontro
Parindo adultos
Educação religiosa
Em adição às potências anteriores, não substituição
Novos mundos exigem novas defesas
18 de setembro de 2015
29 de julho de 2015
13 de julho de 2015
12 de julho de 2015
O princípio da educação
Tomar decisões corretas não basta. É preciso criar sistemas que tomem decisões cada vez mais corretas com o tempo.
25 de junho de 2015
Entre o grito de dor do porco e o tremor de anúncio da tempestade
Algumas ansiedades são de violino; outras, de gongo.
16 de junho de 2015
Previsão dos tempos
A raiva bem gritada é virtuosa. Esvai-se, como tudo o mais que é vivo e pulsante, ao atingir seu fim. A raiva, como o gozo, só adoece quando contida — e mal contida. Pois para a vida nunca há contenção de fato, apenas adoecimento. O não direcionamento da raiva é antes um mal direcionamento. A raiva não gritada é antes mal gritada. E a tragédia é termos sido, para a raiva, educados nos mais castrantes seminários! De nosso celibato cavernoso medram nuvens de cinismo! Para expôr ao sol o coração, é preciso abrir o peito — rasgá-lo! — e aí não temos senão dentes e garras.
Casamento (arranjado) de conceitos
Para os que, como nós, sofrem de ansiar demais, é questão de bom senso cultivar uma modesta indiferença às nossas ansiedades.
15 de junho de 2015
É possível ser feliz na chuva?
Sim, mas para isso é preciso abrir mão da secura. Recomenda-se, para acelerar a adaptação, banhar-se de poesia.
Saudável (no) ócio
Às vezes é preciso amar antes da hora. Amar o que não se conhece, o que ainda não veio, o que pra sempre está no futuro. Para isso é preciso muita força e saúde. Mas a recompensa é grande: o próprio amor. Porque o amor sempre volta.
8 de junho de 2015
4 de junho de 2015
Navegar é preciso, desprazer não é preciso
É fundamental ter mecanismos para tirar prazer da tristeza e da solidão.
3 de junho de 2015
Todos os nãos o não
O dia mais triste da minha vida foi quando me despedi do meu amor... e não chorei.
24 de maio de 2015
21 de maio de 2015
17 de maio de 2015
Lição para quando nos impotencermos
Mesmo um torturando tem poder, se for ainda capaz de rir-se de seus algozes.
Ineficiência intra-orgânica
Aquele ali não voa, apesar de esbeltamente alado. Ocorre lhe faltarem pernas, sem as quais o seu furioso bater de asas não é senão um desengonçado arrastar-se na lama.
13 de maio de 2015
12 de maio de 2015
Sabotagem
Nossos sentimentos são soberanos. Se os quisermos depôr, será preciso mais que um pouco de anarquia.
10 de maio de 2015
Saborosamente definicional
Pode um compêndio lexical ser pedaço de literatura? Pois que tenhais duas definições, tão incompletas quanto incompatíveis, distantes entre si como a barba marrom de um homem é de sua fidelidade amorosa:
Um livro é um esforco de coerência.
Opressão é vetor de violencia sistêmica.
Todo homem é um dicionário.