20 de fevereiro de 2010

Responsabilidade

texto sob revisão

As pessoas desastradas não têm culpa de esquecer a chave do carro, ou a comida fora da geladeira. Se essas coisas são tão simples pra mim, então o responsável por elas é naturalmente eu. Isso é simples, faz sentido. Ponto. É praticamente uma idéia clara e distinta.

As pessoas desastradas, no entanto, podem – e costumam – ter outras qualidades, que não a arte de lembrar de pôr o bife na geladeira. Tampado. Elas podem, por exemplo, ter uma sensibilidade às coisas simples que escapa àqueles que lembram da merda do bife.

Digamos que ela seja uma ótima dançarina, ou desenhista. Melhor: ela é ambos. Talvez ela sofra volta e meia por não conseguir se lembrar da tampa do bife. Talvez ela tenha perdido uma refeição assim, talvez tenha deixado alguém doente. No entanto, se ela põe sua vida em perspectiva, ela deve perceber que a dança e o desenho são fundamentais pedras na sua vida. É algo que "ela “não poderia deixar de fazer”, embora às vezes deseje apenas se lembrar do pobre bife.

Se existe algo que “não podemos deixar de fazer”, significa que somos responsáveis por esse algo. Ela é responsável pela dança, pelo desenho. E aquele que consegue naturalmente tampar e guardar o bife, é responsável por ele, exatamente porque ele consegue tampá-lo e guardá-lo. Nesse sentido de responsabilidade (chamemo-a de ‘bife’?), surge a pergunta “sou responsável por escrever?” – e repara que essa é a tradicional pergunta-chave desse texto.

Ou talvez ela seja “pelo quê sou responsável?”. Uma pergunta que faz total sentido às vésperas do vestibular. (o que? Uma referência a um fato mundado de minha vida?! Quem mais acha que esse texto é diferente, levanta a mão o/)

Percebi há pouquíssimo tempo que um de meus motivadores para a escrita tem sido a vontade de ser bonito. Algumas pessoas disseram que eu consegui. E então eu fiquei lisonjeado e agradecido, longe de ‘satisfeito’. Foi bom, porque parace que eu percebi que precisava de outros motivos pelos quais escrever. Motivos ou motivações que, ao realizados, me suportassem, me crescessem. E não simplesmente me afogassem, como algumas vezes aconteceu.

E provavelmente é esse o motivo desse texto aqui: uma perspectiva completamente outra. Pois estou encarando a possibilidade de não escrever por um desejo (como em “quero ser bonito”), mas por uma responsabilidade (como em “preciso fazer algo”). Eu não sou como a desenhistabailarina  para quem escrever é uma ordem, natural e expontânea. Deixar de escrever não seria para mim um suicídio. Por isso, aliás, eu não sou um escritor. (o que não significa que eu não possa ser, mas esse não é o assunto.)

Na verdade, eu estou mais perto de ser responsável pelo bife, literalmente, do que por escrever. Guardar o bife é tão natural e expontâneo, faz tanto sentido, e é tão heróico: já salvei muitas pessoas de serem envenenadas! Tudo devido à minha incrível facilidade em fechar e guardar…o bife. E olha que eu não sei dançar nem desenhar.

O que eu sei, além de, claro, o bife? O que eu sei que me faz responsável? Esse texto, por exemplo: já passou do 3000º caractere e, aparentemente, alguém ainda o está lendo. O que ele tem de mais? Por que eu ainda o escrevo, e “você” ainda o lê? (a propósito, não se engane: ler é uma atividade, não uma “passividade”, e também implica em responsabilidade).

De fato esse texto é especial: eu sou responsável por ele. Deixar, ou parar, de escrevê-lo seria uma traição e um suicídio em menor escala; ele é algo que eu “não poderia deixar de fazer”.

Então, eu já disse que sou bom com bifes. Que mais? [Com o intuito de adiar ainda mais o momento em que eu respondo isso, eu talvez deva dizer do que eu fiz antes de começar a perguntar isso. Talvez eu deva analisar o que eu escrevi até hoje. Boa parte “disso” começa cronològicamente com Friedrich. E por “disso”, eu quero dizer esse blog. Antes dele, meus textos serviam a outro propósito, eu acho. antes, além dos textos para escola (de que eu sempre pude extrair prazer), eu escrevi… Gritos. É, talvez não tenha mudado muita coisa.

Eu escrevia os gritos mais racionalizados e não-gritados que eu já ouvi. Eu elaborava sistemas, debatia lógica, causas e efeitos, métodos. Assim eu me encarava. Cheguei às verdades mais frias, aquelas que hoje eu chamaria de menos verdadeiras, e sofri por não ter me permitido sofrer. Eu literalmente discursava sobre meus sentimentos, tentava fazê-lo caber numa redação de vestibular. é engraçado, é trágico. Eu dava nome: Psychological Mindstorm. Nunca tive intenção de ser bonito, escrevendo o que eu escrevia. Mas talvez tenha sido no meio daquele turbilhão de seriedade e lógica que eu descobri, fria mas verdadeiramente, a minha vontade de ser bonito. Um excerto: “…”

Depois eu fui mudando. Crescendo em direções estranhas. Não vou preencher o gap entre os meus mindstorms e meu Friedrich: basta dizer que eu cresci, que fiz muita terapia, que me apaixonei, que mudei. Mas não mudou a vontade de ser bonito. Na minha “festa irracional do nada”, a palavra-chave era festa: queria ser alegre, animado, feliz, bonito. Festas são bonitas.]

Talvez eu devesse destacar a “fluidez”  do meu texto. Disseram-me “seu texto tem uma fluidez, construída”. Eu não sou fluido por natureza, mas sou capaz de construir fluidez. No mínimo. O que mais tenho capacidade de construir? Porque, com o que é “natural”, não sou muito bom. O natural, pra mim, não é bife. Talvez eu não seja o melhor de todosem descobrir algo, mas eu sou o melhor em transmitir, em reescrever, em reestruturar a informação. Sou…Didático? Sou bom como ponte: te levo para mais perto, embora eu não tenha idéia de que do que, ou de onde.

Sou bom com sistemas, com problemas, com análise, processo, e solução. Eu sou, de alguma forma assustadora, muito concentrado. Muito focado, certeiro, preciso. Se eu colocar em outras palavras, perco a vergonha de dizer: “sou cientista”.

O problema é quando isso parece me afastar da sensibilidade, da arte, do artista. Até agora só me apaixonei por artistas. É o meu desejo, de ser bonito. E não é para menos que eu me assuste ou fuja quando me olho no espelho assim: de gravata, preso, dentro de um método. Eu sou o melhor nisso, sou responsável por esse método, sou responsável pela ciência e por transmiti-la, mas odeio isso! E sinto-me hipócrita quando vejo que amo a sensibilidade, a feminilidade das coisas, a anti-ciência, a liberdade.

Viu esse último parágrafo? Ele é tão forte que (claramente) fugiu do meu controle. Precisei de vírgular, de substantivos, de exclamações. E é por isso que eu passei tanto tempo escrevendo, lendo, vendo filmes, tentando ser bonito.  Porque volta e meia eu explodo, como acabei de fazer. É uma explosão de vontade   de desejo   de ação. É bem diferente da minha concentração (que eu mal-interpretei como calma tantas vezes).

Talvez sejam opostos, a minha explosão e minha concentração. Com raiva da segunda, eu tentei maximizar a primeira, ‘explodir o máximo possível’. Isso também gera sofrimento, porque isso também é tiranizar uma parte de si mesmo. O que sempre causa sofrimento, o que sempre é injusto.

Cara dançarinadesenhista,
não sofra pelos bifes. Permita que eu cuide deles.

Esse, como poucos textos antes, tenta não vilanizar qualquer parte de mim (dica: é difícil), tenta atingir uma harmonia maior, e, principalmente, é um dos textos mais sérios que eu já escrevi: pois eu tenho completa responsabilidade por ele. Esse texto é o meu bife. Não pretendo me envenenar.

Voltando ao controle… Eu diziada oposição   apartente   entre o meu “sou cientista” e o recém-descoberto “sou artista”. E então eu disse que este texto é o início de um processo “façamos as pazes”. E agora eu queria chamar a atenção pro início do texto. Ele começa confiante, uma boa introdução, que não sabia que o texto se estenderia tanto, e parece seguro afirmar que o “quê” do texto já estava definido: na verdade, parece que eu estava preparando terreno para confessá-lo.

Falei da garota desastrada, falei da minha facilidade com pequenas organizações (bifes são fáceis e expontâneos; quartos, não). Depois introduzi sorrateiro a questão da profissão, e aí tudo desmoronou no meio da melhor parte da explicação.

O que eu preciso confessar é que eu não sou escritor. Mas preciso confessar, não simplesmente atirar, como se faz com uma “verdade” fria. Ou talvez eu deva dizer: sou um escritor irresponsável. Essa é uma confissão melhor, soa mais como uma confissão. E a minha escolha – sim, a profissão, o vestibular – é uma escola responsável - “consciente'”, como eu costumava falar. Eu sou bom com responsabilidades. Desse tipo, pelo menos: as conscientizações. E é isso que eu preciso fazer; qual vestibular vai me permitir mais consciência? E esse termo é necessariamente vago.

10 de fevereiro de 2010

Esse é de ontem

Eu queria que me conhecessem assim, agora. Click: congela. Não sou bom em pintura realista com modelo. Não sou bom em narrar o que eu vejo, em pintar o que está à minha frente. Portanto, mesmo que eu pudesse fotografar esse momento, eu não poderia, mesmo em cem anos, pô-lo em palavras. Mas também, é claro, se eu pudesse ter tal fotografia, eu não sei se restaria muito motivo para escrever.

Eu prefiro, em vez de fotografias impossíveis, me fundir à obra e escrever o resultado (e também o processo). Por isso, eu tenho um pouquinho de mim fundido em cada escrita minha. Mas se eu tenho vontade de escrever sobre mim - ignorando o aparente egocentrismo -, eu me perco. Deveria eu fundir-me a mim mesmo, entregar-me completamente à mercê de mim? Mas isso é assustador.

E aí eu prefiro sempre, (repara!), entrar em alguma discussão menos poderosa, como "qual o motivo de eu estar escrevendo?" (nessa pergunta, fica bem clara a desconfiança e a resistência em aceitar-me)

O motivo de eu estar escrevendo agora, é pessoal: quero reler depois e entrar em contato com essa parte de mim que tanto me apraz. Também tenho, na minha não-pequena vaidade, uma esperança e um desejo, ao revelar-me tão sedutoramente: quero ser apreciado, degustado, decifrado - ou, no mínimo, visto, conhecido. Tenho o fetiche de ser melhor conhecido por outro, do que por mim. 

Essas discussões não são singelas, mas tampouco são relevantes. Eu estava no alto de meu décimo-quinto antar e eu escrevia um poema de amor. Era algo assim:

da alegria de um momento que não faz sentido,
resta algo sentido
da tempestade que ameaça cair à minha frente,
resta a ameaça
Dos trovões, que lembram Beethoven,
não resta nem a música nem as nuvens:
resta o medo. E a delícia de senti-lo.
De repente, quando tudo isso se junta
[num ferver da barriga,
sinto a alegria, a tempestade, a delícia.
Fecho os olhos, ouvindo os silêncios que cadenciam os barulhos,
transformando-os em música.
E nessa hora, talvez, reste Beethoven, mas só um pouquinho
Nessa hora, o que resta é o sono.
E a certeza de que, embora nada faça sentido,
tudo que ha             é sentido.
E de repente eu sinto tudo e caio minha cabeça no travesseiro,
pois sei que durmo bem, e feliz, pois amanhã, tenho um encontro contigo,
e mal posso esperar.
É esse o sonho, feito de alegria, tempestades e beethoven, que eu quero escrever.
E esse é o sonho que eu faço poesia.
E aí eu digo, uma "última" vez:
boa noite, meu amor. Dorme bem, que eu acordo melhor.

24 de janeiro de 2010

ey

Talvez eu devesse obrigar-me a escrever, fixar metas, cobrar constância. Envivecer o meu blog, fazê-lo menos independente do que eu sou. Sentar ao teclado – com sono, com raiva, lobo, criança, feliz, apaixonado, desejoso de chocolate ou não – e escrever, martelar as tecladas, formar frases, juntar palavras. Talvez o link que eu tanto tento fazer entre meus diversos textos deva ser feito não por mim, mas por quem me lê, e que minhas múltiplas personalidades sejam, não transformadas num todo grande e confuso, mas talvez ‘permanecidas’ cada uma em seu canto, um pequeno texto, de uma frase, de uma poesia, de um ponto de exclamação. Não preciso fazer meu majestoso trabalho de conscientização que normalmente faço de mim mesmo e de meus textos. Repara que em quase todos eles, pareço estar redescobrindo a mim mesmo, ou ao mundo. Um texto, uma descoberta. E as pequenas nuances que os percorrem, os pequenos detalhes, aqueles que só os que me conhecem além dos meus textos – por exemplo os que me conhecem as sobrancelhas, ao olhá-las ali em cima – conseguem perceber. Aqueles olhos, são de medo ou são de convicção? De tristeza ou de raiva? Estava apaixonado? Ou estava morto? E esse texto, é MEU? Faz jûs a mim? Tando faz, porque eu sou feito de tanta coisa que tanto faz. Essa é uma gaveta, é um pólo, é uma personalidade, é um lado, é um tipo, é um EU. E tanto faz se são 4:30 da manhã, ou se esse texto não é bonito, tanto faz se eu não acho que esse texto é bom. Tanto faz, tanto faz, tanto faz. Blá, blá, blá. Blé blé blé.

8 de janeiro de 2010

Poesia.

As lágrimas escorrriam do céu
Brilhando com relampejos noturnos
Faziam-lhe das roupas enxarcadas um véu
Enquanto se provavam o gosto soturno

Dezembro de 2008.

15 de dezembro de 2009

Que se dane (?)

E agora, o que eu faço?


11 de dezembro de 2009

Aspas

As aspas servem pra deixar-me um pouquinho mais leve.

"Contemplo a página em branco, nervoso, um pouco tremendo, sei que existem algumas palavras loucas para sair à superfície do papel, das minhas mãos, as pontas das canetas. Sei que essas palavras são bonitas, porque são verdadeiras, mas sei que elas me enchem de medo, porque são verdadeiras. Talvez algum trauma passado tenha me imposto esse medo, essa hesitação, esse tremendo, na minha relação com as verdades sobre mim. Muitas vezes o que me separa da felicidade, é um pouco de mentira.

Sei também que não posso escrever essas palavras. Não sei por que, mas sei que não posso. Talvez eu não esteja preparado, talvez simplesmente não tenha o direito.

Agora, isso não me impede de senti-las, as palavras, borbulhando sob a minha pele, apertando-me a corrente sangüínea, fazendo bater meu coração, e levando-me oxigênio: o gás que serve à destruição, à quebra energética do que eu comi. As palavras são o agente do oxigênio: pegam o que eu comi e transformam em energia utilizável.

E essas palavras são pesadas, são difíceis, estão presas também, os presos são difíceis. O peso talvez nada mais seja que a leveza sendo presa: se a leveza do mundo fosse condensada em um único ponto, teria-se o bigbang, que é super pesado, apesar de ser só a soma de todas as levezas. Ou talvez o big bang seja leve, eu não sei, não estarei lá pra vê-lo.

Eu estou é aqui, vendo o big-bang que acontece dentro de mim, vejo as palavras que deveriam ser leves se juntando e ficando pesadas. Embora eu não possa escrevê-las, eu sei que quando escrevo sobre elas, um pouco delas escapa, e eu fico um tico, só um pouco, mais leve. Isso é bom. Escrevo, não para expulsá-las, ou pra diretamente escrevê-las, mas para servir-lhes uma ponte, pela qual possam depois não agora sair. Um mero caminho.

E de repente, no meio das minhas palavras, várias já escapuliram, elas saem pelas entrelinhas, pelos títulos, pelas vírgulas e pontos, estão em todo o lugar, são o que está além das palavras, porque não podem ser elas mesmas. De repente no meio das minhas palavras, eu estou um pouco mais livre (um pouco mais leve), menos condensado, mais etéreo, mais espacial, maior e mais apto a conquistar o mundo. Um dia eu vou ser leve com as nuvens e simplesmente ser, como elas, ser ursinhos para as crianças e tempestades para os românticos. As nuvens são incríveis, não são?

Serei também invisível para aqueles que só conseguem ver beleza num dia todo azul. São aqueles que não aprenderam a apreciar o que não é claro, o que não é uniforme, o que é algodão-doce, que fica na frente do sol. Não os culpo, também gosto de dias azuis, sem nuvens. Mas os dias nublados são tão especiais.

No entanto eu ainda não sou leve como as nuvens. Talvez o seja como algumas árvores, que balançam ao vento, sem sair muito do lugar, apenas se mexendo, animadas pela brisa divina. O meu medo é o de ter fixado minhas raízes fundo de mais, sem ter me concentrado na minha copa, como uma xerófila, que só encontra água onde é mais profundo. Ah, não, um dia quero florescer, quero chegar ao céu, me aproximar das minhas companheiras nuvens.

Quero tanta coisa, eu, musgo da pedra. Quero escrever. Sinto muita necesisdade de escrever, uma pena que não possa. No entanto vou aos poucos estabelecendo o caminho, por entre textos e não-textos, numa ainda mais misteriosa esperança de um dia florescer. Sou as árvores, as nuvens, as catingas, sou a esperança, as palavras e o oxigênio, sou início, meio e fim, sou apenas o fim. Sou a lágrima que deixei cair."

E esse é um texto triste.

7 de dezembro de 2009

Crítica à melancolia gelatinosa

[perdi a(s) primeira(s) parte(s)]

[…] Ainda mais essencial à minha sobrevivência do questes outros. Por isso também tem crescido meu interesse por biografias, quero tanto que escrevam minha história, às vezes escrevo só para dar conteúdo a meus biógrafos. Olha que inversão cega, esdrúxula!

A verdade é que pouco a pouco nos meus tédios e nos meus ócios, nas minhas leituras e nas minhas terapias, nas minhas paixonites e também nos meus amores, vou cultivando os meus escassos meios de responder a essa questão “de que tenho medo eu?”, uma questão tão fundamental para que eu chegue ao místico “quem sou?”, que promete ulisses.


Eu tinha que fazer gelatina, mas não tem. Tampouco tenho fotos.


Não estou empunhado de meus algodões-doces, é verdade, mas tenho penas e pincéis, com os quais vou-me desenterrando e pintando, descobrindo-me, formando-me. É, é verdade. Todo esse blog, toda a minha “obra”, a minha pouca embora valiosa arte, é uma constante reiteração disso, enfatização dessas perguntas, este meu querer ser.

Quem sou eu? disse por último, antes que as palavras se perdessem num vácuo de levitação. Apaixona-te!, faz tua aprendizagem, ouviu sussurrar. Talvez tenha sido o vento.

6 de dezembro de 2009

Gelatina d'Arte

Ainda me surpreende, e com freqüência considerável, o fato de que das cirscunstâncias mais esdrúxulas, dos tempos mais estranhos, ou da falta deles, às vezes do tédio, às vezes como que do nada, parecem vir-nos as mais interessantes certezas: certezas, porque, sendo pequenas loucuras, não vacilam como fazem outras partes de nós (como aquelas que fazem escolhas e emitem julgamentos). Ah, não, dessa parte esdrúxula e inprevisível de nós só podem surgir coisas que escapam à normalidade e à sanidade dos homens.

E de repente, percebe-se, o mundo todo está afundado, como que embrenhado de um líquido que – enquanto o sustenta numa posição falsamente estável (imagine uma gelatina contendo um barco) – faz dele o mais inavegável dos meios de transporte, mas também o mais saboroso: nos momentos esdrúxulos e nas circunstâncias estranhas sem o tempo, o mundo é feito de gelatina. E então, dessa gelatina, que também nos compreende e compõe (pois somos o barco e também aquilo com o que o envolvemos); dessa gelatina, parecemos extrair aquilo que enquanto artificial e estranho ao nosso barco, parece perfeitamente o complementar.

Extraimos de nossa gelatina a sobremesa de nossa navegação – não o prato principal, majestoso, pesado e imponente em si – mas aquilo que parece encerrar o nosso desejo, nossos anseios, nossa fome, aquilo que, esperançamos, vai saciar-nos para sempre. E não parece incrível, que, embora lidemos todos os dias com nossos pratos principais e nossa ânsia de tê-los em nossos estômagos, parecemos sempre insensíveis a todas as sobremesas que nos envolvem, e sempre surpreendemo-nos quando alguém nos oferece dela?

Ou quando nós mesmo no-la oferecemos.

Acho que é isso. Só mesmo uns rabiscos sem sentido – do jeito que a lógica que não precisa fazer sentido manda –, uma mini festa no meu apê de desorganização metida a irracional, visando a mostrar, a mim e meus outros eus, meus leitores e meus bisnetos, que… a gelatina é gostosa, sabe? E que às vezes encontramo-a quando menos esperamos. E ela é saborosa e doce, e que eu consegui encontrá-la.


4 de dezembro de 2009

Pequena Comédia

Quando abre os olhos, o inteligente sente-se triste e culpado pelo tempo que passou com os olhos fechados.

Besta! Será que não percebe que é impossível espirrar com os olhos abertos?


13 de novembro de 2009

My gosh, I'm in love with all these people...

Ah, tá.

É só bom lembrar às vezes, que eu não sou poeta, não sou escritor, não sou filósofo.

Il y a des temps où on peut toucher l'éternité

5 de novembro de 2009



Quanto tempo demorei p’ra perceber
que
meu amor à prosa era
senão
desconforto com a poesia

esta
que, na verdade, é: isso
, pois,
que flui, que percorre-
-me
que me inunda
é
um medo
de ver nas palavras o seu verdadeiro significado
delas
o verdadeiro insignificado
(Deus, que significa? Nada: mas insignifica tudo)
Caneta, pena, lápis, lapiseira, giz, lâmina.
insiginificantes
poeira
poesia
o medo condensado em prosa;
liquefação das frases
que insignificam,
poesia

4 de novembro de 2009

Lévi-Strauss ( * 30 October 2009)



Eu não ia colocar isso aqui; ia mantê-lo só pra mim, eu e minha varanda, minhas estrelas, meu chôro.
Mas não.

Eu oro, sim.

* As estrelas representam melhor a morte que as cruzes, até porque - acabei de estudar física - quando olhamos as estrelas, estamos vendo-as no passado...
(6 novembro 2009)

14 de outubro de 2009

Algodões-Doce

Sabe qual é o problema com esse blog?


O problema é que ele é um ponto cego. Virou um ponto cego e nulo. A minha desorganizada festa irracional do nada parou de ser uma apologia dionisíaca às coisas que não sei explicar e passou a ser uma desculpa tosca para que eu pudesse colocar em palavras as coisas que, na verdade, não quero ler.

O blog passou a dificultar minha própria leitura, passou a funcionar como um espelho SUJO. E não mais como um espelho retorcido. Não tenho nada contra espelhos retorcidos – eles nos dão verdades retorcidas, mas tão verdadeiras quanto quaisquer outras verdades. Agora espelhos sujos, esses são nojentos!, porque, podem mostrar a verdade que for, eles sempre a obscurecerão.

Aquela ponta de sujeira sempre sujeitará a beleza que se esconde no espelho à mais horrível das feiúras. O belo ficará distante e a verdade terá um empecilho - sujo, feio e nojento – no seu caminho.

“Sabe qual é o meu problema?”, a frase que ia ser a segunda desse texto, de tão natural que ela flui. Todo mundo se faz essa pergunta, e quase todo mundo a faz a um outro alguém, em algum momento. Aquele momento de indignação, de raiva, de explosão para consigo mesmo. Sim, o momento que, espero, há de arrancar minha sujeira no grito.

O meu problema vírgula porra em maiúsculos ponto de exclamação vírgula é que, não bastando a minha criatividade na hora de retorcer todas as coisas (o que é tudo bem!!!, eu já admiti que tudo bem com verdades retorcidas!), eu pareço insistir em sujar as coisas que toco. Sujo-as voluntariamente, sujo-as por medo.

Na verdade, é como se eu me escondesse atrás da sujeira.

É bem possível que a sujeira não esteja no meu espelho, mas que eu a carregue comigo, e a coloque em toda coisa-espelho desse mundo, sempre me escondendo do possível reflexo meu que aquela coisa irá refletir.

Meu sonho é ter um espelho plano. É bem mais fácil de limpar as sujeiras.

Os meus espelhos são todos cheios de pontas, angulares agudas, afiadas. Meus textos são espinhentos, e difíceis de limpar. Cada vírgula um espinho.

O meu problema é que eu insisto em fazer das coisas espinhos.

Esse blog é uma bola de espinhos. E se eu não tivesse uma idéia clara de que precisamos manter aquilo de que não gostamos nem que só para nos deleitarmos com quão diferentes estamos, eu já teria deletado metade disso aqui. Ou pelo menos um terço.

Porque eu tenho raiva e indigação suficientes para perguntar-me “Sabe qual é o problema com isso aqui?”, porque eu estou negando o que é de ruim, eu estou negando meus espinhos, estou desesperado por aplainar minhas pontas. Quero chegar perto da verdade sem que para isso eu precise perfurar ou cortar, e quero poder me limpar, também.

O problema desse blog é que ele é sujo. O problema não é as palavras serem difíceis, mas é que elas não têm significado. Minha festa irracional da desorganização virou uma festa do nada sobre o nada.
e o problema não é que eu escreva o nada, eu gosto de escrever sobre o nada, porque ele nos lembra o tudo, e também porque ele nos lembra o sîlêncio.

O problema é que eu sujei o nada. O que significa que ele não é mais nada, ele é algo sujo. Então, eu perdi também a pureza. Isso, meus textos deixaram de ser puros. Passaram a ser… mestiços. Passaram a ser prole do nada com a sujeira. E o resultado é esse, a feíura condensada em raiva. Esse post, que nada diz ou nada faz. Apenas denuncia. Uma triste denúncia de mim mesmo.

E no entanto é necessária. É necessária porque ouço já agora os pássaros da primavera – a melhor estação, mesmo que seja quente – e devo-lhes um texto. Devo um texto que cante o canto dos pássaros da primavera. Devo um texto que cante o nada e o tudo presente neles, devo-me um texto que conte o canto dos pássaros, devo ao Friedrich um momento de paz que ele não gaste escrevendo, devo ao Friedrich uma puta, e devo a mim mesmo o prazer da beleza, que eu fui enxugando e matando aos poucos, através da feiúra dos meus espinhos.

Devo a minha alma, e devo o meu contato com a Clarice, e com o meu pesadelo. Hoje sonhei que eram eu e meu pai num cenário james bond, explodimos algo e nos “resgatamos”, e no entando ao explodir, o esgoto explodiu e tudo se encheu de vermes, muito grandes e muito nojentos. Quão verdadeiro não é esse sonho-pesadelo? Quantos não são os vermes que eu encontrei ao tentar explodir o mundo à minha volta, nessa suposta desorganização festiva do nada!?

Eu preciso é explodir as nuvens para que delas caiam algodões-doce! Eu preciso é explodir a garganta para que dela saia um grito verdadeiro – mesmo que de dor, que saia um grito verdadeiro, que não é sujo!. Eu preciso explodir são os holofotes, que iluminam nossas vidas e nos impedem de enxergar a noite, eu preciso explodir os cabelos das mulheres que me cercam, e agora eu não consigo justificar por que, mas não importa, porque sei que essa é uma festa desorganizada da irracionalidade de que eu gosto, que me apraz.

Porque não faz sentido, e no entanto sou eu que escrevo! Não são vocábulos initeligíveis que mal meus são! São palavras minhas, escrotas, feias, indignas, cruéis, ríspidas, nuas, cruas, mas que são minhas, que eu as percebo, as pronuncio, as cuspo, as controlo! São minhas, e só por isso já fazem sentido suficiente dentro da lógica de não-fazer-sentido.

Eu preciso é de uma amizade sincera, dessas que possam polir meu espelho, para que os silêncios sejam sentidos em plena consonância com o nada, e, aí sim, comover a mim e aos que me seguem, aos que me lêem, aos que de mim gostam. Eu preciso voltar a falar de mim, ou de Deus, ou talvez eu não deva voltar a falar de nada – talvez me reste só isso: a humildade para dizer “eu não preciso falar de nada” e permanecer-me então calado.

E tenho dito, humpf.

12 de outubro de 2009

Um feriado na Segunda.

Então, é segunda e eu tentei escrever. Porque foi uma segunda vazia, como os domingos, porque foi feriado.
Mas aí não consegui. Iria escrever sobre o nada, sobre os silêncios e sobre a importância disso. Ia dialogar com clarice. E ia ser bonito. Mas ai não fluiu. Então tentei outra coisa.






























9 de outubro de 2009

Diálogo com os deuses (?) – Meu encontro com Aphrodite #1

Na pequenez de mim mesmo em que me encontro, escrevo.

Além de permitir-me ser suficientemente grande quanto para acomodar a esse eu-que-não-cabe, a escrita permite tantas outras peripécias quanto couberem na folha de papel higiênico em que se escreve.

Nesse momento, a minha calma, que já aprendi ser tão perigosa quanto prazerosa (como são as transgressões!) [Será a minha calma uma transgressão disfarçada?], bem, a minha calma se transformou. E não mais cabe na palavra calma, a que eu havia a designado.

De repente, ela exige inúmeras outras palavras.
De repente, passa a ser silêncio, carência, nostalgia, até medo!

A mesma calma que pouco atrás era apenas ‘calma’ e ‘prazer’. Assemelha-se agora à angústia, e, já o disse, tenta ganhar o status de ‘transgressão’.

Que é ela, afinal?
Que estado é esse de agora que me faz escrever? Não é comtemplativa. É ativa. É calma, mas é ativa, ‘eu sou a calma’. (a calma que é silêncio, carência, nostalgia e medo, e que quer ser transgressão)

- Aparece em tua forma verdadeira, ó musa compulsória! Por que é que me obrigas a escrever-te? O que é que de mim exiges?

Há estados-momentos nos quais é tão essencial que eu escreva, que eu não vejo diferença entre eles e as musas, ambos devaneios-sensações que nos engolem, nós covardes arrogantes, e nos forçam a pensar o mundo sob o prisma delas (das musas).

Personificada, ela, jus à sua idealização (todas as musas são ideais… correto?), se me aparece em forma de mulher, seus contornos tão perfeitos quanto irreais, um esplendor só encontrado na Grécia Antiga e em suas deusas olímpicas.

“Estaria eu falando com a Beleza?” – Aphrodite, és tu?!

A que devo-te a honra?

(…)

Eros? Mas, mas… (silêncio)…
Pathos, é claro.
Agora, eros?
Tens razão, é claro (e como poderia discordar?, é uma divindade!), estou apenas boquiaberto, perplexo.
Mas, sim, é claro que concordo.

E ela se esvaiu, tão rápido quanto veio, tão incrível. Ela passara sua mensagem e seguiu.

A calma que eu sentia era de fato divina. A calma que era silêncio, carência, nostalgia, medo e que queria ser transgressão. Era divina, era Aphrodite. Era a beleza.

Só que eu estava ativo – certamente eu era belo a qualquer um que por ventura me percebesse, que se aventurasse a ser o sujeito ativo da beleza que eu estava emanando mas eu não via, eu não estava sendo o duplo sujeito da beleza, não era o belo a mim mesmo.

Mas vi, pelo espelho ao contrário que se tornou minha narrativa - que, num contato com a minha palavra, tornou-se divina e depois divindade - a minha beleza; tive um relance dela, arranquei-lhe um pedaço de certeza. Vi a Aphrodite que reinava secretamente no meu silêncio carente nostálgico medroso transgressor, calma!.

1 de outubro de 2009

(Rascunho) Friedrich (IV) - Trecho de Diário #1

Hoje, tendo achado um momento de paz dentro de tantas outras turbulências, permito-me o luxo de escrever. Pude pensar – e embora não uma tese deveras complicada ou difícil, é-me prazeroso escrevê-la nem que apenas para tê-la por registro de que a minha mente não morreu.

Também, escrever do modo como aqui pretendo lembra-me os tempos de Universidade… Uma gostosa nostalgia dentre tantas memórias contaminadas.

Aos pensamentos, pois:

É claro que, embora pensante, não me livro completamente da parte mais negra de mim, por assim dizê-lo. São precisamente as angústias, minhas, de que falarei.

Sei bem que todas elas - por mais que concentrem-se no campo mental, psicológico, pensamentoso - têm reflexos no corpo. A partir daí, distingui-as basicamente entre dois tipos.

Há aquelas, mais comuns, que aparecem-me como mera e genérica “dor de cabeça”; e outras, muito mais intensas e pesadas - tanto mais raras! -, que se mostram principalmente no coração e na caixa torássica que o envolve (por vezes comprimindo o diafragma e destruindo momentaneamente a minha capacidade respiratória). Haja fé na frieza matemática nessas horas!: só ela me proporciona algum conforto.

Não obstante o meu diploma – que valem eles aqui, afinal? – é desnecessário ser um doutor para que alguns detalhes se notem. O segundo tipo de angústia quase sempre possui uma ligação com um sentimento afetuoso, para com outro ser humano, geralmente um parente, ou de importância equiparável. Já notei pelo menos dois momentos em que pensei em minha mãe ou em Nicole, antes de um tal ‘espasmo angustioso’.

Já o primeiro poderia, por outro lado, ser causado por mero devaneio intelectual, estando a cura presa tão-somente ao intelecto; mais de uma vez se deu depois de uma falta de fé religiosa (algo freqüente num ambiente tão sem-Deus quanto o em que eu agora me encontro), ou um desafio à minha autoridade enquanto patente. Tão logo recomponho minhas convicções, a dor se esvai – como disse, tão unicamente uma angústia intelectual. Nos casos que citei, prováveis frutos da frouxidão de minha infância.

Tenho que ir, uma briga entre dois novatos me requer. Ridículos garotos acéfalos – nenhum jamais há de me proporcionar um diálogo que chegue aos pés do que eu mantenho nesse caderno!

Argh. Sôo louco…

F. Grundberg
19.05.43

22 de setembro de 2009

Contemplativa

Sabe?, a tristeza tem sim um quê de beleza. Ou talvez a beleza tenha um quê de triste. EIs uma questão que me foi posta antes, e que permanece.

A beleza talvez seja um estado contemplativo: nós somos sujeitos passivos da beleza, a ação dela é sentida por nós. Afinal, mesmo a beleza mais ativa, que é a própria - quando Eu sou bonito - , só é a partir do momento em que há um sujeito passivo, que a percebe. (Mesmo que o sujeito ativo e passivo sejam os mesmos: aí então sou bonito a Mim mesmo.)

Só se é belo potencialmente, pois apenas na presença de um outro, a beleza passa a existir, a ser bela.

E o que tem a tristeza a ver com a beleza, com sua contemplação? Também é a tristeza um momento, um estado, de contemplação? É preciso haver um sujeito passivo da tristeza para que ela exista?

Pouco sei. Sei que às vezes, como agora, sou triste de uma forma contemplativa. Fico percebendo a minha tristeza, brincando com ela, mexendo com sua vergonha - como se o faz àquele amigo nosso que não consegue dançar ou ir falar com aquela garota que tanto se percebe que ele deseja.

E aí, creio, que tristeza e beleza se confundem para nós, sujeitos passivos de ambas; uma e outra são contempladas, presenciamo-as, sentimo-as. E no entando nada fazemos – nada efetivamente podemos ou queremos fazer – com elas, que nos invadem, nos transgridem, nos fazem transgredir: para fora de nós, para além-nós. Ou simplesmente para “lá”, num lugar que é um pouco mais belo-triste.

Lógico que, infinitamente arrongantes quanto a nós mesmos, não suportamos ser passivos – não nos aguentamos, reles inconformados, nós! – e tentamos transgredir nossa própria transgressão de nós mesmos: transgredimos ad infinitum. Contemplamos a contemplação, ficamos tristes pela tristeza, e somos belos pela beleza.

Como agora. ! Em que contemplo a minha contemplação, fico triste pela beleza, belo por estar triste, escritor sobre o escrever, vivo para ser vivido, sou artista para poder ser arte. Viro sujeito ativo para poder validar a minha condição de sujeito passivo. E enfrento o infinitum.

E assim coloco as duas, tanto a beleza quanto a tristeza, num container infinito, mais ou menos como se eu colocasse o mar num observatório visível apenas do “subterrâneo”, sendo que a terra nada mais é do que a fronteira que nossa arrogância insiste em tentar transgredir.

E aqui, embaixo da terra, nesse texto-arte subterrâneo, eu passeio pelo infinito mar de tristeza e beleza, meio perdido meio alegre nessa caminhada contemplativa pelos oceanos e lagos que, enfim enfim, compõem esse eu-que-escreve, esse meu momento, estado em que me encontro: Esse eu triste.

10 de setembro de 2009

Amizade Sincera

Às vezes o meu quarto não é grande o suficiente e eu vou lá pra fora.

Então, percebo que também ‘lá fora’ é pequeno.

E vejo, num misto de susto e surpresa, que não é o meu quarto ou o meu jardim, ou o meu ‘lá fora’ que não me bastam; mas eu, que deixei de ser suficiente a mim mesmo.

Aí escrevo.

4 de setembro de 2009

(Rascunho) Friedrich (I) – A Angústia

Friedrich não conseguiu dormir.

Não era a primeira vez que via seu espírito se encher de culpa, mas sentia, de alguma forma, que agora era diferente. Jogar cartas com os seus companheiros, pelos quais simpatia era a última coisa que sentia, de nada adiantaria pra acalmar-lhe os nervos: recusou.

Seus mestres, amigos, pais; todos ecoavam na sua mente, seus ensinamentos e palavras a tentar conter a onda de angústias infinitas a qual era imposta sua mente. Divinos dogmas e certezas infundamentadas lhe eram evocadas numa vã tentativa de coforto. 'Inútil'.

Brigava consigo mesmo, sentia-se à beira da insanidade. Vivia o desconforto supremo - o humano - e a triste, enorme, tragédia que era o existir.

Por um breve momento, se lembrou de Shakespeare. Naquele momento, tudo que queria era não ser. Morrer, pensou, é melhor que este fardo de ser.

Fechou os olhos.

Reabriu logo em seguida.

As imagens revividas no seu inconsciente - ou seria consciente? - eram-lhe tão bizarras, tão indignas, tão cruéis. Sentiu-se enojado.

Levantou, passando pelas camas companheiras, observando todas as cúmplices e testemunhas do crime - 'nossa, pensou, que palavra anacrônica!' -, seu crime. Sabia que não podia contar com nenhum deles. Provavelmente, para eles, seu único crime seria essa onda de pensamentos "hereges" e "anti-morais" que ele agora cultivava; chamariam-no de “Cristãozinho”, apelido odiado que carregava escondido desde aquele incidente na Juventude...

Nas sujas e asquerozas instalações higiênicas da tenda, jogou alguns mililitros de água no seu rosto, numa misteriosa inocência, ao pensar por um centésimo de segundo que poderia se purificar. ‘A pureza, pensou, não cabe nesse mundo, nessa nação, nesse ano; melhor - a pureza não pertence ao ser homem.’

Voltou no tempo uns poucos séculos ideológicos e se machucou, com a lâmina de barbear mesmo. Punia-se. Mas sabia que era inútil, além de desnecessário. Tinha O traído, pensou, mas por que, ou como, poderia um auto-sacrífico servir-Lhe?

Não. Isso constituiria um erro. E sabia que nem uma lâmina, nem um chicote, nem a própria morte poderia curar sua angústia. Ou, novamente num retrocesso anacrônico, lhe purificar a alma.

'Precisava sair dali.' Temeu tê-lo dito em voz alta.

Tomou uma decisão - um lapso de consciência, finalmente! - e por um momento duvidou. Era impossível. E, muito mais que impossível, estava sozinho. E, mais que sozinho, estava vivo, o que, em primeira e última análise, significa que morreria.

‘Morto, não era nada.’

‘Morto, seria como o garoto.'

‘NÃO!’- gritou para consigo mesmo - ‘Era dez, cem vezes, um mlilhão, trilhão, infintas vezes pior do que o garoto. Seria capaz de qualquer coisa para dar a sua vida no lugar da dele.’

E adormeceu, entorpecido em pensamentos.

(Outubro 2008)