6 de abril de 2013
Não somos autoridade de nós mesmos!
No melhor lugar do universo
Eu nunca senti que podia chamar as casas em que morei de lar. Hoje eu descobri que existe uma diferença entre um espaço e um lugar, e a intuição que eu sempre carreguei na minha vida – de que nunca acharia um teto sob o qual eu pudesse me sentir “em casa” – fez mais sentido. Um lar não é feito de alvenaria e concreto. É, antes, o lugar em que podemos ser o que nós somos; onde chorar é, além de confortável, prazeroso; onde a vontade de não-viver é impossível; onde o descanso é perdoado; é para onde o amor volta.
Hoje eu descobri, meu amor, que eu quero morar no seu peito. Lá, que é o melhor lugar do universo. Lá, que é o meu lar.
3 de abril de 2013
Acordando o instinto de verdade como quem acorda um urso com um taser
Você lê um dos meus textos de uma frase só e tem vontade de dizer apenas uma coisa: “Isso não é verdade! Não pode ser verdade!”. Quando isso acontece, eu sei que posso dormir tranquilo, com a certeza de que minha missão se cumpriu.
Por um mundo sincero
“Como há pessoas más no mundo! São muito mais numerosas do que as boas, certamente!”, exclama por aí o populacho ao se deparar com as tragédias de cada dia. Sim, talvez seja verdade que haja no mundo uma quantidade estranha e talvez incontrolável de maldade, mas… atribuí-la aos maus? A maldade que é causada pelos maus nem dói tanto assim! Mas vocês não sabem disso!, porque nunca viram alguém mau, genuinamente mau -– de fato eles são poucos e raros. Não, meus amigos, se há maldade no mundo… ela não é causada pelos genuinamente maus, mas pelos ingenuinamente bons. Desses o mundo está já há muito sobrecarregado.
Matando sujeitos
Você amamenta o seu filho para que ele pare de sentir fome - ou para que você pare de ouvir o choro?
Sua monstra.
31 de março de 2013
Puro, simples, livre
Como os sentimentos de um homem depois de chorar.
Uma alegria calma, de quem olhou pra morte e voltou.
Sem correntes, sem espinhos, o mais livre dos andarilhos – o mais pequeno dos caminhantes, porque se sabe pequeno.
E ao mesmo tempo enorme, do tamanho do universo, exatamente do tamanho do próprio corpo, porque é corpo.
Corpo - perdoável, salvável, inocente corpo – corpo de criança.
É preciso se desfazer por completo das palavras, pra que elas possam ter finalmente significado. Porque é como se o mundo pela primeira vez tivesse significado – e é verdade: o mundo começa agora.
E agora, agora!, meu amor, agora eu te amo.
30 de março de 2013
26 de março de 2013
Somos todos bombeiros
Nada do que é humano nos é indiferente.
(Nem a maldade, nem a injustiça, nem a mentira, nem a covardia, nem o desespero, nem a desrazão. Como é difícil ser bombeiro.)
24 de março de 2013
Musculatura
Quando você transa ou se masturba… A sua cara parece como a de alguém que entra em um banho quente ou come um chocolate divino –- ou você tem aquela cara de quem tá na cadeira do dentista?
Às vezes eu tenho a impressão de que a saúde começa nos suspiros.
23 de março de 2013
22 de março de 2013
21 de março de 2013
Não ao não-sofrimento!
19 de março de 2013
O que é mais importante
Não concordo com tudo o que eu escrevo.
Mas existem coisas que são importantes demais para que eu deixe de as escrever só porque não concordo com elas.
18 de março de 2013
Brincadeira de criança
Existem sentimentos. Existem crenças sobre esses sentimentos. E existem sentimentos que acompanham essas crenças.
Por exemplo:
Ele se sentia triste. Acreditava que tristeza era sinal de fraqueza. Teve raiva de si mesmo, por se achar fraco, por ter se sentido triste.
Ela sentia raiva. Acreditava que sentir raiva mostrava ingratidão. Sentiu-se culpada, por se achar ingrata, por sentir raiva.
Ele sentiu ciúme. Acreditava que sentir ciúme só era possível caso houvesse posse. Sentiu nojo de si, por se achar possessivo, por ter sentido ciúme.
Ele e ela sentiram medo. Os dois acreditavam que medo era conseqüência de um perigo real. Ele passou a acreditar que os negros eram perigosos. Ela acreditava que considerar os negros um perigo, era um crime racista – e se sentiu pecadora.
Asseverar sobre as crenças -- e sobre os sentimentos “secundários” por elas gerados… é divertido, mas um erro. Você nunca estará errado, no entanto, se apenas tentar descobrir quais eram os sentimentos “primários” – desçamos juntos a escada em espiral que nos leva ao nosso cor. E a partir de lá, e apenas de lá, criaremos nossas próprias crenças. E, com eles, outros sentimentos secundários.
Como a criança, sentindo-se forte, que inventa dragões para matar.
14 de março de 2013
A noite é mais escura…
Usei um novo creme para espinhas e estou me sentindo muito melhor. Mas a verdade é que minhas espinhas estão agora mais visíveis, e não menos!
Meu caro, é assim mesmo: antes de deixar o corpo, as impurezas deverão se aproximar de sua superfície. O processo da cura frequentemente inclui um agravamento dos sintomas – mas isto faz parte, e não se deve temer.
12 de março de 2013
Conselho para os que não estão chorando
A tristeza frequentemente produz um relaxamento nos músculos que é extremamente prazeroso.
Você pode estar triste e em sofrimento, mas provavelmente a sua tristeza não é a causa do seu sofrimento. Descubra qual nó está tencionando os seus músculos, desfaça-o e chore.
Um desejo
Que sejam médicos antes de se tornar curandeiros.
Que sejam cientistas antes de se tornar profetas.
Que eu seja homem antes de me tornar escritor.
Que ninguém precise ser adulto!, antes de se tornar criança.
9 de março de 2013
Sobre quem eu não sou
4 de março de 2013
Era uma vez
Era uma vez um menino que morreu de solidão.
Um dia, ele renasceu como uma fênix.
Mas aí ele morreu de novo.
24 de fevereiro de 2013
Venderam-te o que não querias, por um preço que não sabias.
Não é engraçado… Quando agem para comigo “por caridade”, não só eu sinto que não ganhei nada, como tenho uma estranha sensação de estar em dívida com aquele que foi caridoso.
20 de fevereiro de 2013
Você a ama, mas…
… Gostaria que ela tivesse menos fontes de prazeres.
O seu sadismo, eu não o desprezo. Eu o entendo. Entenda-o você também. E considere a sua crueldade um sintoma de um amor doente.
12 de fevereiro de 2013
Para quê e para quem
Nem sempre a nossa literatura a gente consegue fazê-la para os outros. Não deixe de fazê-la por isso.
Fazendo as pazes com a solidão
Havia um tempo em que era apenas eu. Eu acho que eu cheguei a escrever nesse tempo e é provável que eu o encontre em fragmentos antigos, os meus garranchos evidenciando minha idade imatura. Eu ficava à noite sozinho olhando pros céus, do lado de fora da casa, e eu tinha apenas os meus pensamentos como companhia. Às vezes eu experimentava respirar diferente, às vezes eu subia no parapeito, às vezes eu entrava na piscina, às vezes eu tocava violão pra lua, às vezes eu ficava pelado. Eu sinto saudades daquela casa. Que não é mais minha. Eu nunca chorei por aquela casa. Eu tenho tanto por chorar. Eu chorei muito em volta daquela piscina. E eu pensei tanto. E eu me dava bem comigo mesmo. A minha mente era, e continua sendo, muito traiçoeira e terrível. Distorcia as coisas, mudava-as de lugar, fazia-me um merda. Mas, assim como eu tinha essa mente torturada, eu também tinha vários jeitos de me sentir melhor. Ou talvez eu só os tenha desenvolvido precisamente porque eu tinha essa solidão a meu dispor. Eu era sozinho. E a minha solidão foi muitas vezes fonte de grandes prazeres. De grandes alívios. Ai, é verdade, eu sofria muito. Mas não era a minha solidão minha inimiga. Não… E eu acho que eu a tomei por inimiga. Eu gosto de pensar que boa parte das minhas qualidades, inclusive das qualidades que me fazem ser amado, é de responsabilidade minha… Que eu batalhei por essas qualidades a custo de muita solidão. Porque é lindo o homem que consegue viver consigo mesmo. É lindo o homem que sabe que contém em si um inimigo à espreita, mas que o vence com um olhar penetrante e alguns momentos de silêncio. AI! Quando e por que eu fiz do silêncio um inimigo? É verdade, eu falava muito pouco. É verdade, eu era assimétrico nas minhas conversas – e ainda sou. Mas isso não tinha nada a ver com o silêncio que eu gostava de cultivar… Que não era silêncio: eu freqüentemente falava sozinho em voz alta, escutava música alta, cantava alto, ou chorava baixinho. Silêncio e solidão. É, eu definitivamente já escrevi sobre isso. Eu estou revivendo algumas coisas agora. Eu estou fazendo as pazes com amigos antigos, que confundi por inimigos nos últimos anos. Eu estou reganhando a capacidade de fazer, sozinho, com que eu arrepie os pêlos. Isto é, com que eu cause em mim mesmo emoções e sensações fortes. Porque a minha solidão nunca representou uma diminuição da minha capacidade de sentir as coisas. Pelo contrário: várias vezes foi apenas nela e através dela que eu podia sentir. Maldito aquele que me disse que é inútil o sentimento que não é comunicado. Maldito egocêntrico aquele que não suportava o meu silêncio. É verdade, eu tinha sérias e profundas e difíceis cicatrizes que me tornavam desprazeroso comunicar-me com os outros… Eu ainda tenho. Eu ainda sinto vergonha dos meus sentimentos, e ainda é difícil comunicá-los. Mas isso não significa que eu não deva me esforçar por senti-los, do jeito que me for possível. Desse jeito só e silencioso que eu fazia à beira da minha antiga piscina. Escrevendo esses textos difíceis de se decifrar, que não falam sobre os sentimentos, mas como que os indicam, às beiradas, tangencialmente os indicam. É um texto que busca amigos. Amigos na solidão. É na solidão que eu me perdôo, porque é nela que eu percebo a maneira como por tanto tempo eu fui abusado e os motivos que me levaram a me expressar desses jeitos mais tortos e impenetráveis. Eu consigo ver a formação da minha couraça e o momento em que eu a chamei de armadura – e também o momento em que eu me ressenti de tê-la criado. O momento em que eu ressenti ter nascido, porque dói muito. E no entanto… eu sou tão normal. Eu pareço tão bem estruturado. Eu não sôo como esses adolescentes sofredores que morrem todas as noites. Eu sôo… Eu sôo como um soldado voltado de guerra. A psiquê toda fraturada… a capacidade para o prazer profundamente abalada e o sentido da vida e a crença em deus… irrecuperáveis. De que serve um soldado em tempos de paz? Pra que sirvo? Os beijos que me dão, eu os sinto como panos umedecidos colocados por sobre minhas feridas: carinhosos, é verdade, mas um alívio muito mais do que um prazer. E no entanto… eu amo tão intensamente. Quem são esses personagens que te habitam e que você tenta expulsar? Esse padre, essa mulher que apanha, esse veterano de guerra, esse filósofo, esse semideus. Eles precisam de espaço - e eles não vão te matar. Dar-lhes espaço não vai ameaçar ninguém, definitivamente não a você. Eu concordo: esse homem que vive sozinho, à noite, soturno e lupino, conversando consigo mesmo, não é homem que vai ser amado, violentamente amado, por uma grande mulher (talvez por um amigo). Mas você pode guardar com toda a certeza no seu coração que ele é essencial para que você se torne amável. Ele te torna grande, principalmente porque ele é parte de você. E como é lindo o homem que dá as boas-vindas a todas as suas partes. O que é esse texto e pra quê ele serve? Acho que ele serve para mostrar que eu ainda estou aqui, que eu ainda te amo, que eu ainda tenho muito carinho por ti, e que você sempre pode contar comigo… Basta um pouco de silêncio. Eu prometo tentar te ajudar. Eu sou uma parte de você. É impressionante como a sua capacidade de amar aumenta, quando você se ouve e se acolhe um pouco. Eu sempre vou te acolher. Os que te abusaram moram no seu passado e eles não podem mais me te ferir, porque eu não vou deixar. Basta que fiquemos juntos. Juntos somos mais bonitos e mais fortes. Mas é preciso que você me receba. São meus amigos todos aqueles que se acolheram, que se permitiram ser acolhidos. Eu amo todos vocês.
Enigma
“Consigo aferir o seu estado de saúde com base na qualidade dos seus textos.”
“Ficam melhores quando estou sofrendo ou quando estou saudável?”
“Prefiro deixá-lo na dúvida.”
Ouve teus conselhos de adolescente
O amor não pode se tornar uma distração. Ele não cura sintomas - ele os faz desaparecer. Mas não se engane: eles reaparecerão. Maximizar o amor – superdimensioná-lo – fará apenas com que seus sofrimentos pareçam comparativamente menores. É no pêndulo entre o amor e o não-amor que melhor você vai conseguir se enxergar. Não segure este pêndulo. Não use o seu amor para fugir de si. Use-o para se perceber. Para, então, poder amar mais e melhor. As coisas prazerosas da vida não precisam de mais tempo ou energia do que espontaneamente somos capazes de lhes dar. Atente-se sempre às horas em que você estiver desviando energia de outro lugar, sentimento ou coisa para o amor ou uma brincadeira ou um trabalho (para nós que consideramos o trabalho um prazer, é claro): isso é o começo de um vício e com ele você diminui o amor, a brincadeira ou o trabalho – não o enobrece. Porque a nobreza está em dispensar às coisas apenas a quantidade de tempo e energia que elas nos pedem. O amor tem um tamanho: tentando aumentá-lo, diminui-lo-á.
8 de fevereiro de 2013
5 de fevereiro de 2013
Moralista de si mesmo
2 de fevereiro de 2013
"Consolo"
ou
Cuidado com os sintomas sutis!
31 de janeiro de 2013
29 de janeiro de 2013
Sobre os traumas
A diferença entre fazer um cálculo e criar um teorema
Por um bom uso dos imperativos
23 de janeiro de 2013
O poder das inferências
“Sou contra cotas raciais, porque não acredito que as pessoas de outras raças são inferiores. Sou a favor apenas de cotas sociais.”
22 de janeiro de 2013
Nós, os desrespeitadores
Este mundo nunca testemunhou um ato de desrespeito. Apenas aconteceu de respeitarmos em maior medida algo diferente. Somos, afinal, criaturas do respeito! Todo desrespeito aos pais - incluindo Deus - é um respeito maior a si mesmo. O desrespeito a uma ordem é um respeito a uma ordem maior. Apenas isso podemos fazer: disso não podemos fugir. E é assim, meus amigos, que devemos lidar com nossos sentimentos e os de nossos companheiros: se eu alguma vez te desrespeitei, foi apenas por um respeito maior a ti.
21 de janeiro de 2013
That awkward moment when…
A sua versão adolescente ao pôr do sol têm mais views do que o clipe oficial.
20 de janeiro de 2013
18 de janeiro de 2013
Não à “reciprocidade”
Desde o início, ele queria que ela fizesse X por ele. Não tinha, no entanto, coragem pra mandar nela (como queria). Então, ele foi lá e fez X por ela. Ela, por ser uma boa moça, se sentiu na obrigação de retribuir o favor; foi lá e fez X por ele.
17 de janeiro de 2013
15 de janeiro de 2013
O objetivo nunca é não sentir
Lá se vai o idiota, tentando não sentir frio. Sabem o que faz? Ele tenta controlar o tremelicar dos dentes!
Nossos filhos gritarão em coro
O que a gente faz para se livrar desse mal estar? O mesmo que uma ave de penas impermeáveis faz para se livrar da água: chacoalha-se!
Meus amigos doentes
A Saúde é uma donzela esbelta, voluptuosa, independente e poderosa. Se você é apaixonado por ela – e faz bem em sê-lo! –, então você deve flertar com ela, cortejá-la, conquistá-la. Deve tornar-se tão atraente que ela não tenha outra escolha a não ser deitar em seus braços.
Mas, se você age como um mendigo, esmolas é o que receberá.
14 de janeiro de 2013
Ou seja
Os sentimentos que temos em relação às ações dos outros são, de alguma maneira, menos intensos que os sentimentos que temos em relação aos sentimentos dos outros. Isso se dá, porque as ações podem contradizer os sentimentos (por coação, insanidade, covardia ou confusão), mas os sentimentos não podem contradizer a si mesmos.
Será?
13 de janeiro de 2013
12 de janeiro de 2013
Saber distingüir os inimigos
11 de janeiro de 2013
A crença nos leitores
Para quem escrevemos?
Nas noites frias, foi a crença nos bons leitores que nos manteve aquecidos, a ti e a mim, quando nem em nós mesmos podíamos confiar. Os nossos leitores, no entanto, por mais que sejam inventados, serão sempre leais. E sempre nos conduzirão de volta. De volta pra onde? De volta pra nós.
Estarei te esperando, quando voltares. Porque sou teu eterno leitor. Fica bem.
9 de janeiro de 2013
Pela legitimação dos vícios
8 de janeiro de 2013
Embriagar-se na medida certa
7 de janeiro de 2013
Desejo não é uma troca
“Se os homens conhecessem o valor da gentileza, não haveria tantos encalhados (sic) por aí”
Leve esse pensamento a sério, e você se tornará uma puta. Uma puta paga com moedas de gentileza, mas uma puta ainda assim.
Dos mais agradáveis paradoxos
3 de janeiro de 2013
Profundos demais
Todo alpinista retorna à planície. Também nós, escavadores da humanidade, precisamos fazer o mesmo, e voltar periodicamente à superfície. Não há vergonha em admitir ser sufocante o ar aqui embaixo. Lembre-se que Zaratustra não tinha valor nenhum até descer de sua caverna.
As origens pantanosas das virtudes
Nada mais fácil do que manter-se casto em uma cela individual.
Nada mais fácil do que manter-se profundo em um buraco sem escada.
Os patéticos e a sensibilidade
O mais assombroso e desesperado grito de dor de um homem é apenas um teatro ridículo para o surdo.
29 de dezembro de 2012
Enganando os paralíticos
Às vezes, o melhor que podemos fazer, enquanto mestres, é errar. Freqüentemente, a frustração deles ao nos perceber imperfeitos é tanta que não terão outra opção a não ser tentar nos corrigir – isto é, nos superar. Sem perceber, estarão superando a si mesmos.
28 de dezembro de 2012
Escrita sem tese
Eu sou viciado em teses. É difícil me conceber lendo um texto sem que, nessa leitura, eu procure decifrar ou extrair a afirmação de uma idéia, de um modelo, de um estilo. Nessa madrugada, eu tentei imaginar um texto sem tese.
Primeiro, veio-me a poesia: não seriam os bons poemas --- textos sem tese? “E não pode ser esse o motivo da tamanha dificuldade que você tem de ler poesia?” Mas eu luto contra essa idéia: acho que mesmo nos poemas, e talvez especialmente lá, há teses. Nossos poetas têm uma tarefa grande demais, são responsáveis demais, para viver – para escrever – sem com isso afirmar, defender, e proteger certos modos de viver, de ler, de pensar, de sentir. Os próprios pré-requisitos da poesia precisam ser defendidos – assim como todo texto em prosa ensina os nossos estudantes a ler melhor – também o silêncio precisa ser defendido pelos poetas, também o ritmo, também a sutileza. Todo poeta diz, com seu poema, que é bom ler poesia. Que é útil, que há um porquê. (Todo? Mesmo? Como saber se não é você, Stefan, quem projeta nesses poemas suas teses?)
Em seguida, veio-me o sexo. Decerto, pensava, as pessoas transam por transar, e nada mais. Mas também isso é mentiroso. Quantos não são culpados de usar o sexo como argumento para o amor? Em outras palavras, quantos não pretendem, nas suas noites em seus colchões, provar – ao companheiro, a si mesmos – a tese de que amam? Muitos casais o fazem mutuamente, perdoando um ao outro. Alguns, um pouco mais perversos, dirão que existe inclusive uma correlação entre dar-se no sexo e amar. E passam a se dar, com uma intensidade forçada e uma artificialidade explícita (e triste), não porque querem, não por instinto, não por desespero – mas por amor! Aliás: não por amor! mas para provar o amor. Um sexo-argumento. Um amor-tese.
E vocês entendem como isso soa pejorativo? Como parece errado? Vocês percebem meu desejo de acabar com as teses? De chegar lá onde elas não sejam necessárias? Onde elas não sejam possíveis? Foi nessa madrugada que eu imaginei um texto sem tese. Logo depois de atribuir, à própria madrugada, uma tese própria: eu disse dela “que possui um valor anti-civilizatório”, pois “resgata um silêncio ingênuo mesmo no meio do caos urbano de uma metrópole”. Será possível escrever o silêncio – não sobre ele, não a favor dele, mas – ele mesmo? Haverá miserável tão miserável que sequer legitime sua miséria? Poeta tão poeta que não use seus versos para uma idéia, mas que seja por eles usado? Uma transa tão desesperada, tão profundamente animal, tão expansivamente ensimesmada, que não sobre espaço para as teses (nem mesmo para o amor)?
Tão livre que sequer a liberdade precise ser por mim afirmada?
Tem que haver. O universo não faria sentido, se não fosse assim. E a resposta, como você mesmo percebe e sugere a todo o tempo, não está nas coisas, mas naquele que as percebe. Você vê? Que esse texto nada mais faz do que encobrir um sentimento profundamente sem tese? Que o seu desejo de escrevê-lo é um desejo de enfraquecer essa parte da sua cabecinha que insiste em pôr nas coisas teses? Que, por detrás dela, por trás da sua dor de cabeça!, há como que vida em seu estado puro? Algo que tremelica, esquenta e pulsa, como que querendo sair? Talvez hoje, nessa madrugada fria, saia em forma de lágrimas (mas não seriam lágrimas tristes: até porque isso seriam lágrimas-argumento para provar uma tristeza-tese: “choro porque estou triste”, “veja como estou triste: estou até chorando!”), talvez saia em forma de um texto quase perfeito. Talvez um sorriso, ou um sonho, ou sabe-se lá de que outras formas pode-se viver (poesia? transa?). Mas que saia.
Que saia.
26 de dezembro de 2012
Mais animal
Eu não suporto as tuas poesias elevadas e certinhas, em que você vai lá “brincar com as palavras” e vai torturando elas até elas ficarem dóceis e perder toda a força. É isso: as suas poesias não têm força – ficam falando e falando do céu, do mar, das nuvens e das estrelas, dessa beleza escrota e maltrapilha com a qual você flerta, porque é incapaz de encontrar beleza aqui no chão e no teu próprio corpo. Com um corpo imundo desses, de fato, eu entendo a tua dificuldade: também eu o escavei e nada encontrei. Entre as tuas pernas, nenhuma abertura: lisa e brilhante como uma boneca americana, sem passagem, sem caminho. Pra chegar até você, como faz? É por cima? Através desses céus que você pinta com as tuas palavras estéreis e ingênuas? Você quer o quê? Que um cavaleiro das nuvens descenda dos reinos divinos e te estenda a mão, amando-te assim à uma distância segura, lá no alto? Ah, por favor! Como você faz amor? Porque a impressão que eu tenho é que você é incapaz disso; você já ficou nua? Porque, em todas essas vezes que você se desacobertou, parecia que tinham mais e mais camadas de palavras e sentimentos fraquinhos e debilitados com os quais você se esconde, profundamente, muito profundamente se esconde. Cadê tua nudez, cadê? Como você vai fazer amor, assim? “Pelas palavras”? Mas, pelos céus! Amor a gente faz com caralho e boceta! Arranca-te desse céu que não te pertence – arranha-te, morde-te, machuca-te, vive, ama. Porra! Dor de cabeça escrota.
23 de dezembro de 2012
Escolher escolher
Qual sofre mais? O que tem que escolher um dentre dois desastres, inexoravelmente terríveis?, ou aquele outro, bem mais raro, que tem que escolher uma dentre duas maravilhas?
O que acontece quando não tomar a outra opção – qualquer seja a que se tenha tomado - é o maior erro de sua vida?
22 de dezembro de 2012
Com carinho
É como se uma mão abrisse o seu peito, mas, em vez de doer, fosse como uma massagem no espírito. E aí, aos pouquinhos, você vai todo se abrindo, quentinho, confortável – nessa hora pode ser que escorra uma lágrima, depende –, e aí você derrete – não de calor, como aqui no Rio –, mas de ternura, você se liquefaz, literalmente torna-se menos sólido, e começa a, verdadeiramente, ocupar todo o espaço do seu corpo (como um líquido a seu recipiente), tornando-se estranhamente cônscio do limitado espaço que você ocupa no mundo; estranho, porque, ao mesmo tempo, você se sente ligado, por sangue ou raiz, àquelas estrelas no céu e àqueles beijos na tv, e as canções fazem especial sentido, viram puro prazer, e essas carícias todas tornam-se gradativamente insuportáveis até que, desistente, você suspira, e é como se suspirassem com você todos os animais e todos os insetos e todas as cores, porque você suspirou o mundo inteiro naquele suspiro, e aí você goza, e isso, você sente vontade de exclamar, isso é a felicidade, isso é um orgasmo.
O maior de todos os tédios
“Eu não compreendo… Digamos, então, que eu faça como você diz. Que eu guarde para mim o direito de tratar a vida com escárnio, que eu ria das ilusões de grandeza dos homens, que eu me esforce por enxergar as escolhas do cotidiano, que eu me torne meu próprio senhor – não por escravizar uma parte de mim, mas precisamente por alforriar aquela que sempre se manteve enjaulada –, que eu me torne mais forte e que eu também busque fortalecer aos outros, que eu repare nas minhas egocentrias e passe a brincar com elas, que eu borre a fronteira entre o que é espetáculo e o que é vida, que eu me permita divertir com a minha pequenez, que eu descanse muito, que eu morda e arranhe e espanque, que eu me torne mais livre, que eu me torne mais homem. O que há de ocorrer então? Tendo que fim em vista você propõe todas essas coisas? O que há de sobrar do homem que o seguir? Que fará ele quando chegar ao topo dessa montanha?”
“Meu caro, é preciso dizer que uma parte de mim é absolutamente solidária ao seu questionamento, e eu preciso, sim, elogiar a sua imaginação, que a tantos nesse mundo falta e cuja ausência tanto impede a capacidade de pensar. Mas seria muito mais certeiro eu admitir, não a minha simpatia pela sua pergunta, mas o meu desapreço por ela – porque, de fato, pouco me importam os fins. Apraz-me infinitamente mais estudar os meios e os modos – o estilo! Creio termos sido todos mal educados na nossa estima pelos fins, mas isso é papo para depois. Farei, agora, o possível para responder-lhe o mais na sua língua possível. De outro modo, afinal, seria contraditório.
Quando me esforço por imaginar esse homem a que nos referimos, quando me esforço por imaginar os fins desse homem, pouco encontro. Consigo imaginá-lo, por exemplo, num descanso crescentemente intenso, um homem cujas rugas lentamente tomam conta da cara, o seu corpo - já completamente doado à vida - lenta mas ferozmente se tornando pó. São decerto sombrias as imagens que me aparecem! Mas não faz sentido que um homem que absorva tanta luz do mundo não se torne, com isso, um pouco mais escuro? Pois, se me esforço um pouco mais a imaginar o fim desse homem, logo vejo que não é feito de sombras. Esse homem, que por tanto tempo aprendeu a deixar entrar luz em si, há de encontrar uma forma suficientemente adequada para fazê-la sair! Todos os grandes homens se tornam educadores da humanidade! A sua finalidade é externa: ele escreverá um livro, ou comporá alguns poemas, ou iniciará uma passeata – ele irá terminar de se doar. E, se ainda assim ele se entedia, se ainda assim ele consegue absorver muito mais luz do que consegue dar conta de refletir, ah meu amigo!, aí sim esse homem terá a maior chance de sua vida, sua maior provação; lá, onde todas as tarefas são insuficientes, onde não há trabalho grandioso o suficiente para preenchê-lo, quando a natureza efetivamente lhe prega uma peça e como que diz: – Aquilo que eu lhe dei antes como hercúleo dever era meramente um preâmbulo ao que vem pela frente! Aí, meu caro amigo, esse homem se tornará pai.”
Tesão intelectual
Eu vou te penetrar com o mesmo vigor com que escrevo meus melhores textos.
18 de dezembro de 2012
16 de dezembro de 2012
Convite à experiência
Os perks do eremita
15 de dezembro de 2012
nome de banda: Os Epistemólogos
A racionalidade é algo que aplicamos ao mundo a posteriori.
(E isso é tarefa importante, mas cuidadosa - a ser feita com esmero de poeta!)
O único instrumento que possuímos para tatear o mundo é a intuição.
14 de dezembro de 2012
12 de dezembro de 2012
Os objetos que nossa sombra obscurece
Contra os neutros!
“O estilo obscurece”, dizem os bandeirantes da objetividade e da aridez – os mesmos que, há não muitos anos, pelos mesmos motivos expulsaram os poetas da cidade. Ora! A sabedoria está em perceber que também a recusa ao estilo - também a vontade de não o ter – é um estilo. Péssimo, mas ainda assim um estilo.
10 de dezembro de 2012
Primeiro o silêncio
É um reflexo da liberdade – e não uma causa! – a capacidade de lutar pelos próprios direitos.
28 de novembro de 2012
“Não é como se eu estivesse apontando uma arma à cabeça dele”
Não, histérica, definitivamente não é. Mas, por um defeito de formação, ele acha que o teu amor por ele está sujeito ao teu bom humor e à subserviência a ti, o que significa que, sim, ele irá te obedecer, ainda que não estejas lhe apontando uma arma à cabeça. É tua responsabilidade, e de todos nós, apontar o ridículo dessa situação.
Agir sobre as causas
Sim, claro, você pode escovar os dentes para melhorar o seu hálito. Mas seria bem melhor se você simplesmente comesse coisas menos fedidas.
22 de novembro de 2012
Da evidente impossibilidade da infelicidade
O quê?! Você está tentando me dizer que, por causa dessa quantidade abismante de choro que cabe nos teus pulmões, o mundo é infeliz? Você me mostra os arranhões do mundo na tua perna e espera que eu olhe compassivo e apassivado – espera que eu concorde com isso?! Que eu lhe diga, consoante a seu choro, que sim, o mundo é triste, e que nada há a fazer a esse respeito?
Ou ainda, você, que diz, elogioso de si mesmo, e com uma arrogância ímpar: não, não é dos meus choros que tiro essa conclusão, não, é dos choros das milhares de crianças, abelhas e formigas que, incapazes, vítimas do destino terrível que lhes aflige – é de uma certa injustiça universal – que eu concluo ser o mundo o lugar natural da infelicidade!
Ora, seus moleques de espírito! como ousam?! Como ousam?! Pois devem ter a memória deveras curta – ou quiçá deveras longa, deveras perfeccionizadora! - para se sentirem capazes de tamanha cegueira. É impossível provar a infelicidade. Impossível, eu disse, impossível! Enquanto ainda houver respiração, enquanto ainda houver ânsia, enquanto ainda houver cartas de amor e filmes de comédia, é preciso decretar, do mais profundo poço das nossas pensantes almas, que a felicidade está aí. E ela continuará a pulsar, forte, e viva, e contaminará de vergonha e culpa aqueles que vergonhosamente incutiram no mundo a sua tristeza – que declararam-no um injusto, que fizeram dele mau. Ah, essa guerra está longe de terminar, mas o vencedor já se anuncia. Só há um vencedor possível, porque a felicidade está aí e nunca nos deixou. Que a tua torturada mente não possa dizer o contrário, não enquanto um de nós viver, não enquanto um de nós escrever, não enquanto um de nós dançar! O universo é nossa testemunha e vocês todos sucumbirão. Vocês todos declararão com as tuas gargantas cheias de lágrimas, intoxicadas e travadas, que a felicidade está aí e que o mundo não pode ser outra coisa que não belo.
18 de novembro de 2012
Prazer.
Levantei-me de madrugada, pus minha melhor camisa, fiz a barba com o esmero de um adolescente apaixonado, encontrei meu disco de Bach, coloquei-o para tocar, sentei, e fiquei ali, chorando até que o sol raiasse, com o prazer de dez mil sóis que brilham depois de bilhões de anos apagados, nunca fui tão homem, choro mais poético que as palavras, que o sorriso que o amanhã promete possa contagiar aos outros, como o canto dos pássaros, fim.
15 de novembro de 2012
Ciumento
A principal característica do ciúme não é o sentimento de posse nem a projeção das próprias carências e inseguranças sobre o outro, como várias vezes se supõe, mas uma súbita incapacidade de ser empático aos prazeres do outro.
13 de novembro de 2012
Levando sua moral a sério
Parece-me claro que os únicos capazes de continuar propagando esse tipo de moralidade são aqueles menos acostumados a olhar os outros – aqueles que soltam alívios de conforto narcisista ao se deparar com um imperativo desses, que diz: “Não é preciso enxergar os outros, muito menos se esforçar para conhecê-los: basta olhar para si, e lá a verdade encontrará”.
A raiva que sinto dessas moralidades grossas que se espalham pelo vento só não é maior que a minha tristeza, ao notar que são precisamente os que as espalham os mais incapazes e menos dispostos de conversar a respeito: buscam conforto e salvação, esses ateuzinhos de merda, não mais em um Deus, é verdade, mas em algo muito mais perverso - nos seus próprios demônios.
4 de novembro de 2012
Não se submeter
18 de outubro de 2012
15 de outubro de 2012
3 de outubro de 2012
Não são opostos.
É com uma felicidade e uma vontade de viver incandescentes que pelo amigo morto chora o veterano de guerra.
4 de agosto de 2012
10 de julho de 2012
A pior herança do Cristianismo
29 de junho de 2012
O professor como vacinador
15 de junho de 2012
Argumentando que nem gente
Eu sou contra os ônibus de Niterói.
E não importa o quanto você grite, isso não significa que eu quero que os ônibus de Niterói desapareceram. Aliás, você tem que ser burro, pra achar que essa é a única opção.
Agora vamos brincar:
- Eu sou contra os EUA.
- Eu sou contra o Brasil.
- Eu sou contra o casamento.
- Eu sou contra o cristianismo.
- Eu sou contra a democracia.
- Eu sou contra o estado de Israel.
- Eu sou contra a propriedade privada.
- Eu sou contra a violência.
- Eu sou contra a filosofia.
- Eu sou contra pessoas que não sabem argumentar.
- Eu sou contra o capitalismo.
- Eu sou contra você.
9 de maio de 2012
1 de março de 2012
1 de fevereiro de 2012
O mundo é um espetáculo
26 de janeiro de 2012
Instrumento errado.
Era um músico!
23 de janeiro de 2012
22 de janeiro de 2012
21 de janeiro de 2012
Pequenas e intransigentes intuições
Se você tem medo delas, tem medo de pensar.
13 de dezembro de 2011
24 de outubro de 2011
A rosa também tem espinhos.
15 de outubro de 2011
3 de outubro de 2011
Pequena ironia
Não entendo por que as pessoas buscam tão avidamente as causas das coisas. Como se da pistola o mais importante fosse o gatilho.
24 de setembro de 2011
(2) Descoberta tardia
A distinção entre forma e conteúdo é quase tão traiçoeira, para a literatura, quanto é aquela entre mente e corpo, para a medicina.