27 de fevereiro de 2017

Rir-se!

O que torna a criança tão amável? Não é o fato de ser estúpida, como a alguns parece, mas o fato de não levar ela a sério a sua estupidez. O outro lado dessa moeda, igualmente verdadeiro, é o fato de que a sua genialidade — — ela também não leva a sério! Tão leves essas crianças, rindo-se de tudo, de tudo fazendo jogo. É provável que às vezes sequer ela saiba se está sendo estúpida ou genial, desde que ainda não tenha aprendido aquele olhar julgador que inaugura essa divisão. Riamos também nós de nossa estupidez e entreguemo-nos à leniência com nós mesmos. Escrevamos e escrevamos, e certamente escreveremos besteiras e estupidezes, mas talvez escrevamos igualmente uma genialidade ou outra. Desaprendamos, ainda que apenas por um segundo, aquele olhar julgador, bebamos nosso vinho e façamos piada. É carrnaval, meus caros, e também o pensamento precisa se travestir de seu oposto para não perder a lucidez. Ele há de voltar, meu amigo filósofo, não precisas te preocupar.

Mais um esquecimento

Quem dedica a alma por muito tempo ao pensamento com freqüência esquece aquela sensação da infância de pensar sem um centro, como manivela que não está presa a nada mas que ainda assim gira desconstrangida e leve. Como queremos mudar o mundo, ao crescermos insistimos em prender nosso pensamento a uma base, para que ao rodá-lo sintamos que nossos esforços movem algo lá fora. Epistemologias inteiras escrevemos em busca desse centro, dessa base de manivela segura o bastante para que o mundo seja com ela manejado. Ao ficarem gagás, como invariavelmente acontece, os cientistas experimentam intensa alegria, pois finalmente podem usar suas manivelas (que poliram durante toda a vida e que tão habilmente seguram) sem atá-las ao que quer que seja: tornam-se livres, como crianças, pois fazem o que amam — pensam — sem o peso de outrora e tudo, tudo parece agora girar com a manivela e são por isso corretamente chamados de loucos. A manivela que tudo gira é tão útil quanto a palavra que tudo significa (pensar é discriminar). Como é linda e como é assustadora e como é patética essa imagem do cientista gagá que se perde, cansado demais de procurar bases e centros e seguranças e métodos. Recomenda-se, para prevenir esse destino, eventuais mergulhos nessa irresponsabilidade mental, o entregar-se ao pensamento sem o lá-fora, uma espécie de meditação do intelecto. Nosso objetivo é reganharmos o contato com a alegria da infância sem no entanto perder o que aprendemos, sem nos tornarmos impotentes, sem nos tornarmos cientistas malucos. Conseguiremos.

Péssimos ontólogos

Toda educação pode ser resumida à compreensão de metáforas, pois nossa teia — isto é: nossa linguagem — é teia de metáforas. Julgue a inteligência de seus pares pela forma como compreendem ou não as analogias e os jogos de palavra e acima de tudo preserve perto de si aqueles que são habilidosos em criar boas metáforas, aqueles para quem nenhum campo é distante o suficiente que não possa ser comparado a um outro um pouco mais próximo, para quem todo bosque da cognição é florido mergulho em jardim de sensações intelectuais — e sensações intelectuais são metáforas!: a mente sentindo o que não está ali mas poderia. PODERIA: esse é o verbo metafórico por excelência. Nós, os metafóricos, abdicamos de dizer o que as coisas são para nos dedicarmos ao que elas poderiam. Do mundo todo somos artífices! Criamos, com nossas analogias e brincadeiras e versos (alguns diriam: nossas mentiras), as mais belas pontes entre as coisas.

Péssimos físicos

Ao fazer julgamentos sobre si, o homem erra o tempo todo: sempre prefere medir a distância que o separa de um zero qualquer, e tudo — o zero, o aqui e mesmo a régua — aí são erros, tudo injustificável arbítrio! Não se mede o relativo com o absoluto. De nós mesmos somos a única régua: podemos apenas nos distanciar ou aproximar de nosso cor. Lembremos sempre que ao corrermos 60km/h na Terra nossa velocidade em relação às outras galáxias não se altera sequer por um 0,001%! e o mesmo erro incorremos ao nos julgarmos: ignoramos a inércia em nós e nos medimos a partir do que de menor existe à nossa volta. Mas somos enormes! Galáxias inteiras somos nós. E galáxias — — não se julgam. Queimam.

A nossa musculação

Aquele ali é musculoso, sim!: a vida inteira trabalhou em fazer crescer o coração.

Soma da educação

Toda neurose é obediência aos pais corporificada. A saúde é rebeldia controlada.

24 de fevereiro de 2017

Vita contemplativa

Diferente do corpo, a alma se fatiga quando não se mexe. Por isso a inação espiritual é tão perigosa e a preguiça mental, tão difundida. Pois, almejando “descanso”, condenamo-la ao repouso — e nada é mais tóxico para a alma do que o repouso. Não. A alma precisa de ação — sua ação. Quanto mais se agita, mais se convalesce. Bem aventurado aquele que tem diante de si tarefas da alma: pois dele é o reino do espírito e para nada lhe faltará gás. Entende agora o paradoxo dos que vivem intensamente? Não é que tenham energia para as coisas, é que das coisas ganham energia! Dancemos, meus caros! Que a nossa paralisia dormente à eternidade póstuma pertence.

20 de fevereiro de 2017

No meio do caminho

Se somos assim ou assado — felizes ou tristes, por exemplo — importa muito pouco perto do que fazemos. A felicidade só é desejável na medida em que nos permite um pouco mais de força ou arrebatamento para que realizemos o que quer que seja; em si, ela não vale quase nada. Perceber isso é mais uma dessas descobertas desencantadas na meia vida de um pensador: não oferece nem consolo nem vigor, apenas se nos põe como pedra no caminho, indiferente como todas as pedras. Mas isto devemos aprender rápido: indiferente à nossa felicidade é a natureza. E talvez nós mesmos devêssemos ser — — um pouco mais como a natureza...

14 de fevereiro de 2017

Corajosos, logo distintos

Discordar sinceramente de um amigo é a maneira mais profunda de respeitá-lo.

13 de fevereiro de 2017

Como o sol precisa da sombra

Dizer não é completamente diferente de não dizer.

Como é?! — dizer não pode ser uma forma de... afirmar?

12 de fevereiro de 2017

Alma de balão

A vergonha é o medo de não caber em si mesmo. (Por isso ela nos fura: tem como objetivo nos definhar para que, esvaziados, ocupemos menos espaço)

Os nãos que preparam o sim

Entre dois encontros há um hiato insuportável, durante o qual viajamos desacompanhados por longas eternidades. Cuidemos, porém, para não nos precipitarmos em meias companhias, por receio de que o sol do outro nunca mais brilhe. Em vez disso, devemos nos agasalhar, como quem se prepara para longo inverno, e acumular solidões. Entesourar!: isso nos pede o poeta. Calmamente depositamos fé no futuro, seguros de que, tal como o verão, o grande encontro virá. Nossa solidão é a energia potencial da nossa alma: transborda tão logo encontra vale profundo o bastante onde se derramar. Até lá, nossa tarefa é engrandecer e tanto maiores nos tornamos quanto mais solidões comportamos.

Às estrelas cadentes

Que as nossas solidões façam companhia uma à outra.

10 de fevereiro de 2017

Dar à luz em várias vozes

Na vida haverá momentos em que ficaremos nervosos e nossas mãos tremerão, incapazes de se conter em si mesmas — e nesses momentos, como em todos os outros, há que se escrever. E há os escritores que só escrevem quando nervosos. Embora admiremos essa capacidade de segurar firme a pena apesar dos tremores, temos de nos lembrar que a vida escreve em todos os momentos, não só quando urge, e se quisermos escrever nossos livros como Deus escreveu o mundo teremos que nos tornar escritores ambidestros. Pois a ânsia e o desejo e a alegria e o tremor — essas são coisas que se tem e que não se tem. Você, meu amigo, está perto de conseguir escrever com raiva e eletrizante tesão — mas, lembre-se, a calmaria é tão maternal quanto a tempestade. Nesse seu caminho, você terá que aprender a ser como mar: e isso inclui suas ondas as mais altas mas também seus momentos de laguidão onde a sua alma é o maior espelho do céu. Não será fácil e sentiremos falta de nossos tremores, agora que depois de tanto custo nos acostumamos a eles, mas mire a si mesmo nos olhos e reencontre aquela grandeza domadora de chamas que existe dentro de você: aprenda consigo próprio a paciência.

9 de fevereiro de 2017

Tornar-se estrela

Não devemos nos envergonhar de nossa história. Acima de tudo, quando nos faltarem consolos, é preciso que nos lembremos da nossa maior força: o esquecimento. O maior milagre da vida é ter feito as memórias perecíveis. Fossem hereditárias, não aguentaríamos sequer três gerações — raios!: se não dormíssemos e esquecêssemos, não aguentaríamos três dias. O mundo é novo porque esquecemos. Lembrar é reagir. Esquecer é criar. Tudo transformaremos e como crianças desenharemos os mesmos traços e amaremos de novo e de novo, como se não tivéssemos passado. E não temos. Porque na verdade não há amanhã. Eu e você somos dois nadas que, intransigentes, ousaram contentar-se. E o que torna um átomo mais ou menos carregado? O que faz com que tenha um ou três prótons, um ou dois elétrons? Quanta erótica não há na mais microscópica das físicas? Esqueçamos! Somos partículas. Nosso amor, nossa vontade, é intransigência divina: modificamos a nós mesmos, encarnamos o universo: e perecemos. Acima de tudo perecemos.

 

Mas, enquanto isso, amamos. 

Temos alguns trilhões de anos até que todos os sóis se apaguem. O tempo urge! Muitas poesias precisam ser ainda compostas antes que a humanidade — ou o que quer a suplante — possa aprender a viver. Educá-la na beleza: essa é a nossa tarefa. Amar e esquecer: como o carvão esquece de si ao queimar. Somos velas no breu universal. Queimamos e por um breve instante vê-se algo — sombras, silhuetas, cores, detalhes, olhares inteiros se criam para as velas — até que apagamos. Não choremos nossa finitude: morremos porque queimamos. E nós: não temos vergonha de queimar. Não devemos nos envergonhar de nossa história.

4 de fevereiro de 2017

Qual era mesmo o nome? Aurora?

Dormiu então, só e com sede, porque quem sabe o dia de amanhã não traria consigo um ineditismo na alma e de repente tudo fosse novo e diferente e de repente não mais quisesse morrer e talvez viver até lhe soasse bom. Então pensou se deveria tentar buscar companhia e ajuda, mas se resolveu por se abandonar na solidão triste porque era isso mesmo que ele provavelmente merecia. E dormiu.

O horroroso

E ele escrevia e escrevia como se escrever fosse seu modo de sentir esperança, e tão desesperadamente ele escrevia, ávido de esperança, porque nele tudo estava morto, não podia passar um minuto que fosse sem escrever, pois cada minuto era desesperança eterna e dor e choro, e para não chorar precisava escrever, mas às vezes escrevia mesmo chorando, molhando as palavras conforme avançava no papel. Ninguém tinha tanto choro quanto ele, porque não havia alívio para seu choro. A escrita não era alívio, era desespero. Desesperado procurava um rastro qualquer nem de força, mas de simpatia por si mesmo que fosse, desesperado não encontrava, porque nada, nada nele poderia ser salvo, tudo nele era monstruoso e feio e ordinário e quando o poeta lhe tentava convencer da grandeza ele só chorava mais e mais, até conseguia agradecer ao poeta, porque apreciava ser por ele simpatizado e como que um pouco amado, mas acima de tudo precisava se amar e isso ele não podia, não conseguia. Por si mesmo não havia uma única gota de amor, como se fosse todo ele não uma coisa que sente, mas a coisa que bloqueia e criminaliza o sentimento. Ele portanto não se identificava com, não se sentia, si mesmo, com seu eu que sente e pensa e escreve, ele se identificava com as repressões que sentiu, os Nãos que viveu e que ouviu e que obedeceu. E é claro que se odiava porque essas repressões são odiaveis e terríveis e são jaulas cruéis a que ninguém deveria ser submetido, muito menos uma criança como ele. Mas ele era sua própria jaula e se sentia não como o enjaulado, mas como as grades. Tudo que queria era poder chorar como a fera enjaulada, sentir a própria dor de ser enjaulado, mas nem isso ele tinha. Nem a solidão de escravo ele tinha, porque nem escravo ele se sentia. Ele se sentia o carrasco de si próprio como se fosse a sua própria mão que lhe chicoteasse as costas, como se ele fosse o mais imoral dos senhores, o monstro em si, o tenebroso, a sombra, ele não tinha luz ele era o peso e o teto e nada nele merecia carinho, tudo nele era em vez disso coisa ruim, endiabrada, invejosa, má, terrível e só. Escrevia para tentar fugir de si, para tentar alcançar a sua fera interior, enjaulada, para tentar dar-lhe voz e quem sabe — quem sabe por um segundo apenas — sentir-se o dono dessa voz! Dessa voz bonita que pelas palavras ele fazia sair, dava corpo. Mas não, seria sempre um estrangeiro em relação a essa voz de fera, no máximo lhe daria corpo através das palavras, sem nunca sentir em si mesmo a sua força como sua, mas sempre alheia, sempre segunda, nunca sua, nunca sua nunca sua. Suas eram as grades, os chicotes e as punições, ele era o seu próprio carrasco e se odiava e era incapaz de se amar, completamente incapaz, restando-lhe apenas o desespero de escrever e quem sabe escrevesse algo tão bonito que a beleza arrebatasse sua alma e ele sentisse um raio de sol no rosto e por um segundo se iluminasse e se sentisse merecedor do amor de deus, do amor de si mesmo. Mas a iluminação nunca veio e deus nunca o amou, e ele permaneceu inatingível pelo próprio amor que tinha dentro de si, quer dizer dentro da fera, que não era ele, porque ele não se sentia fera e não se sentia um com a fera. Escrevia sem parar, escrevia até os pulsos doerem e as pontas dos dedos calejarem, escrevia rápido e com pressa, porque nada era mais urgente do que sentir-se a si mesmo como pessoa, como um eu, e não conseguia e a cada frase se esforçava mais, vomitando as entranhas que encontrava na expectativa de um dia quem sabe se encontrar e se sentir fera, mas não se sentia. Chorava, chorava, chorava e escrevia. Não havia ser mais lindo do que ele no universo e no entanto ele chorava, porque não merecia e porque não era capaz de se amar. E chorava, não como consolado, mas como desesperado, entregue, sem esperança e sem nada. Sem alma, já totalmente do diabo, morto, barroco, dado, feio, amaldiçoado, maldito, terrivel. Ninguém o salvaria, ninguém o salvaria. Ele morreria afogado em sua tentativa de ser quem era, mas nunca seria, sempre arriscaria de longe, sempre tentaria canalizar seu eu, mas sempre fracassaria, sempre morreria na praia, incapaz de ser mar, incapaz de qualquer força, invejoso de todo mendigo e de todo preso, porque eles pelo menos sentiam-se si mesmos e ele não conseguia se sentir nada, apenas carrasco, apenas choro desesperado e horrível de quem se sente verdadeiramente mau e indigno e impuro e quem só os fogos infernais merece porque nada nada naquela alma se salva e a fera morreria com ele, impotente e inocente, tão bonita e tão ávida de dizer as coisas que tinha pensado, mas não poderia porque ela não tinha corpo e esse corpo que a enjaulava não a merecia e era melhor que explodisse e definhasse e se encerrasse ali todo o sofrimento. Que assim fosse porque qualquer morte é melhor do que isso, essa existência que não se conhece nem se reconhece, que é apenas a matadora da liberdade, o assassino, o carrasco. Morre de uma vez. Mas nem pra isso tinha coragem, nem pra isso nem pra nada.

Nosso espírito

Apenas duas coisas são sagradas no reino dos homens: a linguagem e o corpo. Ela, porque é o barco que nos leva para além, que sempre nos levou e continua a levar, apontando e apanhando o que nossos braços são curtos demais para alcançar, pequenos demais para envolver; ela é, assim, como que o nosso maior órgão, maior até do que os olhos (que enxergam até o horizonte) e do que as pernas (que a todo lugar nos levam), pois só na linguagem temos o infinito. Ele, porque é o palco onde tudo acontece, a panela de pressão de onde sairemos nós mesmos; tudo o que é e onde tudo se encerra, pois nada acontece fora do corpo e nada está para além dele; e principalmente porque é no corpo que sentimos — — outros corpos (repare que a linguagem, por enorme que seja, não atinge outras linguagens, mas apenas atinge outros corpos, pois somente corpos são atingíveis). É nesse binômio corpo–linguagem que nos localizamos – nós, poetas! Nós, poetas: os aradores da única religião que sobreviverá ao futuro, a única religião que jamais existiu. Apenas duas coisas são sagradas no reino dos homens: a linguagem e o corpo.

Capítulo 3 — Milagre no expresso

Foi então que tomado de coragem se levantou de seu assento, sorrindo com uma leveza de criança, embalado naquela indiferença à própria vergonha que subitamente o arrebatara, e prefaciou sua fala cuja quentura já sentia na barriga com a pergunta: "Senhoras e senhores, vocês se incomodariam se eu invadisse o silêncio desse trem para ler uns trechos deste livro?" e tinha de ser econômico e direto, pois falar para um grande público, aquelas dez ou doze pessoas naquele vagão, requer destreza discursiva tal que não se deve alongar as frases e disso ele sabia bem, mas em seu coração se justificava (silencioso por fora) "é que tem beleza demais aqui e nada me daria mais prazer do que dividir essas belezas com vocês, estranhos que abençoam meu caminho" e em seu olhar se notava aquela audácia de ator mirim, orgulhosíssimo de sua própria interpretação, sorrindo no palco da vida, e naquele vagão pelo menos uma jovem e um idoso foram capazes de se emocionar com aquele olhar e positivamente acolheram-no com a cabeça; o restante dos passageiros manteve-se em silêncio mas isso era tudo de que ele precisava: bastava que não protestassem que, sabia-o, daria a si mesmo a permissão para começar seu doce espetáculo e, sem tomar fôlego, logo começou:

 
"Não há rosas neste mundo que não anunciem com o seu cheiro a sua jornada, como se sua essência exalasse seu passado. Sim, meus caros, as rosas não cheiram todas igual, pois há rosas doces e amargas, sensíveis e violentas, rosas vermelhas e azuis, e na verdade não há duas sequer que cheirem o mesmo, porque o universo na sua infinita multiplicidade fez um pacto com Deus e criou a maior de suas invenções, que é a singularidade de todas as coisas, diferentes entre si como dois astros de duas galáxias enormes e distantes, mas Deus deu aos homens narizes por demenos sensíveis, de forma que se enganam os homens a todo tempo, vendo unidade e igualdade onde haveria um sem número de tons e nuances diferenciativas e distinguidoras. E tal como é com a rosa assim é também com todo o resto e também com o amor e também com o teu rosto. Porque sempre que se ama se ama diferente e único e quando eu te amo eu te amo de um jeito que nunca nada antes de mim havia amado nada: sou o primeiro e o último de mim mesmo e isso me dá a mais infinita das solidões mas também me embebeda de um privilégio único: que é o de ser o primeiro e o último a te amar da forma como eu te amo. E o teu rosto, assim como o meu amor, contém em si toda a história de como tu vieste até este momento, todo o teu devir passado e inclusive os germens de futuro que já te habitam a cara: pois como as rosas o cheiro do teu rosto é único e nunca houve verão em que te desabrochaste tanto quanto neste verão aqui e agora, e é por isso que eu te amo e dedico esse poema ao verão e a todas as criaturas que nele tomam parte, pois cada esquilo e árvore e folha e mendigo deste planeta e de todos os outros também fizeram parte desse verão, unidos que estão pela Criação e separados pela diferença e pela distância — cúmplices na solidão e apenas na solidão, porque a solidão deles toca a minha e sei que a minha solidão toca a tua e que só assim é possível amar e só assim eu te amo."
 
Leu em um fôlego só, andando por entre os assentos e gesticulando energicamente, como se contivesse dentro de si aquele ar adolescente e apaixonado que dera à luz aquela declaração de amor, como se fosse ele mesmo quem o escrevera e não um outro alemão, cujo nome ele em breve citaria, e como se todas as belezas ali declaradas morassem em seu peito e como que procurassem atingir o mundo através da projeção que lhes dava a sua voz. E um silêncio se instaurou como se todas as pessoas naquele vagão tivessem sido tocadas pelo sol da manhã e, conscientes do privilégio, permitissem-se inspirar e apenas inspirar aquele ar puro e áureo que subitamente lhes chegava às narinas, como se pela primeira vez respirassem ar puro e se entoxicassem com tamanha doçura e naturaleza, porque as pessoas não são feitas para a doçura e apenas em pequenos goles conseguem sorvê-la; e nem todos ali aguentaram, alguns desviaram o olhar e um dos homens mais velhos, que era viúvo, derramou uma lágrima pois se lembrara de sua mulher e do que sentira na juventude, e seus olhos comunicavam gratidão apesar da dor da saudade. E uma moça lhe disse então "obrigado" e tudo, tudo até ali, sentiu que se justificava, todas as dores e pesadelos e mazelas como que perdiam seu ardor e se tornavam apenas suave pimenta adocicada, enfeitando o mundo e lhe intensificando o sabor, sem contudo maculá-lo pela dor. E o garoto sentiu-se satisfeito consigo mesmo e pensara com o seu coração que aquele momento não se deveria esquecer, pois foi ali a primeira vez que sentiu coragem tão arrebatadora e fez o que todos deveriam fazer quando sentem coragem dentro de seus corações: protegeu a beleza do mundo e deu-lhe lugar onde pudesse medrar e tocar, e este lugar tinha sido hoje a sua voz naquele vagão — e Deus sorriu pois era para esse tipo de gesto que havia criado os homens e permitiu-se um trago de seu cigarro divino pois sabia que, se tivesse dado aos homens apenas um pouco mais de sensibilidade que fosse, nem um deles conseguiria se livrar da dor universal — mas os narizes insensíveis dos homens davam-lhes a chance de sorver a alegria sem com isso contaminar-se pela dor, e assim foi. E no seu sonho todos o aplaudiram e ele descansou em paz consigo mesmo.
 
 

3 de fevereiro de 2017

Prescrição para quem sofre de pequenez aguda

Chorar, xingar e escrever. Preferencialmente nessa ordem. 

Dicionários de si

Para o amor precisamos de um novo dicionário. Comecemos removendo o verbete merecimento:
s.m. Internalização da culpa e de seu oposto. 

2 de fevereiro de 2017

Das entranhas!

A poesia arranha a alma. Sim, meus caros, para ser poeta é preciso ter a alma arranhada. Têm certeza de que é isso o que desejam? Ora, de onde vocês achavam que vinha o sangue com que escrevemos?

27 de janeiro de 2017

Paciência, pero no mucho!

A depressão não é causa de não viver, mas antes sintoma de vida não vivida! Ah, perdoa a tolice do poeta: querem rugir e urgir, esses deprimidos, mas só conseguem mugir.

23 de janeiro de 2017

Prece tardia

Fazer-se é labuta diária. Anos, décadas!, passaste acumulando vermes e vícios dentro de ti — crês que em um súbito livro, um súbito amor, súbita dieta, recuperas-te assim impunemente? Teu sofrimento foi criado; criada também deve ser tua alegria. Construída, bloco a bloco, como tudo o mais. Engenheiros da alma somos nós! E sim, meu caro, teu edifício desmoronará e repetidas vezes cairás, como que de volta à estaca zero. Mas lembra-te de que nunca caímos no mesmo lugar do qual saltáramos, pois heraclitianos somos nós e rápido é o rio em que nos banhamos. Esquenta-te por dentro com tuas memórias e consola-te com as pequenas vitórias. Sê caridoso com tuas falhas de homem, posto que és homem e homens falham. Ama-te como às belas palavras és capaz de amar — transforma-te em palavra se necessário for! — usa e abusa da segunda pessoa pra falar de ti mesmo, como se fosses dois e não um, pois em realidade és dois mesmo, três até, infinitos eus és: Zeus és. Faz a alma cantar e nina-te como deverias ter sido ninado. Respeita o que de criança guardas em ti e brinca, sempre que possível, para que não padeças da tua seriedade, que é contagiosa e perigosa. Dá aos amigos a graça e enxerga neles beleza quando a visão deles se nublar: sê para eles o que para ti mesmo um dia serás (pai e professor, guia e exemplo, inspiração e consolo). Corre e pula, como cão ingênuo fosses, porque dos ingênuos é o reino de deus. Observa as árvores e as pessoas, encarna-te em ti mesmo como se a cada dia renascesses. Deseja teu corpo como teu corpo deseja outros corpos. Pensa, mesmo que demasiado, cuidando para não acumular vergonha, pois a cabeça é lugar difícil de aspirar sujeiras assim. Senta e descansa de vez em quando, mas sempre um pouco menos do que for preciso, pois urge viver e dói mais o tédio do que o cansaço. Escreve, tu que és íntimo da pena, porque quando escreves te aumentas e tu por tempo demais te fizeste pequeno. Dá-me a mão e chora, chora tudo o que quiseres, abre espaço para as lágrimas como fazem os súditos ao rei — e as degola quando forem tiranas, como fazem os súditos ao rei. Ri de ti mesmo quando acreditares em besteiras, porque é de besteiras que se vive, ora acreditando ora superando, e chacoalha-te sem nojo nem arrependimento daquilo que antes ridiculamente trajavas: pois ridículos todos somos e é apesar de sermos ridículos que somos grandes (tudo que é grande é um pouco ridículo e um pouco patético). Não te incomodes tanto com o que não consegues dizer, porque a mudez também tem seu tempo e seu porquê e é ao seu modo também bela. Sobretudo respira e deixa entrar o mundo em ti, sem medo, para que possas finalmente pertencer, sem contudo enrijecer. Queima e vive! Ama e chora. Dá e recebe. Amém.

22 de janeiro de 2017

Clara apologia

O motivo pelo qual tenho acordado de tão bom humor é que tenho sonhado. Coisa estranha aconteceu à minha amiga, que comigo experimentou a melatonina: teve pesadelos, horríveis pesadelos, e se arraivou de mim quando lhe contei que era esse um dos efeitos, e afinal motivos, da substância. Ocorre ser a melatonina, diferentemente de alguns remédios, não uma fuga mas o seu contrário: ajuda ela a não fugir dos sonhos (e, sim, também pesadelos), portanto, a não fugir de si. Com isso recebo ajuda para ir ao meu encontro. A melatonina é o meu óleo de coco.

Mulher ou poesia

Tão bela que ele se esqueceu do próprio cinismo.

21 de janeiro de 2017

Fala a alma de artista

Quase todos olham o mundo e o acham feio. Isso resulta de não o olharem como se fosse uma criação em movimento, mas uma criatura pronta. Esquecem que os deuses somos nós e a responsabilidade por criar beleza é nossa — apenas nossa. E nós não somos artistas impotentes. Nosso pincel é nosso olhar, e o mundo que vemos (isto é: que criamos) é belo. 

De primeira ordem

Há que se escrever coisas bonitas.

16 de janeiro de 2017

Duas galáxias conversam

"Sobretudo de mim mesmo protejo os outros. Do meu fogo basta que se queime um."

"Mas eu amo o teu fogo — quem não se queima não vive. Não confias na minha capacidade de sobreviver? Ora, achas-te tão maior que eu assim? Como poderei compartilhar contigo o que me dói, se nem a ti mesmo pareces aguentar?"

"Não nascemos para o fogo, querida. Poupo-te assim. Soframos menos."

"Claramente não entendes do sofrer. Vive e queima! — assim dita meu evangelho. Na vida não tenho medo senão de me acinzentar — nada que é vermelho me enfraquece. Acaso pensas que te amo as partes apagadas? Queima comigo, meu amor! É tudo que te peço. Do mundo faremos gloriosa fogueira."

"Tinha razão o sábio: diamante e carvão não se dão — pois embora os dois brilhem, só um sobrevive à combustão."

"Sinto muito. Vou."

"Eu mais ainda. Vai."

Gatunos na dor e no amor

As garras mais afiadas são retráteis. Duas lições há aí: primeira— mansidão é algo que se finge; segunda— arranhadores ferozes também acariciam.

13 de janeiro de 2017

Advinhar o mundo

Cartomantes do destino somos nós. Tecelões da realidade, costurando impressões — preguiçosamente curiosos somos nós, dos deuses roubando ~ aos homens e-levando. Poetas somos nós!, urubuzando os cientistas, apenas o suficiente para satisfazer-nos a alma. Filósofos somos nós, da barriga pensadores, ar negro expiramos conforme filtramos os brilhos — ex-cegos somos nós!, acavernados em nossa pequenez, de sombras gigantes os ventríloquos; em tudo bruxos, a tudo feitiços. Nossa incompreentude é nossa tolice favorita. Mas que seriam os grandes homens — sem nossa diversão?

Lição de a anos-luz

Não se preocupe com o brilho. Para ser estrela é preciso em primeiro lugar que exploda.

Caridoso com as próprias violências

Não sejamos duplamente maldosos: nós, que somos maus por natureza, devemos — em nome da bondade! — preservar nossa maldade. Amá-la! Com isso incentivamos a bondade nos bons, pois tudo que é fiel à sua natureza aumenta a esperança no mundo, mesmo quando pareça destrui-lo.
Melhor dizendo: mesmo quando o destrua.

Quando um mau censura a própria maldade, duas maldades foram cometidas. Fazer tanto o bem quanto o mal — sem censura! Essa é a nossa receita para um mundo que padece de insinceridade.
Melhor dizendo: essa é a nossa receita para um mundo que padece.

6 de janeiro de 2017

Os céus do espírito

Palavras são como nuvens: podem até ser belas, mas no geral obscurecem

11 de dezembro de 2016

Montanhistas da saúde

Nem todo romantismo adolescente se baseia em inverdades. Deve-se olhar com compaixão ao garoto que à oportunidade de convalescença prefere arraigar-se nos seus sofridos porém conhecidos pesadelos. Não é que ignore o que sofre ou deseje a dor que sente; tampouco se esquiva de admitir-se doente. É que das profundezas de fato nascem alguns belos versos e resplandecem certos brilhos (que sob luz mais forte não medrariam). Também os olhos e os músculos da face acostumam-se ao franzir constante mas delicado que a meia-luz obriga — há sabedoria nessa testa! há agudez nessas pupilas!. Mesmo que se ressinta (isto é: que se apaixone pelo seu sofrer), nenhum tolo nega sua potência, pois tudo o que vive --- tem potência ------- e mais ainda o que sobrevive! O medo do romântico tem sua razão de ser. Os prazeres de que fala, ele os sentiu sim, não lhos neguemos. Consertemo-lhe apenas a falsa crença de que a luz elimina o que se podia ver na escuridão. Não só nossas cavernas nos farão companhia por toda a vida, mas lembremos que temos pálpebras — o órgão do descanso e o órgão da humildade: para os humanos, ver é sempre uma escolha. O ar daqui de cima te fará bem, meu caro, e eu prometo que o que aí embaixo te inspirou se encontra não em volta de ti, mas no teu interior; não o perderás, porque está sempre contigo. Aqui em cima, o único risco que corres é o de tornar-te quem és.

De tempos em tempos

A alegria arrebata.

9 de dezembro de 2016

Para os torcicolos da alma

O contrário de rigidez é carinho.

23 de novembro de 2016

Brevidade na desrazão

Um pequeno jejum — como uma pequena loucura — nunca fez mal a um pensador. O risco que os religiosos correm é o de tomar asco da comida, isto é, de acreditarem em seu jejum.

Receita para ser filósofo

2. Caminhar.

Bobeira

Escrever sobre os acertos é um luxo. A maioria dos escritores só escreve quando erra.

Por onde voa Dionísio

Escrevemos bêbados o que deveríamos ter feito sóbrios.

Sem explicitações

Nada mais desnecessário do que conectar duas orações cujas bocas já se beijam. É importante que as frases respirem, para que transem.

22 de novembro de 2016

Pontes de palavras

Chega-se a lugares novos por meio de saltos. Para que esses lugares não se tornem ilhas de solidão, é sábio construir pontes. Elas permitem que retrilhemos os nossos caminhos — mesmo os mais difíceis! — ainda que estejamos cansados. Fica também muito mais fácil compartilhá-los. Meus textos são o melhor mapa de mim.

Para que nossos futuros nos herdem melhor

A escrita de si para si é uma auto-educação à distância. Nenhuma contradição aqui: de nós mesmos somos com frequência os mais distantes.

Paradoxo da pequenez

Nem toda convalescença é sinal de saúde.

As vítimas do silêncio

Alguns silêncios não se quebram nem sob tortura; isso é sabedoria popular. Difícil é saber quem é o torturado.

10 de outubro de 2016

O poeta alter-erótico

Pelos outros apenas na superfície: todos os túneis levam ao ego.

3 de outubro de 2016

Entrar e sair

Ao amor precede-se um mergulho e sucede-se um vômito.

Bem-aventurada simplificação

A saúde poética é feita de dois verbos: chacoalhar-se e rir-se.

Consolo para os que se sentem improdutivos

Mesmo o poeta que escreveu cinco mil poesias precisou de cinco mil dias para vivê-las — antes que as pudesse escrever.

Os pré-requisitos do prazer

Querendo dançar, criou a própria música.

Para a liberdade um treino

A criança protegida de seus próprios erros comete-os em demasia quando, adulta, desconstrange-se de suas antigas correntes. 

Escrever para se limpar

Poucas coisas são mais tristes, para o poeta, do que ver a sua energia criativa sendo drenada para mesquinharias miseráveis. Fazer o quê: um ralo entupido precisa de um jato forte de água.

A felicidade como armadilha

O dom da resiliência não foi distribuído a todos na Criação. Aqueles de quem os escudos do Não foram subtraídos precisam se precaver inclusive na alegria — sob pena de confundir o sentimento de grandeza com o de invencibilidade. A destemidez precisa ser acompanhada de auto-respeito — para que as armas da potência não mirem os próprios pés.

8 de agosto de 2016

Um idiota no deserto

Desesperado de sede, cuspiu pra cima e fechou os olhos. 

7 de agosto de 2016

As renúncias cobram juros

Exercitar a força não cansa; pelo contrário, revigora. Os cansados são sempre fracos. 

17 de julho de 2016

Uma criança

A conclusão óbvia ao se deparar com quem se sente atacado por uma crítica é que se trata de alguém que nunca foi alvo de uma auto-crítica.

12 de julho de 2016

A defensividade é um narcisismo

Meça a alma pela quantidade de defesas que a habitam. Quanto menos, maior.

29 de abril de 2016

Universalidade de cada pedacinho

Nem todos os textos são metáforas, mas todos são metonímias.

5 de abril de 2016

Mesmo os deuses oram

Há coisas que um escritor não consegue fazer. É aí que entram os amigos.

20 de março de 2016

Os que desmancham

Após uma discussão intensa com alguém que se ama, existe um momento de muita clareza que merece ser melhor estudado. Nele, as faculdades mentais se afiam e o turbilhão de emoções que antes nos envolvia dá lugar a uma desesperança quase-cínica. A desesperança sanitiza o pensamento, rompendo o funcionamento utilitarista típico, e obriga-nos a uma sinceridade desinteressada em qualquer coisa que não em si mesma. Nossos amores, afinal, crêem-se sinceros e, quando ameaçados, procurarão a sinceridade que lhes deu origem como se a própria existência deles dependesse disso — e depende. A sinceridade precede o amor. Quando se esgota as possibilidades de tratar os nossos objetos de interesse — um relacionamento, um amor, uma amizade, um emprego — como meros objetos, passa-se à análise do sujeito, isto é, de si próprio. Se houver coragem, os cálculos de risco-e-recompensa terão aí se desligado, sobrando em nós apenas o compromisso autêntico com a verdade. Já não se tratará de ganhar uma discussão ou tampouco de maquinar contra si uma narrativa perdoadora ou tranquilizante. Não se tem mais como objetivo livrar — nem a si nem ao outro — dos piores julgamentos, das piores valorações. Morrem os salvadores e os mártires. Fica a liberdade — de julgar(-se), de odiar(-se), de matar(-se). Desobrigado do orgulho e da vergonha, nasce um eu mais profundo, mais digno e mais certeiro. Pode haver raiva, ressentimento, medo e insegurança, mas uma vez nesse estágio de clareza esses sentimentos já não balançam nem perfuram. As frases ditas e ouvidas ecoam nas paredes cavernosas de nossa interioridade, adquirindo o peso devido ou sumindo-se na irrelevância. Defrontamo-nos com as chamadas "verdades duras" do que nos foi dito e avaliamos, com cada centésimo de nossa força mental, o quanto são relevantes, por quê, e o que faltou-se dizer. Reformulamos a imagem que temos de nós mesmos, a fim de incorporar as novas informações e relacioná-las às anteriores. Podem ter-nos dito, por exemplo, que havia frieza no nosso olhar e que isso denotava falta de respeito. A reformulação de si que eu estou descrevendo não consiste em adicionar ao currículo da vida — isto é, àquilo que se entrega aos outros quando deles se deseja algo — uma etiqueta cautelar: 'Frio e desrespeitoso'. Tal coisa seria uma narrativa aviltante e orgulhosa da própria ruindade. Mais provável é que a introspecção de que falo resulte na descoberta de que aqueles olhares moribundos significavam, não um desinteresse desrespeitoso, mas uma inveja coberta de vergonha que, como a criança, para não ser vista tapa os próprios olhos. A descoberta de um tal sentimento enterrado, juntamente dos motivos de seu enterramento, há de reconfigurar o evento referido e também outros, passados e futuros. Informado, agora, da própria inveja, abre-se o caminho possível para uma conversa entre dois adultos, em que se revele aquilo que antes não se podia revelar. Eu tinha inveja de ti, e preciso que me perdoes. Meus olhos foscos não eram senão de medo de ser descoberto. Não pense, tampouco, que uma investigação como essa resulte sempre em descoberta dolorosa e auto-combativa: igualmente comuns são as descobertas da própria inocência e até mesmo da própria força — além, é claro, da descoberta das falhas no outro, de suas insuficiências e de sua humanidade. Sim, as brigas de relacionamento são capazes de desencadear maratonas pensamentosas como essa e não é preciso dizer o quanto nesses momentos se aprende. Não conseguimos, porém, manter funcionamento de tão alta octanagem o tempo todo. Em geral, necessitamos de urgência e traumas. É tarefa do escritor propiciar reflexões como essa, reconfigurar os sujeitos que lêem, desaliviá-los de qualquer insinceridade. Devemos ser como as ex-namoradas: cruéis e indiferentes. E também como os pais: carinhosos e firmes. E como os amigos: presentes e alegres. Crescer inclui quantidades nada agradáveis de sofrimento. Responsabilizamo-nos não só por fazer crescer, mas também por incutir amor pelo crescimento. De nada adianta fazer um garoto crescer 10 anos em 1, se durante os próximos 20 ele ficar paralisado. Desesperança em demasia, afinal, paralisa e mata. Caminhemos, meus amigos. Escrevamos. Cresçamos. 

Apenas os destinos retilíneos são previsíveis

Nosso caminho é feito pelas curvas que escolhemos tomar, mas não podemos enxergar o que há além das curvas.

Perseverança

A quantidade de solidão de que precisamos é sempre um pouco maior do que a que cremos ser capazes de suportar. 

Conselho de escritor

É a coragem, e não o amor, que preencherá os vazios do teu coração.

5 de fevereiro de 2016

Escrever sem bússola!

Nada contra quem escreve mau. O problema sempre foi quem escreve bom.

Merecemos piada melhor

O cientista torna-se filósofo quando se cansa da verdade.

As três virtudes de uma faca

O brilho, a ponta e o fio.

Após o crepúsculo

O vale do cinismo é o mais tenebroso e escuro dos obstáculos separando os homens de Deus.

O poeta e sua prece

À tarde chorar, para à noite escrever.

Reino dos maus

Ser bom ficará mais e mais difícil, pois a bondade foi inventada para servir de teste domesticador. Termômetros da justiça, só os divinos! Na terra, são os homens contra os sentimentos.

Os infernos aonde a coragem nos leva

Desconfie de quem escreve com a consciência tranqüila.

Afetos no deserto

Quando se atravessa uma tempestade de areia, é normal lacrimejar.

28 de dezembro de 2015

Os homens podem se consolar com o fato de não serem fracos como eu

10 de dezembro de 2015

5 de dezembro de 2015

estágios iniciais do exorcismo

mora um suicida em mim
eu queria só
que ele se matasse
e me deixasse viver
em paz

30 de novembro de 2015

A metáfora de Sócrates

Em tempos de repressão, pouquíssimos são os sentimentos que assumem a sua primariedade. A tristeza, para dar o exemplo, não "apenas vem" ou "sai", como deseja o poeta otimista, mas ela precisa efetivamente ser movida para fora, incentivada, aceita, fomentada, cultivada. Os sentimentos são produzidos, mesmo aqueles que já nos habitam: senti-los envolve um processo. O chefe do jornal dos nossos sentimentos em cada um tem diferentes sensibilidades editoriais e de diferentes sentimentos permite a vazão, a expressão — não raro seguindo uma agenda, política como tudo o mais, igualzinho aos jornalecos que se vê por aí. Há muito trabalho a fazer se quisermos ser como cientistas ou até mesmo como artistas — nesse ramo de editoria subjetiva. Nossos amigos precisam de nós e de nossas mãos para recebê-los: eles não nos preexistem, afinal: nós que os criamos! A maior caridade é receber a tristeza do outro, agraciá-la com nossa atenção e corajosamente dar-lhe o espaço que ela merece: e não aquele que nossos editores acham que ela merece. Editores são bichos-papões em todo lugar. Resistamos. Os homens, para nascer, precisam ser paridos. Também assim é a liberdade de sentir. Somos deuses, com o poder de criar, nos outros e em nós mesmos, mundos que o mundo nunca viu antes.

24 de novembro de 2015

Coração

O coração perfurado bombeou a última vitalidade
Morreu de tédio quarenta anos depois
Não conseguia abrir os olhos porque os olhos da alma quem abre é o coração
Mas coração perfurado não tem alma e morre

21 de novembro de 2015

Saúde como comunicação

O contrário de depressão é contato.

9 de novembro de 2015

Ambiguidade existencial

A ânsia de viver de um escritor produz poderosos consolos — muitas vezes contra a vontade dele!

7 de novembro de 2015

Moral do Anarquista

Entre duas ditaduras · não se escolhe.

10 de outubro de 2015

Canção de vida e morte

Nós, espíritos primaverais, temos muito o que aprender com nossas amigas flores. Não tanto a abrir, pois a isso somos todos naturalmente inclinados, mas sobretudo a fechar — com leve e graciosa indiferença, não por não ser terrível o destino de quem nunca mais abre (é), mas pela calma de saber que abrir não é uma escolha. Nossa maior neurose não é a de querer pôr fim aos sofrimentos, mas a de querer dar início às potências. Quanto mais romântico, nesse sentido, tanto mais doente.

Não somos nós os autores de nossos prazeres. Nossas mais belas composições são menos atos de canalização de força do que de permeabilização ao que nos é externo. Aqui, como em todo lugar, assombra-nos o espectro do indivíduo. Pura ilusão. Na natureza não há indivíduos; no máximo, há contornos.

Querer menos, desejar mais. Diminuir o atrito interno. Hibernar com devoção, entregar-se à incerteza.

Quantos conselhos em linguagem de esfinge não deixaremos para o futuro? De nós esperamos apenas que cresçamos. As maiores notas de suicídio foram as que nossos eus do passado deixaram para nós — nós, herdeiros; eles, mártires. Continuamente morremos ao parir a nós mesmos. A cada dia um novo sol nos espera. Muitas auroras ainda estão por vir, e serão nossas alegrias que as desfrutarão, sentadas na praia ou no topo da montanha. Nossas tristezas e nosso cansaço pertencem ao eclipse vindouro: cairão, enfim, em desgosto. 

Morreremos ainda cem mil vezes, e tantas vezes mais renasceremos. A fênix que em nós faz lar brilha sempre mais forte, e a cada morte se incandesce ainda mais. O que não mata, fortalece? Precisamente a morte — a nossa morte! — torna-nos mais fortes, torna-nos quem somos. Essa dualidade de si — de sermos ao mesmo tempo filhos e pais de nós mesmos, ao mesmo tempo fetos nascituros e idosos suicidas — explica a variância estilística na prosa e o diálogo interno na filosofia. Somos dois. Um a morrer, outro a nascer.

Com que caneta escreveremos o futuro? Com que braços ninaremos nossas crianças? Com quantas poesias se ganha uma guerra?

Temos muito o que aprender com nossas amigas flores.

3 de outubro de 2015

A mais potente fé

A razão é o maior mito que a humanidade já inventou.

1 de outubro de 2015

Por amor ao mundo

De todas as artes o teatro é a mais dada ao choro. Nele a solidão é impossível, pois mesmo o espectador solitário se confronta com a carne-e-osso no palco à frente. A poesia, ao contrário, permite e até encoraja a solidão, e por isso exige uma música interna adequada, um silêncio mental cavernoso, capaz de ecoar as rimas e de dar profundidade aos sons. O teatro não. No teatro, a caverna se impõe de fora pra dentro, destrói os barulhos internos, impera autoritária sobre qualquer que seja o concerto dos órgãos, rouba-lhes as batidas ruidosas para em seu lugar colocar gloriosas cordas de harpa — com as quais os anjos-atriz produzirão celestial melodia. 

Assim foi meu encontro hoje com Hannah. Um confronto lacrimejoso, entristecido; sobretudo desentorpecido. Não havia dorflex que me impedisse de, olhando-a nos olhos, sentir-lhe a companhia. Ela, mulher, amante, pensadora, atriz, judia, filósofa, musa, singela. Atacava-me com as palavras, furando minha tristeza, alimentando-me de humanidade. Nunca fui tão judeu quanto defronte dela. Tornou-me homem ela, pegou-me pelo braço e me ensinou a coragem que dormia em mim, sempre dormiu. Não há monstros nos outros, ela diz, em franca oposição aos corações de todos em sua volta. Nossos monstros são nossas mediocridades. Nossas banalidades, nossas fraquezas. Um grito de vida e de esperança procurando —não: exigindo! — grandeza. Nossa grandeza. 

Com a pequenez da minha hombridade judia contrastava a grandiosidade da estória do meu povo. Não, não o meu povo judeu, que nunca me pertenceu nem me deixou pertencer. O povo-verdade, povo ensimesmado, povo vivo. Sorriso de criança. De amor e de esperança a terra se adensa. Nosso sofrimento é nosso adubo. Nossas artes, nossas folhas. Por que o teatro faz tanto chorar? Porque, embora não sejamos todos poetas nem músicos, somos todos atores no palco da vida. E a amizade de que tanto carecemos não é senão sorriso de atriz. Ela, que chora com o teu choro, te ama como às estrelas os gregos. Fazer teatro é fazer do próprio corpo um grande ombro no qual os homens chorem. O teatro é uma mulher! Seu nome é Hannah e a ela não podemos senão amar.

Arquitetura do afeto

De boas memórias os lugares se tornam confortáveis.

29 de setembro de 2015

A fraqueza dos homens

O que nos aflige no sexo não é o sexo, mas a sombra do amor.

28 de setembro de 2015

Amor-poema em língua estrangeira

Às vezes a beleza de um amor não está nos significados das palavras, mas nos sons que suas rimas produzem. Nesses casos, é comum que o poema seja tanto mais belo quanto menos se o compreende.

Porque, se parardes pra pensar, sois

Amai como se fôsseis fogo: com cor, brilho e barulho!

Sonecas do espírito

Que o descanso te cure das impotências —— e vice-versa!

As marcas nas nossas paredes

É um fato inconveniente que nossas opiniões, em sua maioria, sejam formadas em grupo. Nossa época carece de histórias opiniantes mais íntimas, e portanto mais individuais, para fazer frente a esse indecente mimetismo. Teríamos muito a ganhar com recorrentes décadas sabáticas na caverna — só assim poderão nossas pinturas rupestres ganhar a vermelhidão profunda que caracteriza os conhecimentos de sangue. Até lá, nossa ciência permanecerá neandertal.

Na dor, mas não pela dor

Algumas potências se escondem em arbustos espinhosos. Não devemos, por causa disso, amar os espinhos.

Duas paixões do encontro

Às vezes encontramos na do outro ecos da nossa própria voz. Disso pode resultar encanto soberano ou desprezo asqueroso. Não espanta, então, que o artista relate alegrar-se. E o burocrata, ofender-se.

Amigo metereólogo

Na vida dos outros, há vezes em que somos brisa. Noutras, vendaval.

Parindo adultos

Nem todo leão esconde atrás de si uma criança. A nós, cirurgiões da alma, cabe abrir-lhes a barriga e descobrir. Não à toa nos pagam tanto: o risco é alto, mas, quando bem sucedida a operação, o paciente sai outra pessoa.

Educação religiosa

É sempre melhor dialogar com si mesmo do que recriminar-se. Somos, afinal, nossos próprios filhos.

Em adição às potências anteriores, não substituição

No reino do não, aprende-se o sim almejando liberdade — evitemos novas ditaduras, de onde quer que venham. 

Novos mundos exigem novas defesas

Quem foi criado na privação precisa ter muito cuidado com a abundância. Falta-lhes a melanina com que se filtra as alegrias solares —; entre os albinos de afeto, qualquer carinho pode se tornar queimadura.

18 de setembro de 2015

Ofender-se é humano

Nada é ofensivo aos olhos de Deus.

29 de julho de 2015

Sofrimentos são hiatos vacinantes

Mais raro que uma boa solidão — só uma boa companhia.

13 de julho de 2015

Engenheiros-andarilhos

Criar pontes — e atravessá-las.

12 de julho de 2015

O princípio da educação

Tomar decisões corretas não basta. É preciso criar sistemas que tomem decisões cada vez mais corretas com o tempo.