29 de janeiro de 2013
Por um bom uso dos imperativos
23 de janeiro de 2013
O poder das inferências
“Sou contra cotas raciais, porque não acredito que as pessoas de outras raças são inferiores. Sou a favor apenas de cotas sociais.”
22 de janeiro de 2013
Nós, os desrespeitadores
Este mundo nunca testemunhou um ato de desrespeito. Apenas aconteceu de respeitarmos em maior medida algo diferente. Somos, afinal, criaturas do respeito! Todo desrespeito aos pais - incluindo Deus - é um respeito maior a si mesmo. O desrespeito a uma ordem é um respeito a uma ordem maior. Apenas isso podemos fazer: disso não podemos fugir. E é assim, meus amigos, que devemos lidar com nossos sentimentos e os de nossos companheiros: se eu alguma vez te desrespeitei, foi apenas por um respeito maior a ti.
21 de janeiro de 2013
That awkward moment when…
A sua versão adolescente ao pôr do sol têm mais views do que o clipe oficial.
20 de janeiro de 2013
18 de janeiro de 2013
Não à “reciprocidade”
Desde o início, ele queria que ela fizesse X por ele. Não tinha, no entanto, coragem pra mandar nela (como queria). Então, ele foi lá e fez X por ela. Ela, por ser uma boa moça, se sentiu na obrigação de retribuir o favor; foi lá e fez X por ele.
17 de janeiro de 2013
15 de janeiro de 2013
O objetivo nunca é não sentir
Lá se vai o idiota, tentando não sentir frio. Sabem o que faz? Ele tenta controlar o tremelicar dos dentes!
Nossos filhos gritarão em coro
O que a gente faz para se livrar desse mal estar? O mesmo que uma ave de penas impermeáveis faz para se livrar da água: chacoalha-se!
Meus amigos doentes
A Saúde é uma donzela esbelta, voluptuosa, independente e poderosa. Se você é apaixonado por ela – e faz bem em sê-lo! –, então você deve flertar com ela, cortejá-la, conquistá-la. Deve tornar-se tão atraente que ela não tenha outra escolha a não ser deitar em seus braços.
Mas, se você age como um mendigo, esmolas é o que receberá.
14 de janeiro de 2013
Ou seja
Os sentimentos que temos em relação às ações dos outros são, de alguma maneira, menos intensos que os sentimentos que temos em relação aos sentimentos dos outros. Isso se dá, porque as ações podem contradizer os sentimentos (por coação, insanidade, covardia ou confusão), mas os sentimentos não podem contradizer a si mesmos.
Será?
13 de janeiro de 2013
12 de janeiro de 2013
Saber distingüir os inimigos
11 de janeiro de 2013
A crença nos leitores
Para quem escrevemos?
Nas noites frias, foi a crença nos bons leitores que nos manteve aquecidos, a ti e a mim, quando nem em nós mesmos podíamos confiar. Os nossos leitores, no entanto, por mais que sejam inventados, serão sempre leais. E sempre nos conduzirão de volta. De volta pra onde? De volta pra nós.
Estarei te esperando, quando voltares. Porque sou teu eterno leitor. Fica bem.
9 de janeiro de 2013
Pela legitimação dos vícios
8 de janeiro de 2013
Embriagar-se na medida certa
7 de janeiro de 2013
Desejo não é uma troca
“Se os homens conhecessem o valor da gentileza, não haveria tantos encalhados (sic) por aí”
Leve esse pensamento a sério, e você se tornará uma puta. Uma puta paga com moedas de gentileza, mas uma puta ainda assim.
Dos mais agradáveis paradoxos
3 de janeiro de 2013
Profundos demais
Todo alpinista retorna à planície. Também nós, escavadores da humanidade, precisamos fazer o mesmo, e voltar periodicamente à superfície. Não há vergonha em admitir ser sufocante o ar aqui embaixo. Lembre-se que Zaratustra não tinha valor nenhum até descer de sua caverna.
As origens pantanosas das virtudes
Nada mais fácil do que manter-se casto em uma cela individual.
Nada mais fácil do que manter-se profundo em um buraco sem escada.
Os patéticos e a sensibilidade
O mais assombroso e desesperado grito de dor de um homem é apenas um teatro ridículo para o surdo.
29 de dezembro de 2012
Enganando os paralíticos
Às vezes, o melhor que podemos fazer, enquanto mestres, é errar. Freqüentemente, a frustração deles ao nos perceber imperfeitos é tanta que não terão outra opção a não ser tentar nos corrigir – isto é, nos superar. Sem perceber, estarão superando a si mesmos.
28 de dezembro de 2012
Escrita sem tese
Eu sou viciado em teses. É difícil me conceber lendo um texto sem que, nessa leitura, eu procure decifrar ou extrair a afirmação de uma idéia, de um modelo, de um estilo. Nessa madrugada, eu tentei imaginar um texto sem tese.
Primeiro, veio-me a poesia: não seriam os bons poemas --- textos sem tese? “E não pode ser esse o motivo da tamanha dificuldade que você tem de ler poesia?” Mas eu luto contra essa idéia: acho que mesmo nos poemas, e talvez especialmente lá, há teses. Nossos poetas têm uma tarefa grande demais, são responsáveis demais, para viver – para escrever – sem com isso afirmar, defender, e proteger certos modos de viver, de ler, de pensar, de sentir. Os próprios pré-requisitos da poesia precisam ser defendidos – assim como todo texto em prosa ensina os nossos estudantes a ler melhor – também o silêncio precisa ser defendido pelos poetas, também o ritmo, também a sutileza. Todo poeta diz, com seu poema, que é bom ler poesia. Que é útil, que há um porquê. (Todo? Mesmo? Como saber se não é você, Stefan, quem projeta nesses poemas suas teses?)
Em seguida, veio-me o sexo. Decerto, pensava, as pessoas transam por transar, e nada mais. Mas também isso é mentiroso. Quantos não são culpados de usar o sexo como argumento para o amor? Em outras palavras, quantos não pretendem, nas suas noites em seus colchões, provar – ao companheiro, a si mesmos – a tese de que amam? Muitos casais o fazem mutuamente, perdoando um ao outro. Alguns, um pouco mais perversos, dirão que existe inclusive uma correlação entre dar-se no sexo e amar. E passam a se dar, com uma intensidade forçada e uma artificialidade explícita (e triste), não porque querem, não por instinto, não por desespero – mas por amor! Aliás: não por amor! mas para provar o amor. Um sexo-argumento. Um amor-tese.
E vocês entendem como isso soa pejorativo? Como parece errado? Vocês percebem meu desejo de acabar com as teses? De chegar lá onde elas não sejam necessárias? Onde elas não sejam possíveis? Foi nessa madrugada que eu imaginei um texto sem tese. Logo depois de atribuir, à própria madrugada, uma tese própria: eu disse dela “que possui um valor anti-civilizatório”, pois “resgata um silêncio ingênuo mesmo no meio do caos urbano de uma metrópole”. Será possível escrever o silêncio – não sobre ele, não a favor dele, mas – ele mesmo? Haverá miserável tão miserável que sequer legitime sua miséria? Poeta tão poeta que não use seus versos para uma idéia, mas que seja por eles usado? Uma transa tão desesperada, tão profundamente animal, tão expansivamente ensimesmada, que não sobre espaço para as teses (nem mesmo para o amor)?
Tão livre que sequer a liberdade precise ser por mim afirmada?
Tem que haver. O universo não faria sentido, se não fosse assim. E a resposta, como você mesmo percebe e sugere a todo o tempo, não está nas coisas, mas naquele que as percebe. Você vê? Que esse texto nada mais faz do que encobrir um sentimento profundamente sem tese? Que o seu desejo de escrevê-lo é um desejo de enfraquecer essa parte da sua cabecinha que insiste em pôr nas coisas teses? Que, por detrás dela, por trás da sua dor de cabeça!, há como que vida em seu estado puro? Algo que tremelica, esquenta e pulsa, como que querendo sair? Talvez hoje, nessa madrugada fria, saia em forma de lágrimas (mas não seriam lágrimas tristes: até porque isso seriam lágrimas-argumento para provar uma tristeza-tese: “choro porque estou triste”, “veja como estou triste: estou até chorando!”), talvez saia em forma de um texto quase perfeito. Talvez um sorriso, ou um sonho, ou sabe-se lá de que outras formas pode-se viver (poesia? transa?). Mas que saia.
Que saia.
26 de dezembro de 2012
Mais animal
Eu não suporto as tuas poesias elevadas e certinhas, em que você vai lá “brincar com as palavras” e vai torturando elas até elas ficarem dóceis e perder toda a força. É isso: as suas poesias não têm força – ficam falando e falando do céu, do mar, das nuvens e das estrelas, dessa beleza escrota e maltrapilha com a qual você flerta, porque é incapaz de encontrar beleza aqui no chão e no teu próprio corpo. Com um corpo imundo desses, de fato, eu entendo a tua dificuldade: também eu o escavei e nada encontrei. Entre as tuas pernas, nenhuma abertura: lisa e brilhante como uma boneca americana, sem passagem, sem caminho. Pra chegar até você, como faz? É por cima? Através desses céus que você pinta com as tuas palavras estéreis e ingênuas? Você quer o quê? Que um cavaleiro das nuvens descenda dos reinos divinos e te estenda a mão, amando-te assim à uma distância segura, lá no alto? Ah, por favor! Como você faz amor? Porque a impressão que eu tenho é que você é incapaz disso; você já ficou nua? Porque, em todas essas vezes que você se desacobertou, parecia que tinham mais e mais camadas de palavras e sentimentos fraquinhos e debilitados com os quais você se esconde, profundamente, muito profundamente se esconde. Cadê tua nudez, cadê? Como você vai fazer amor, assim? “Pelas palavras”? Mas, pelos céus! Amor a gente faz com caralho e boceta! Arranca-te desse céu que não te pertence – arranha-te, morde-te, machuca-te, vive, ama. Porra! Dor de cabeça escrota.
23 de dezembro de 2012
Escolher escolher
Qual sofre mais? O que tem que escolher um dentre dois desastres, inexoravelmente terríveis?, ou aquele outro, bem mais raro, que tem que escolher uma dentre duas maravilhas?
O que acontece quando não tomar a outra opção – qualquer seja a que se tenha tomado - é o maior erro de sua vida?
22 de dezembro de 2012
Com carinho
É como se uma mão abrisse o seu peito, mas, em vez de doer, fosse como uma massagem no espírito. E aí, aos pouquinhos, você vai todo se abrindo, quentinho, confortável – nessa hora pode ser que escorra uma lágrima, depende –, e aí você derrete – não de calor, como aqui no Rio –, mas de ternura, você se liquefaz, literalmente torna-se menos sólido, e começa a, verdadeiramente, ocupar todo o espaço do seu corpo (como um líquido a seu recipiente), tornando-se estranhamente cônscio do limitado espaço que você ocupa no mundo; estranho, porque, ao mesmo tempo, você se sente ligado, por sangue ou raiz, àquelas estrelas no céu e àqueles beijos na tv, e as canções fazem especial sentido, viram puro prazer, e essas carícias todas tornam-se gradativamente insuportáveis até que, desistente, você suspira, e é como se suspirassem com você todos os animais e todos os insetos e todas as cores, porque você suspirou o mundo inteiro naquele suspiro, e aí você goza, e isso, você sente vontade de exclamar, isso é a felicidade, isso é um orgasmo.
O maior de todos os tédios
“Eu não compreendo… Digamos, então, que eu faça como você diz. Que eu guarde para mim o direito de tratar a vida com escárnio, que eu ria das ilusões de grandeza dos homens, que eu me esforce por enxergar as escolhas do cotidiano, que eu me torne meu próprio senhor – não por escravizar uma parte de mim, mas precisamente por alforriar aquela que sempre se manteve enjaulada –, que eu me torne mais forte e que eu também busque fortalecer aos outros, que eu repare nas minhas egocentrias e passe a brincar com elas, que eu borre a fronteira entre o que é espetáculo e o que é vida, que eu me permita divertir com a minha pequenez, que eu descanse muito, que eu morda e arranhe e espanque, que eu me torne mais livre, que eu me torne mais homem. O que há de ocorrer então? Tendo que fim em vista você propõe todas essas coisas? O que há de sobrar do homem que o seguir? Que fará ele quando chegar ao topo dessa montanha?”
“Meu caro, é preciso dizer que uma parte de mim é absolutamente solidária ao seu questionamento, e eu preciso, sim, elogiar a sua imaginação, que a tantos nesse mundo falta e cuja ausência tanto impede a capacidade de pensar. Mas seria muito mais certeiro eu admitir, não a minha simpatia pela sua pergunta, mas o meu desapreço por ela – porque, de fato, pouco me importam os fins. Apraz-me infinitamente mais estudar os meios e os modos – o estilo! Creio termos sido todos mal educados na nossa estima pelos fins, mas isso é papo para depois. Farei, agora, o possível para responder-lhe o mais na sua língua possível. De outro modo, afinal, seria contraditório.
Quando me esforço por imaginar esse homem a que nos referimos, quando me esforço por imaginar os fins desse homem, pouco encontro. Consigo imaginá-lo, por exemplo, num descanso crescentemente intenso, um homem cujas rugas lentamente tomam conta da cara, o seu corpo - já completamente doado à vida - lenta mas ferozmente se tornando pó. São decerto sombrias as imagens que me aparecem! Mas não faz sentido que um homem que absorva tanta luz do mundo não se torne, com isso, um pouco mais escuro? Pois, se me esforço um pouco mais a imaginar o fim desse homem, logo vejo que não é feito de sombras. Esse homem, que por tanto tempo aprendeu a deixar entrar luz em si, há de encontrar uma forma suficientemente adequada para fazê-la sair! Todos os grandes homens se tornam educadores da humanidade! A sua finalidade é externa: ele escreverá um livro, ou comporá alguns poemas, ou iniciará uma passeata – ele irá terminar de se doar. E, se ainda assim ele se entedia, se ainda assim ele consegue absorver muito mais luz do que consegue dar conta de refletir, ah meu amigo!, aí sim esse homem terá a maior chance de sua vida, sua maior provação; lá, onde todas as tarefas são insuficientes, onde não há trabalho grandioso o suficiente para preenchê-lo, quando a natureza efetivamente lhe prega uma peça e como que diz: – Aquilo que eu lhe dei antes como hercúleo dever era meramente um preâmbulo ao que vem pela frente! Aí, meu caro amigo, esse homem se tornará pai.”
Tesão intelectual
Eu vou te penetrar com o mesmo vigor com que escrevo meus melhores textos.
18 de dezembro de 2012
16 de dezembro de 2012
Convite à experiência
Os perks do eremita
15 de dezembro de 2012
nome de banda: Os Epistemólogos
A racionalidade é algo que aplicamos ao mundo a posteriori.
(E isso é tarefa importante, mas cuidadosa - a ser feita com esmero de poeta!)
O único instrumento que possuímos para tatear o mundo é a intuição.
14 de dezembro de 2012
12 de dezembro de 2012
Os objetos que nossa sombra obscurece
Contra os neutros!
“O estilo obscurece”, dizem os bandeirantes da objetividade e da aridez – os mesmos que, há não muitos anos, pelos mesmos motivos expulsaram os poetas da cidade. Ora! A sabedoria está em perceber que também a recusa ao estilo - também a vontade de não o ter – é um estilo. Péssimo, mas ainda assim um estilo.
10 de dezembro de 2012
Primeiro o silêncio
É um reflexo da liberdade – e não uma causa! – a capacidade de lutar pelos próprios direitos.
28 de novembro de 2012
“Não é como se eu estivesse apontando uma arma à cabeça dele”
Não, histérica, definitivamente não é. Mas, por um defeito de formação, ele acha que o teu amor por ele está sujeito ao teu bom humor e à subserviência a ti, o que significa que, sim, ele irá te obedecer, ainda que não estejas lhe apontando uma arma à cabeça. É tua responsabilidade, e de todos nós, apontar o ridículo dessa situação.
Agir sobre as causas
Sim, claro, você pode escovar os dentes para melhorar o seu hálito. Mas seria bem melhor se você simplesmente comesse coisas menos fedidas.
22 de novembro de 2012
Da evidente impossibilidade da infelicidade
O quê?! Você está tentando me dizer que, por causa dessa quantidade abismante de choro que cabe nos teus pulmões, o mundo é infeliz? Você me mostra os arranhões do mundo na tua perna e espera que eu olhe compassivo e apassivado – espera que eu concorde com isso?! Que eu lhe diga, consoante a seu choro, que sim, o mundo é triste, e que nada há a fazer a esse respeito?
Ou ainda, você, que diz, elogioso de si mesmo, e com uma arrogância ímpar: não, não é dos meus choros que tiro essa conclusão, não, é dos choros das milhares de crianças, abelhas e formigas que, incapazes, vítimas do destino terrível que lhes aflige – é de uma certa injustiça universal – que eu concluo ser o mundo o lugar natural da infelicidade!
Ora, seus moleques de espírito! como ousam?! Como ousam?! Pois devem ter a memória deveras curta – ou quiçá deveras longa, deveras perfeccionizadora! - para se sentirem capazes de tamanha cegueira. É impossível provar a infelicidade. Impossível, eu disse, impossível! Enquanto ainda houver respiração, enquanto ainda houver ânsia, enquanto ainda houver cartas de amor e filmes de comédia, é preciso decretar, do mais profundo poço das nossas pensantes almas, que a felicidade está aí. E ela continuará a pulsar, forte, e viva, e contaminará de vergonha e culpa aqueles que vergonhosamente incutiram no mundo a sua tristeza – que declararam-no um injusto, que fizeram dele mau. Ah, essa guerra está longe de terminar, mas o vencedor já se anuncia. Só há um vencedor possível, porque a felicidade está aí e nunca nos deixou. Que a tua torturada mente não possa dizer o contrário, não enquanto um de nós viver, não enquanto um de nós escrever, não enquanto um de nós dançar! O universo é nossa testemunha e vocês todos sucumbirão. Vocês todos declararão com as tuas gargantas cheias de lágrimas, intoxicadas e travadas, que a felicidade está aí e que o mundo não pode ser outra coisa que não belo.
18 de novembro de 2012
Prazer.
Levantei-me de madrugada, pus minha melhor camisa, fiz a barba com o esmero de um adolescente apaixonado, encontrei meu disco de Bach, coloquei-o para tocar, sentei, e fiquei ali, chorando até que o sol raiasse, com o prazer de dez mil sóis que brilham depois de bilhões de anos apagados, nunca fui tão homem, choro mais poético que as palavras, que o sorriso que o amanhã promete possa contagiar aos outros, como o canto dos pássaros, fim.
15 de novembro de 2012
Ciumento
A principal característica do ciúme não é o sentimento de posse nem a projeção das próprias carências e inseguranças sobre o outro, como várias vezes se supõe, mas uma súbita incapacidade de ser empático aos prazeres do outro.
13 de novembro de 2012
Levando sua moral a sério
Parece-me claro que os únicos capazes de continuar propagando esse tipo de moralidade são aqueles menos acostumados a olhar os outros – aqueles que soltam alívios de conforto narcisista ao se deparar com um imperativo desses, que diz: “Não é preciso enxergar os outros, muito menos se esforçar para conhecê-los: basta olhar para si, e lá a verdade encontrará”.
A raiva que sinto dessas moralidades grossas que se espalham pelo vento só não é maior que a minha tristeza, ao notar que são precisamente os que as espalham os mais incapazes e menos dispostos de conversar a respeito: buscam conforto e salvação, esses ateuzinhos de merda, não mais em um Deus, é verdade, mas em algo muito mais perverso - nos seus próprios demônios.
4 de novembro de 2012
Não se submeter
18 de outubro de 2012
15 de outubro de 2012
3 de outubro de 2012
Não são opostos.
É com uma felicidade e uma vontade de viver incandescentes que pelo amigo morto chora o veterano de guerra.
4 de agosto de 2012
10 de julho de 2012
A pior herança do Cristianismo
29 de junho de 2012
O professor como vacinador
15 de junho de 2012
Argumentando que nem gente
Eu sou contra os ônibus de Niterói.
E não importa o quanto você grite, isso não significa que eu quero que os ônibus de Niterói desapareceram. Aliás, você tem que ser burro, pra achar que essa é a única opção.
Agora vamos brincar:
- Eu sou contra os EUA.
- Eu sou contra o Brasil.
- Eu sou contra o casamento.
- Eu sou contra o cristianismo.
- Eu sou contra a democracia.
- Eu sou contra o estado de Israel.
- Eu sou contra a propriedade privada.
- Eu sou contra a violência.
- Eu sou contra a filosofia.
- Eu sou contra pessoas que não sabem argumentar.
- Eu sou contra o capitalismo.
- Eu sou contra você.
9 de maio de 2012
1 de março de 2012
1 de fevereiro de 2012
O mundo é um espetáculo
26 de janeiro de 2012
Instrumento errado.
Era um músico!
23 de janeiro de 2012
22 de janeiro de 2012
21 de janeiro de 2012
Pequenas e intransigentes intuições
Se você tem medo delas, tem medo de pensar.
13 de dezembro de 2011
24 de outubro de 2011
A rosa também tem espinhos.
15 de outubro de 2011
3 de outubro de 2011
Pequena ironia
Não entendo por que as pessoas buscam tão avidamente as causas das coisas. Como se da pistola o mais importante fosse o gatilho.
24 de setembro de 2011
(2) Descoberta tardia
A distinção entre forma e conteúdo é quase tão traiçoeira, para a literatura, quanto é aquela entre mente e corpo, para a medicina.
18 de agosto de 2011
24 de julho de 2011
Amor não é um sentimento.
27 de junho de 2011
(1) Descoberta tardia
6 de maio de 2011
“Argumentação”
1. Fazer cara feia
2. Acusar de ter causado sofrimento
3. Anunciar motivos para a impossibilidade de prosseguir a discussão
14 de abril de 2011
Pequena sabedoria moral
6 de abril de 2011
Por que não sou, como tu, cartesiano
ou
Por que não me aflige ter por meu isso a que chamas preconceito
Tu me dizes:
“Ouve-me, pois ao te recusares a ouvir estás sabidamente sendo intolerante e preconceituoso: tens de me ouvir para saberes o que quero dizer e como raciocino para, só então, poderes tu pensar a respeito e finalmente falar o que pensas”
Digo-te que Não, não preciso ouvir-te para saber o que te passa na mente, não preciso ouvir-te para saber o que penso acerca do que pensas.
Isso porque não partilho da tua crença nos raciocínios, nessa arte abstrata de ouvir-pensar-falar a que chamas “debate”, como se houvesse uma dimensão separada de pensamento – um pensamento à parte - que respeitasse ordens, fizesse fila indiana para rebater um a um “argumentos”, também eles “logicamente” expostos -- como se os pensamentos fossem lógicos! Como se os pensamentos algo respeitassem! Como se os pensamentos pudessem ser, por um momento, apenas racionais.
O que existe, nesse teu falar, é exatamente esse imperativo ordeiro, organizador, enrijidecedor, essa tua vontade de petrificar as minhas palavras, como se elas tivessem um sentido além delas próprias, como se elas significassem algo mais do que uma instantânea, imperfeita, insuficiente tentativa de comunicar algo bem maior, e ao mesmo tempo menor, que se passa em mim e que só por um acaso histórico da nossa espécie é que eu comunico usando esses sons ou essas sílabas, conjunto de símbolos, de signos, que só por um acaso não são em alemão, ou feitos como estalos da língua, ou a partir dos membros inferiores do meu corpo, só por um acaso é que eu falo contigo usando ar modulado no meu pescoço e representações de sons sob a forma de conjuntos de 27 símbolos e mais alguns outros. Não há nada de eterno ou correto ou verdadeiro nesse falar, nessa forma de comunicação, não há nada que a torne mais correta ou mais eficaz do que murros em pedras, ou olhares flamejantes.
O que eu te digo é que pensas que, dentro desse sistema de comunicação, inventado como todos os outros, podes criar um outro sistema, de “encadeamento lógico”, quer dizer, de correspondência de conceitos (símbolos) a mecanismos, como se esse seu sistema inventado de linguagem pudesse ser submetido às mesmas leis e regras que regem o caimento de uma pedra, ou a movimentação da luz, e eu te digo que isso é falho. Digo-te que o que passa em tua cabeça, por mais que momentaneamente tome a forma de símbolos, por mais que penses poder compreender-lhe a essência e o significado, isso que passa em tua mente não é senão um amontoado de fluxos desordenados e simultâneos que não servem a outro propósito senão o de regular o teu próprio corpo, se é que a isso servem.
O que quero te dizer é que não existe algo que está além desse mundo, que tu não és um ser que pensa como se estivesses apartado do mundo, dele distanciado; tu és um ser, um corpo, um corpo que pensa, um corpo que sente, um corpo que age. E é besteira tua achar que tu podes parar de ser corpo por um tempo e passar, por alguns minutos, horas, ou anos, a só raciocinar, a só pensar, a pensar isso e não aquilo, a pensar e não sentir…. essas distinções sequer existem! Ao mesmo tempo que se pensa, se sente; a mesma “coisa” que sente, pensa. E, NÃO, eu não vou esperar-te falar essas merdas todas para só então eu me colocar à frente e enunciar, “lógica e ordenadamente”, aquilo que pensei “cuidadosamente” a respeito de tua fala. Como se tua fala pudesse ser separada do restante do teu corpo! Como se exitissem palavras sem voz, conteúdo sem forma, mente sem corpo!
Se, quando falas, percebo em ti um ódio mais profundo do que talvez tu mesma sejas capaz de perceber, se percebo-te o desprezo por certas coisas, ou os teus dentes a tentar amedrontar-me, eu respondo! E respondo imediatamente! Também eu hei de me comunicar dentro dos limites do meu próprio corpo, também eu lançarei-te olhares fulminantes e comunicativos, também eu sentirei amargura e acidez no paladar, também eu cuspirei palavras quando assim elas forem melhor apresentadas, quando assim elas melhor significarem aquilo que penso-sinto-raciocino-acho-acredito-percebo-encontro-sou, ou quando assim elas quiserem sair de mim – afinal que sou eu senão produto da comunicação do meu corpo, muito mais do que dela causa ou mestre?
Porque a língua não é para mim maior autoridade do que os olhares ou a rigidez dos músculos, é que eu desrespeito a tua forma de comunicação. É porque não vejo, nas palavras, grandes coisas ou, pelo menos, não maiores do que em qualquer outra coisa desse mundo. E nem penses em chamar-me preconceituoso, em atribuir meu pensamento a uma teoria tal ou tal; é assim que o mundo se me afigura, esses pensamentos floresceram em mim e em mim encontraram um empresário, um intérprete, um cultivador. É assim que eu penso, é isso que eu acho, de tal modo eu sinto, tal eu sou. E isso não me torna preconceituoso a todas as outras formas de pensar, isso não me lhes torna avesso ou contrário, isso só me torna eu.
E o que eu te convido, minha irmã, é a pensar o que te torna tu. A pensar: por que raios penso assim? por que meu pensamento se configura desta forma e não daquela outra? por que um debate ordenado e regrado funciona melhor, ou tem mais mérito, que uma troca de socos, ou uma briga de bar, ou uma mordida de um cachorro?
E eu te pergunto, especificamente a ti pergunto, de onde vem essa tua “calma”, esse teu “ponderar”, esse teu “cuidado”, essa tua “sensibilidade”, essa tua “suavidade”? De onde vem o teu amor pelas palavras? Por que te encontras às voltas com mais livros do que pessoas? Por que escolheste o caminho das ciências e dos conhecimentos? Por que a filosofia? Por que essa filosofia?
Eu digo. EU DIGO. Tu foste para esses lados mais calmos e serenos da existência, às mais contemplativas vias de ser numa cidade grande; caminhaste em marcha reta e constante, desde a infância até hoje e amanhã, em direção à Filosofia, ao Grande Pensar, porque tu tinhas medo. Tu passaste a ler livros, não porque eles de fato te seduziam e te eram o mais extraordinário dos passatempos. Não. Se pudesses, terias ido brincar com tuas amigas e teus amigos – de que tinhas, ó!, tanto medo –, se pudeses, terias ido atrás delas quando elas se perderam naquele pique-esconde, naquela mesa do bar. Se pudesses, terias brincado de boneca e jogado bola; se pudesses, nunca terias recusado aquelas vibrações, aquelas pitadas na barriga, os suspenses de não saber o que vai acontecer, as palpitações indevidas do coração, a emoção da aventura, escalar aquele morro proibido, meter-lhe a mão na cueca, encostar os lábios nos dela, mas não podias. Foi-te “negada” a companhia de teus semelhantes, não lhe eras “adequada”. Não te encontravas em suas brincadeiras, não concebias como fazer delas parte. Não conseguias extrair prazer da convivência com seres humanos. E te ías fechando, em ti, com teus livros, fiéis e inofensivos escudeiros, envaidecedores; eras estimulada por alguns adultos, que estranho! tua fuga parecer-lhes tão alta, tão estimável. Tu foste graditavamente te isolando do resto dos companheiros, colegas; não os tinhas, não os querias por perto, não os desejavas e criaste o mito de que eles também tampouco te desejavam, e muitos outros mitos. Criaste, por exemplo, o mito de que haviam sido eles a te afastar, e não o contrário! Acreditaste no mito contado de que os livros oferecer-te-iam uma existência superior e mais digna, que nas palavras se encontravam verdades e no mundo “normal”, dos “outros”, nada haveria de proveito. Por isso hoje tu pensas que o teu jeito de discutir é superior e deve ser seguido, por isso tu acreditas tão cegamente na linguagem das palavras. Porque elas são teu abrigo, teu refúgio. Foste à filosofia por covardia, foste à filosofia porque não achaste outro lugar que te acolhesse. Mas tu não podes fugir tanto, não podes fugir do próprio corpo, não podes fugir do fato de que és corpo! Não podes fugir do fato de que foram ciúme, inveja, muita inveja, que te levaram à filosofia, e não amor e vontade, e não vocação e destino. Tu não eras destinada à filosofia. Tu eras dela carente, aproximavas-te dela como um mendigo o faz a um transeunte. Tuas carências, invejas, ciúmes, tudo que não viveste na infância, adoelscência e que continuas a não viver agora que és adulta, continuam em ti; pior, são teus alicerces, as bases do teu pensar, do teu viver. Mais tarde vens e me perguntas “E por que é que só me apaixono por garotos medíocres e sociais, nunca do tipo científico ou pensador? Por que é que me apaixono por aqueles a que mais odeio?” Oras, pois, é a estes garotos baixos que tu queres – é a eles que sempre quiseste! Larga dessa tua arrogância de achares que és nobre, que sempre pertenceste às artes e às ciências! Tu não é nobre porra nenhuma. Tu és um bando de sentimentos podres mal resolvidos, que te habitam a cabeça, causando-lhe enxaquecas. Tu és um câncer em formação, uma maçã envenenada, uma maria-ninguém, uma filósofa de merda, porque covarde.
Mas pelo menos agora não estás sozinha.
Sem amigas, sem companheiros, mas cheia de olhares invejosos, congratulações de autoridades do saber, um cheque gordo das tuas pacientes.
Espero que algum dia escolhas viver.
5 de abril de 2011
14 de março de 2011
1 de fevereiro de 2011
Anônimo disse...
Todas aquelas estrelas, perdidas, caóticas, competindo com as nuvens por um lugar no céu... Tá frio que nem no inverno. "Aquele" inverno, sabe?
Quando nenhum cobertor sacia, quando todo sono do mundo não é mais forte do que a vontade de ficar acordado - acordado meesmo, sabe? Quando música nenhuma é mais intensa do que aquele espírito que te ronda a cabeça, murmurando saudades, sorrisos, textos que, de tão bons, não podem ser escritos, imagina lidos.
Eu adoro quando seu sorriso me engana. No proximo inverno você me chama. Talvez possamos passá-lo juntos. Sei lá. Eu gosto de você.
8 de novembro de 2010
26 de outubro de 2010
Os dezoito anos
Como se faz política?
Como se lê Nietzsche?
O que é a saúde?
Qual a diferença entre prazer e alegria?
O que se entende por sonho?
Como sentir o que se pensa?
Como se faz amor?
O que é a amizade, e como se a recupera?
Estar só é ruim.
Música eletrônica é bom, mas nem tanto.
Dançar é bonito, e ainda é o centro do universo, mas há mais de um jeito de dançar. Transando, por exemplo. Chorando, por exemplo.
O que significa responder, reagir, receber?
Existir significa respirar e mais um tanto de coisas.
Dormir, chorar, jogar videogame.
O que é a escola? É o que restou da minha alma. O que se me tornou sonho.
O que o faz apaixonado? - É o que eu sinto: são esses bandos de sóis que insistem em brilhar, para além de bens e males, com a intensidade que se estampa em meus olhos.
O que o faz triste? É isso, tudo isso-aquilo que me tiraram.
Como resistir? Juntando-se. Em tempos, em espaço, em olhares, em linhas, em beijos.
E crescer? Crescer é difícil, sempre. Se não é difícil, não é crescimento.
Difícil!, disse eu, não penoso.
E os textos, a sua literatura? –Pra que serve?
É. –Bem, pra nada.
Pra nada? –É, pra nada.
Mas algum dia vai servir? –Sim, quando eu conseguir fazê-la pra outros, quando eu consigo fazê-la pra outros. Aí, sim.
Os outros? – É.
Cansaço. Muito cansaço nessa vida.
Mas, ainda assim, ainda assim… Ainda assim. Eu, vivo.
Mãe, vai ter outro ano de 1999?
Não? Mas… isso significa que essas alegrias, felicidades, essa minha risada e a piada do Luiz Gustavao – eu nunca vou tê-las de novo? Nunca hei de sentí-las novamente? É isso que significa ressentir? Tentar sentir de novo e, fatalmente, não conseguir?
Pai, por que você precisa continuar fazendo obra? Chega! Eu quero jogar bola contigo. Investimento? Mas eu não quero ir pra Noruega! Mamãe? Você faz isso por ela? Mas não parece… Desculpa. Não te peço mais.
O que? Mas, mas… Não, eu não sei se vi nada de diferente nela, não, pai. Ahn? Como assim ‘mais feliz"’? Por favor! Mas, pai! Dói muito! Não quero.
O que? Se tá tudo bem? Sim, claro, nada de mais. E você? Pois é, tenho ouvido outros tipos de música agora. Pink Floyd e tal. Videogames? Claro.
A escola sempre foi muito fácil, mas tá tudo bem, sim. Meio chato, mas acho que sempre é, né?
Que me desafiam socialmente? Como assim?
Ah, é legal ouvir, assim, que não é algo inato.
Volta pra mim?
Lembra quando a gente não prestou atenção na aula de história, porque tava discutindo Capitalismo e Socialismo?
Lembra quando você me batia com a lancheira?
Lembra quando a gente jogava bola? Você era rápido, você driblava, você fominha, mas era muito bom.
Lembra de antes, quando a gente era menor, e que a escola era de fato Nossa?
Lembra de Cabo Frio? De quando choramos todos juntos? De quando dormímos juntos? De quando acordamos junto do sol, à praia?
Lembra quando eu bebi pela primeira vez? Lembra…. das coisas ruins? Lembra de tudo o que eu disse? Eu me arrpenedo, sim. Só não sei se acredito nisso de arrependimento.
Ah, eu te amei.
Não, nunca aconteceu! Responsabilidade?
O que é a responsabilidade? Por o que sou responsável?
Pelo mundo?
A música! O violão! As notas! Clarice!
Olha eu cantando! Eu canto chorando, como se cada linha fosse uma lágrima, a ser expulsa, a ser sentida, algo que não cabe nem pode caber em mim.
Queria que você tivesse me cantado.
Ei, você acha que eu posso ser seu amigo? Eu não sou muito bom nessas coisas.
É assim que é. Não.
Dezoito anos? Mais parecem dezoito eternidades.
Talvez sejam. Talvez sejam.
11 de outubro de 2010
23 de agosto de 2010
Abrir os olhos
O amor começa por uma metáfora,
mas, embora chovesse, não voltava o amor à casa. A chuva, que antes causava vibrações ao simples estalo dos primeiros pingos, não é senão um compasso fora de ritmo agora, que tenta contar os tempos de um coração cuja bateria não permite mais a regência do corpo – um maestro com mãos desobedientes e uma vontade de sucumbir quase irrefreável.
Chovia e podia, assim, ver no cheiro de terra molhada como que a essência de um amor que já morrera. Via-o diluído em atmosfera, fumaça de vida no balançar das árvores, neblina perdida nos sopés de montanhas… Sempre as metáforas.
É por elas que seu amor, agora ex, havia se delineado, num encontro de quatro ouvidos que ouviam, no bater do mar, não as ondas quebrando, as espumas se formando, a areia se molhando – mas uma sincronia com o infinito, um êxtase sonolento, uma necessidade de se beijar.
Creio que não percebiam, à época, que quando se diziam ‘eternos’ (e, ó, com que freqüência o faziam!) não falavam de si, tampouco do seu amor. Falavam é das metáforas que haviam criado, estas sim, eternas peças de um universo bem maior que eles dois…
Mas nada disso lhe passava à cabeça. Naquele dia, era insensível às metáforas - uma tentativa de se tornar insensível ao amor que elas causam. Por isso, quando um pingo lhe caiu no ombro, ele não só fez questão de puxar um guarda-chuva, como também murmurou palavrões direcionados ao céu.
Talvez, se ele enxergasse como eu, teria visto que não demoraria muito para que o próprio corpo projetasse em si as metáforas que ele agora evitava: não demoraria muito e ele veria no rosto chover o mar salgado que os beijara anos antes.
Na semana passada, quando você me chamou para conversar, eu fiquei assustado. Achei que ia ser ruim, julgava-me incapaz de reviver aquelas vibrações. Mas não. O que aconteceu foi que eu pude reconciliar a paz com as antes-nossas metáforas. E o amor que eu tinha por você, que tenho e que sempre terei, continua ali eternizado no universo – afinal, ele voltou para casa.
12 de julho de 2010
da existência do Eu-lírico
Mas será que você não percebe? Será que eu não me fiz não-claro o suficiente? Eu não sou claro. Não pretendo ser, não quero ser. Não preciso ser. Você não precisa que eu seja.
Eu não digo os meus textos, as minhas palavras, os meus personagens. Eu digo através dos meus textos, através das minhas palavras, através dos meus personagens. Será que você não percebe, na transparência das minhas palavras? Não, você não percebe. Você pouco se importa com a transparência. Pra você, transparência é falta de opacidade, é falta, é falha. Pois a transparência é o que eu mais quero, o meu melhor recurso, o mais divertido deles. Eu não digo as coisas querendo dizê-las, digo-as querendo, ou digo-as dizendo-as, assim meio sem querer querendo.
Meus textos, irresponsáveis, não são mais do que um espaçoso salão, onde eu danço, canto, pulo, atuo, jogo futebol, faço amor, conto piadas, brinco de ser eu. Não é erro meu brincar de ser eu. Não significa que eu não sou eu seriamente, que eu não queira ser. Tanto é que só brinco quando me sobra tempo, vontade, fôlego – a maior parte do tempo me ocupo tentando ser eu a sério.
É por isso que é escroto – e eu bem deveria ter previsto – você não me ler, só porque eu, Friedrich, me filiei ao partido Nazista. Ou porque eu, Lobo, mostrei-lhe meus dentes afiados e minha pata sangrando. Não, não não. Nunca são eles que lhe dizem, mas você que os interpreta! Tanto é que eu poderia argumentar, livremente, em poesia, o quanto as minhas próprias poesias foram mal-lidas – consideradas bonitas quando eu estava feio, e feias quando eu estava todo bonito. Mas por que argumentar isso? Não quero argumentar isso, porque brincar de ser é assim. Não entender, “mal-interpretar” faz parte, é quase a essência da brincadeira. Um passe errado, no treino, é sinônimo de risada do companheiro de time, não de represália. Quando eu, Romântico, quis amar e não pude, eu brinquei: como num sonho em que eu posso voar, eu escrevia sobre o amor com a capa da tristeza. Eu amava, e era feliz, através dessa tristeza brincada. Por isso esses textos tristes me são tão preciosos mais tarde, quando olho-me de volta com ares de espetáculo, Eu, espectador do mundo – tudo tão emocionante, divertido, bonito. Eu, o Adulto do devir, pretendo não existir completamente, nunca, mas sempre ao lado desses meus companheiros, leais escudeiros, minhas tempestades, nuvens, musgos, algodões, livros, copos, textos, palavras. Chegarei ao inferno quando estiver procurando o significado real das palavras, ou me pautando por eles, não por elas.
E então, quando eu a convido a subir no meu palco, a brincar comigo, você se torna bruxa, pega sua vassoura, e joga pó de lagartixa e patas de dragão em todo o meu cenário, deixa todos os meus figurinos com cheiro de mofo – e ainda pensa estar assim, me batendo toda vez que acendo uma lâmpada, me fazendo um favor!
(E está mesmo)
O que eu escrevo está sempre sendo, se processando, correndo; nunca é. Você transforma tudo em é, é, é. Eu sei, eu sei, é claro que eu sei que mil vezes antes um texto esteticamente feio que um ideologicamente burro, eu aprendi isso, eu aprendi isso, mas eu, mas eu, mas eu sou Criança, ainda não entendo disso de ideologia, você precisa me ajudar, e não procurar o que tá errado. Mesmo que isso seja ajudar. Falta um monte de coisas no meu texto, falta nexo, falta inteligência, falta propósito, falta meta, falta tanto, mas se eu fosse fazer uma lista das coisas que faltam, só a minha imaginação imporia limites. Eu não quero descobrir o que falta, porque sempre falta infinito, quero brincar com o que tem, com o que está tendo, sendo, querendo. Criança assim.
Mas sabe, de tudo que eu tenho a reclamar de você – ignorando os 80% de projeção – o mais importante, o que eu mais quero dizer é a feiúra. Não ter um Eu-lírico é tão bonito, é tão real, eu fico aqui olhando pra carne viva estampada em toda você, e vejo seu sangue circulando e o jeito como você conduz sua respiração e entorta a coluna e os lábios pra falar - você toda jeitosa com seu jeito de tentar não ter jeito. Mas é feio, quando você fica assim, me lendo aos avessos, se cansando de si, procurando todas as feiúras que nós temos em comum, em vez de deitar à sombra das nossas semelhanças – pelo menos quando eu lhe peço deitar, quando eu aqui cansado, fatigado, pedindo colo e carinho. Será mesmo que você vai me castigar nesses exatos momentos estendendo-me sua cama mais dura? Como você consegue? Como você consegue você mesma deitar em sua cama mais dura? Eu a invejo, se isso for verdade. Mas eu não quero ser você, porque você parece que perdeu a vontade e a chance de ser bonita. Eu, Pai de duas, tive vontade de ter mais uma toda linda filha que nem minhas duas outras só para compensar você. Ai eu, Lobo, dei um patada, e arranhei as minhas filhas, que estavam sendo paparicadas e infantilizadas, que eu tava sendo muito criança. Ah, não. Foi isso que lhe aconteceu? Veio-lhe um lobo?
Ah não. Ah, não. Me lê, me erra, mas não. Não, não, não.
1 de julho de 2010
O ‘tornar irresponsável’ (de que não gostei) + Introdução metalingüística + O ‘tornar irresponsável’ (versão 1,5)
Ontem à noite, assisti a um show de violões no municipal. Um trio. Numa música, que creio ter sido Olha Maria, eu me entreguei completamente, e consegui ir lá pra dentro de mim, num dos lugares mais bonitos que existem – provavelmente um cômodo da minha alma. Lá, comecei a escrever um texto bonito, desses que dão orgulho. Um orgulho semehlante àquele que senti depois de assistir Cinema Paradiso, por exemplo, ou aO Fantasma da Ópera, ou quando li Através do Espelho (de Gaarder), algo a que eu só consigo me referir como Capacidade de Sentir – uma sensibilidade - o que é no mínimo paradoxal, senão simplesmente risível, quando o contexto é outro que não Arte. Porque não há motivo maior para o meu fracasso em conseguir manter um relacionamento funcional do que a dificuldade de sentir. Mas é verdade que, se me perguntam do que eu mais me orgulho em mim, eu respondo Minha sensibilidade.
Parei numa frase que, de tão importante que a achei, fiquei murmurando pra mim mesmo, morrendo de medo de que a esquecesse. Após o show pude anotá-la em meu celular. Era: O que é a responsabilidade senão um nome à parte do poder de Deus que nos cabe? O texto tomou alguma forma, ganhou título, já não sei mais se na profundidade do meu sentimento, ou se depois, durante meus sonhos. Mas sei que queria muito escrevê-lo, não tão diferentemente do sonho que tentamos lembrar. Hoje, com disposição, eu tive espaço e tempo de escrever. Mas, incapaz de colocar sentimentos nas minhas palavras, escrevi um texto dissertativo demais, apesar das camadas de literatura e autobiografia que o permeiam, de que gosto muito. Ele aqui:
“
Quando alguém comete um erro ou nos machuca, dói muito mais uma eventual reação apática do alguém do que o próprio erro ou machucado. Dói muito mais quando o alguém não se toma por responsável pela dor infligida. Nós nos machucamos com a falta de responsabilidade do outro.
Ser responsável por algo ou alguém é das mais pesadas tarefas, porque há uma relação direta com a nossa competência de cuidar do algo e, portanto, com a imagem que temos da nossa própria força e capcidade. E, é claro, com a culpa – que talvez nada mais seja do que o encontro com a própria fraqueza. Franqueza.
Esquivar da responsabilidade é, portanto, esquivar do eventual confronto dos próprios limites, da finitude de si. Provavelmente com esse bonito sentimento, de fazê-los infinitos, muitos pais privam ao máximo seus filhos de responsabilidades .
A crueldade desse romantismo que se atribui à geração vindoura, dessa idealização da infância, dessa transferência de sonhos à prole, é raramente reparada. O ápice desse processo se encontra na desapropriação de si mesmo – em que nem pelo próprio corpo tem a criança condições de zelar.
A isso, mesmo a barbárie capitalista serviria, numa idéia de que o próprio corpo é uma propriedade, que deve ser cuidada, estimada, em que se deve investir.
Esse sorriso com que brinca a criança de cair, é o mesmo presente no choro quando percebe ela, já adolescente, que não olhar por onde se anda pode fazê-la esbarrar em alguém. Talvez fazer esse outro alguém cair.
Os pais, ao cuidar desses pequenos jardins, não podem viver por eles, através deles. Porque aí esses eles não vivem. Não tomar responsabilidade pelo que se é, pelo que se faz, é muito próximo de não viver.
Tornar irresponsável é causar sofrimento. Porque, de repente, no meio de uma noite estrelada, nem as estrelas nem a noite lhe são de posse, cuido, ou contemplação. Nada disso lhe pertence. Nada disso é de sua responsabilidade. O próprio prazer, tampouco. A própria dor, tampouco.
Tirar o poder da criança sobre as coisas, torná-la a todo tempo dependente e obediente, bem-educada e amistosa, temente e cumpridora, é destituí-la de força para, por exemplo, realizar os sonhos que você, pai, não pôde realizar. Pois ser responsável por algo, é, sim, ter poder sobre algo.
Aquele que faz uma obra de arte, mas não se sente por ela responsável, é tão feio e desprezível quanto aquele outro que me machucou, mas que não se admite responsável pelo meu sofrimento.
O que é a responsabilidade senão um nome à parte do poder de Deus que nos cabe?
“
Tão longe era meu texto da frase que eu anotei, que ela, a frase, teve de ficar isolada, sem ligação ao resto do texto, sem continuação, ali, crua, sem adubo, sem raiz. Eu quis chamar esse texto de “O ‘tornar irresponsável’ versão 3”, pois essa definitivamente não é a versão 1, que eu quero atingir.
Ao mesmo tempo, eu não consegui dormir. Precisava dialogar comigo mesmo e é exatamente isso que faço aqui. Por isso esse texto é tão agridoce. Ele não é bom. Esses diálogos são invasivos. São íntimos demais. Porque eles são o diálogo que eu tenho comigo mesmo na cama, ouvindo meu coração bater, me impelindo a algo maior e maior. A tomar responsabilidade, nem que fosse por um texto. Uma pena que, com a metalinguagem, eu só consiga fazer o contrário e further and further me desresponsabilizar.
O que é a responsabilidade senão um nome à parte do poder de Deus que nos cabe? Pois ser responsável por algo implica em ter poder sobre o rumo que esse algo irá tomar; um poder sobre o destino das coisas, se assim se quiser dizer. É um poder de criar coisas, de guiar coisas, de salvar coisas. É o poder de Deus, distribuído a cada um de nós.
Não há nada mais bonito do que ser responsável. E, mesmo que eu use as palavras Deus e Poder – assustadoras, eu confesso –, é bonito. Afinal, é preciso que eu pare de temer as palavras, sejam elas Política, filosofia, irracional, Deus, poder, verdade, mentira, responsabilidade, amor, Homem, Mulher, adulto. Eu estou desaprendendo a ter medo. (Porque, né?, medo se aprende.)
É preciso que os filhos desse mundo tomem coragem de ser responsáveis, que os filhos desse mundo não temam tomar esse mundo como seu, numa posse que não implica em propriedade, mas em responsabilidade. Palavras, palavras. É preciso que se veja que o mundo não pode, não tem como, ser tão medonho assim. Nada pode ser tão difícil quanto isso que você imagina. A prova disso o está esperando numa música, possível, tocada ali na frente, por três pessoas que resolveram pegar um pouco da beleza do mundo pra si, e ainda me permitir acessá-la. A prova disso está nesse sorriso-choro que o carrega e consome. Que traz, lá de tão longe-perto, o melhor que há em você. Aquilo de que, inevitável e justamente, você se orgulha. De que você se sente responsável. Você não choraria, se não se sentisse responsável por essa beleza que ouve. É essa sua capacidade, de ser co-responsável por essas belezas todas, que o faz ter asas tão grandes, tão esbeltas.
Não há nada mais bonito ou prazeroso do que ser responsável. Aliás, só podem ser sentidos a beleza e o prazer, ao ser responsável. Se não, é só… comoção? Não sei, há poucas palavras. É bom poder deitar, satisfeito por finalmente ter tomado responsabilidade. Mesmo que esse texto seja, em parte, íntimo demais, por erros da linguagem, por dificuldade de sentir, por eu não me tocar. Não é linda essa expressão? “Se toca”? Apesar do erro de concordância e da próclise? Okay, isso foi brincando. Boa noite, meus amores.
10 de junho de 2010
Zoon politikon
De onde surgiu em mim a descrença na política? Onde, presa em algum lugar entre as primeiras chamas e as velhas novas estrelas, se fez valer um sentimento de negação da política?
A minha introdução, sempre tão metalingüística, hoje tem fim cedo. Não me alongo no onde, no por que. Mas no aonde, no porque.
Pois, por mais absurdo que seja o mundo à volta, esse de guerras e cores tão diversas quanto são as transições entre as cores do arco-íris; por mais imoral que me pareça ser a idéia de simplesmente dar continuidade ao que já existiu; a crença na lealdade ao que já foi; e absoluta inesperança que me assola todos os dias antes de dormir e quando acordo; que bobo sou eu, esse que desiste, que desisti da poítica.
Embora, nos mais estritos termos, o ódio à burocracia seja compreensível; a crise dos sistemas, inquestionável; a corrupção dos políticos, já popularmente aceita; a estatística e o pedantismo, assassinos confessos da matemática e de toda ciência; a universidade, morta como a igreja; a seriedade, eterna repressora da alegria -- como tocar um negócio, senão pagando as contas? como passar os dias, senão com uma família? como não se enfezar com roubos e desvios? como não criar argumentos estatísticos? como não se adequar à gramática? como não respeitar um professor de verdade? como não levar a vida a sério?
(A resposta seria: virando um ponto de exclamação. Ou ainda: virando um sinal de ‘menos’. Ou: dividir por zero. Por último: sendo uma negação.) A resposta seria: negando tudo. Negando o mundo. Negando a si. Por que? Porque negar-se é a mais fácil das covardias. E desistir em frente à burocracia, é covardia
não, repara, porque a burocracia seja em si um símbolo qualquer de elevação, coragem ou bem – não porque ela mereça ser levada mais à sério do que a vontade de negá-la; não porque os ódios, algodões-doces, vontades de explodir e de explodir-se sejam atos de descoragem, mas porque eu (e esse texto é absolutamente pessoal, não importando o tom com que escrevo), porque eu sou o que eu sou, e vou acabar indo aonde o que eu sou vai. E eu fui bobo.
É covardia pra mim, porque eu posso, todo esquematizado, desistir. Em vários níveis. A burocracia, o sistema, a corrupção, a estatística, a gramática, a universidade, a seriedade: estão desde o ato de acordar com despertador até votar no 12, 13, 15 ou nulo, e além – até fazer amor de frente ou de lado – até escrever em parágrafos ou versos – até ver um filme e se emocionar ou criticá-lo - até um aperto de mão depois de uma fala – até um xis marcado numa questão de prova – até escolher duma lista uma profissão – até escolher um nome de um bebê – até substituir vírgulas por travessões – até sorrir, sonhar, beijar, cheirar, amar. {Desistir de tudo isso?!}
O que é – senão política – amar, cheirar, beijar, sonhar, sorrir, acordar com despertador, do próprio jeito? O que é ter a audácia de despertar sem o despertador? De amar sem nomes, talvez sem Amor, de beijar os sonhos, cheirar os sorrisos, trocar verbos por substantivos, não por tendência modernista, mas pela mais pura, ingênua, inlapidada, expontânea vontade de ser tudo aquilo que parecemos desde sempre ter sido feitos para ser? O que é a política, senão a fé na veracidade dessa vontade – o abandono à sinceridade do querer (e do não querer também!)?
Eu, animal preso na interseção entre selvageria e ortodoxia, poeta que pinta com a matemática, músico-burocrata, desenhistabailarino, que sou eu? que devo fazer eu? senão potencializar – não um ou outro – mas o poder que reside no exato fato de eu ser ambos, de eu ligar os dois! Eu sou ponte. Eu sou anfíbio.
Eu sou ponte que liga este a um mundo melhor. Com toda a ciência de que um mundo melhor inexiste. Com toda ciência de que eu não ligo nada. E que trabalho mais grato poderia haver que o de ser ponte invisível inefável inútil? Irresponsável.
Eu sou esse meio caminho entre o que há de mais anárquico e o mais autoritário. Eu sou porta-bandeira do novo, escalador de uma montanha que, sim, uma montanha que já existe! mas que nem por isso não deve ser escalada. Eu não preciso criar uma montanha nova – mas lá de cima, eu poderei ajudar tanto mais a criar montanhas, a destruí-las quando assim for objetivo, e outros a escalá-las, (no meu dever de professor que tanto almejo).
Um cargo público, de economia, direito e burocracia – pode ser um passo. Talvez absolutamente necessário para que eu possa continuar respirando o ar da forma que eu quero respirar. Um cargo político – pode ser uma experiência. Um servo do Estado rebelde e anarquista, sorrateiro e delinqüente, que tem nas mãos, não a democracia, a liberdade e os direitos - mas a inteligência, a vontade e os meios; um sentimento de diplomacia e de pátria que vai muito além das relações internacionais ou do nacionalismo – mas um agente diplomático entre seres humanos (não entre interesses), um sentimento de pertencimento (não a um país) ao mundo e a todos aqueles que se pretendem também políticos, hasteadores de bandeiras das montanhas do mundo todo.
Sou eu, voz de uma onda, degrau de uma escada. Animal político a levar (o que? sei lá!) ao mundo. Porque é isso que eu sou: um pedreiro, mexendo o concreto, aplicando asfalto. Preparando-te a estrada. Não me menosprezes: não deixes de decolar. Tu, que lês, talvez, o meu segundo texto mais sério.
8 de junho de 2010
20 de maio de 2010
leitoras leituras
Na palavra seguinte já não estava mais lá. De repente, o que estava “lendo”, aquilo que circulava entre a parte sensorial e a verbal da consciência, não conversava com o sujeito que havia escrito o livro ou com aquele que, por mera inércia, ainda o tinha nas mãos e a retina às palavras direcionada – surgira um terceiro elemento, estranho à situação, mas interno ao corpo dono das tais mãos e retina (percebe: só se pode ser leitor à “interrupção” da leitura). Em suma: não estava mais lá.
Pra onde havia ido?, já o saberia, enquanto puxava do bolso o celular que serviria de papel à narração da experiência literária que vivia, tão incrível era que merecia tornar-se, em tempo real, uma outra (“é mais ou menos pura agora que é metalinguística?”).
Pois tinha ido – e continua a narração – à exploração do que sentia, primeiro inconsciente, depois conscientizadamente. A primeira coisa que percebeu, de que a consciência se apropriou, foi, em imagens: Infância e Corpo. A memória, em vez de criadora, passou a ser batedora, explorando um passado há um segundo adormecido: na infância, o corpo funcionava diferente. Isso é percebido num campo não-verbal, está sendo sentido, a memória é ativa, não escrava da razão.
Percebê-lo foi de uma beleza bonita.
Repreendida a normal antiga repreensão, sentia de novo o que sentia: jogava bola, e queria ganhar, precisava ganhar, e empenhava suor e energia – vontade. Tinha ido para lá: à vontade inexorável e tão prazerosa de um pirralho de roubá-la, driblar, chutá-la. Não foi gol.
6 de maio de 2010
Obsessivo-contemplativo
Falo de você.
Inquieta, apreensiva, cuidadosa, atenta, desleixada, observadora, lírica, estonteante, bonita, andante, repentina, estranha, difícil, impenetrável, revelada, desmistificável, inapta, aprendiz, nova, sábia, jovem, sabiá, maluca, sã, racional, intuitiva, contemplativa, forte, frágil, descompromissada, leal, saudosa, saudades, bolo-de-chocolate, fotografia em sépia, prendedor-de-cabelo azul-marinho, sapato, cinto, cinta, vestido, verde, amarelo, cores, pintora, artista, expressiva, introsepctiva, expansível, pan-ser, grande, miniatura, telescópio, microscópio, óculos, lentes, canetas, corações, bisturis, colãs, letras, palavras, versos, contos, conte-me!, amante, solitária às vezes, deus-lua, grafite, , clave de sol, fone de ouvido, Bach, meiga, rija, olharuda, dançosa, séria, batom, sombra, blush, apassarinhada, bebente, voante, poente, sol quando amanhece, chuva quando começa a parar, calçada, meio-fio, poucas vírgulas, alguns dois-pontos, muitos travessões, nenhum parênteses, alguns pontos-de-exclamação íntimos, unhas, pernas, ombros, ponta do nariz, metade da testa, tamanho da orelha, estrangeirismo internacional, madrugada, aplicada, vontade, confiança, vermelha, terra, maior, admira—, –nte, –ável, –osa, –ada, –dor, –triz, –me, –nos, –i-la, respiradora, falta de ar, correr por você, cheiro de nuvem, dedos-do-pé, estratos do suco de laranja, extrato da cor laranja, x e s, sorriso, chama líquida, cambalhota, cabeça-pra-baixo, olhos castanhos-morango, uva-sem-caroço, pêra sem maçã, frase sem verbo, infinitas estrelas, via láctea plúmbea, satélites aquáticos, peixes-brilhadores, ponto de interrogação sem o gancho, perspectiva alinhada com a curva, imagem auditiva, cheiro de melancolia falsa, solitariedade verdadeira, pescoço nu, pele lisa, inventora,
Porque anteontem eu cortei o cabelo.
23 de abril de 2010
Eu-que-canta
17 de abril de 2010
6 de abril de 2010
Feriado implanejado
Chove tanto. O dia foi todo feito de ócio, de não-fazeres, de dormir acordado. Meio bicho preguiça, meio adolescente apaixonado: tempo estranho, devagar mas rápido, gostoso mas vazio. Talvez, se houvesse rimas, uma poesia calma. Fechar os olhos: o metabolismo lento, um primeiro ciclo do sono. A vontade, já dormente, de sonhar. Um dia de anarquia, de inútil e improdutivo reinado. Ao lado do cavalo, mas ele só olha; e você, sem espora. Inspira o ar, segura-o, ouve o coração desapressado, respira primeiro na barriga, depois um pouco de ar no pulmão, ao mesmo tempo que um sorriso. Sonolento, passivo, balançante. A cabeça inclina, pára, vira. Não há rumo, não há determinação, meta. Uma espécie de liberdade comatosa. Vez ou outra se respira com mais intensidade, se ajeita a postura, se busca mais energia, ou mais desejo. Mas se volta: os músculos, e também os da alma, não permanecem tensionados. Nem chamar a nostalgia, amiga dos silêncios lentos, excita-a: a mente parece dormir, como que acudindo àquele pedido dos dias estressados, “chega de matemática”. Só resta – resta o quê? Resta um. Uma unidade de eu. Não as várias que, normalmente despertas, brigam sem parar entre si. Mas apenas uma, pacífica e soberana. O feudo de A Bela Adormecida, esperando: pelo princípe, ou pela maldição? Lá fora as pessoas morrem. A terra lhes sufoca o grito, e eu aqui tomado pela Terra.? Mas chove tanto!
20 de março de 2010
Réplica ao desconhecido
Como responde o poeta ao lhe versarem os olhos?
dirá ele, humilde e admirado, “são teus, obrigado”?
ou talvez, num tom cortês, “não te miravam – não, não desta vez”?
Independente- penso eu –mente do que faz o poemador,
não vejo-o senão sorridente, quiçá: avermelhado
- Ora, vejam só! Tenho, ao meu lado, não menos: um trovador!
Pois, ao invadir-lhe o terreno (tão só, tão ameno!),
mal espera o invasor: “Socorreste-me, ó”, agradece o poema-dor.
“Quanto do meu tempo se perdeu ao te esperar,
por que é que não vi-te antes, ó, musa do meu olhar?
O que vês, o que sentes? – fala, fala, não hei de te negar!”
“Ó, poeta dos olhos esverdeadors, cuja alma me enche de pecado,
(Não sabes quanto do tempo meu se passou em procurar, noutros, [os versos teus)
Não, nem imaginas, mas tuas palavras soam-me como as mais [lindas,
destas que se põem em cristal, a ser às damas doado em
[formando-se casal
Tal fazes-me sentir: uma mulher com teu amor-poesia presenteada
E agradeço-te, posto que me viste, me olhaste: eu, lisonjeada.
No entanto, querido poeta, te enganas e te atrapalhas.
Vejo, já agora, que tua alma antes a mim rica, enveludada,
não passa de mentiras e, céus!, tão mimada.
Se verdade fôr que me enxergas como salvadora do teu bosque
(no qual tu mesmo fizeste questão de te esconder),
permita-me discordar: “Que nojo de você”.
Encantavam-me em ti a doçura e expressividade, pensava: “quero-o
[meu em minhas tardes”
Encantavam-me em ti o sorriso tímido e a postura analítica, pensava [“quero-o meu, vou decifrar-lhe a cara”
Encantavam-me em ti a seriedade e o prazer e, mal pensaava, “lá vou eu, de poesia à prosa, aventurada”. Encantava-me em ti a explícita formalidade, quando – pela voz – percebia a tua vocação para a poesia. Tu és meu príncipe encantado e, no entanto, eu não me permito encantar: não sou mais adolescente, eu não me permito fingir voar. Permite a mim, não o vislumbre das alturas e dos céus-de-arco-íris, mas o mergulho nas tuas águas, sejam elas mansas ou marèadas. Não quero que me consideres um encontro, um achado, quero que possamos, os dois, perder-nos, um no outro, os dois no mundo. Eu sou teu início e não teu fim, meu amando mundo amado.
20 de fevereiro de 2010
Responsabilidade
texto sob revisão
As pessoas desastradas não têm culpa de esquecer a chave do carro, ou a comida fora da geladeira. Se essas coisas são tão simples pra mim, então o responsável por elas é naturalmente eu. Isso é simples, faz sentido. Ponto. É praticamente uma idéia clara e distinta.
As pessoas desastradas, no entanto, podem – e costumam – ter outras qualidades, que não a arte de lembrar de pôr o bife na geladeira. Tampado. Elas podem, por exemplo, ter uma sensibilidade às coisas simples que escapa àqueles que lembram da merda do bife.
Digamos que ela seja uma ótima dançarina, ou desenhista. Melhor: ela é ambos. Talvez ela sofra volta e meia por não conseguir se lembrar da tampa do bife. Talvez ela tenha perdido uma refeição assim, talvez tenha deixado alguém doente. No entanto, se ela põe sua vida em perspectiva, ela deve perceber que a dança e o desenho são fundamentais pedras na sua vida. É algo que "ela “não poderia deixar de fazer”, embora às vezes deseje apenas se lembrar do pobre bife.
Se existe algo que “não podemos deixar de fazer”, significa que somos responsáveis por esse algo. Ela é responsável pela dança, pelo desenho. E aquele que consegue naturalmente tampar e guardar o bife, é responsável por ele, exatamente porque ele consegue tampá-lo e guardá-lo. Nesse sentido de responsabilidade (chamemo-a de ‘bife’?), surge a pergunta “sou responsável por escrever?” – e repara que essa é a tradicional pergunta-chave desse texto.
Ou talvez ela seja “pelo quê sou responsável?”. Uma pergunta que faz total sentido às vésperas do vestibular. (o que? Uma referência a um fato mundado de minha vida?! Quem mais acha que esse texto é diferente, levanta a mão o/)
Percebi há pouquíssimo tempo que um de meus motivadores para a escrita tem sido a vontade de ser bonito. Algumas pessoas disseram que eu consegui. E então eu fiquei lisonjeado e agradecido, longe de ‘satisfeito’. Foi bom, porque parace que eu percebi que precisava de outros motivos pelos quais escrever. Motivos ou motivações que, ao realizados, me suportassem, me crescessem. E não simplesmente me afogassem, como algumas vezes aconteceu.
E provavelmente é esse o motivo desse texto aqui: uma perspectiva completamente outra. Pois estou encarando a possibilidade de não escrever por um desejo (como em “quero ser bonito”), mas por uma responsabilidade (como em “preciso fazer algo”). Eu não sou como a desenhistabailarina para quem escrever é uma ordem, natural e expontânea. Deixar de escrever não seria para mim um suicídio. Por isso, aliás, eu não sou um escritor. (o que não significa que eu não possa ser, mas esse não é o assunto.)
Na verdade, eu estou mais perto de ser responsável pelo bife, literalmente, do que por escrever. Guardar o bife é tão natural e expontâneo, faz tanto sentido, e é tão heróico: já salvei muitas pessoas de serem envenenadas! Tudo devido à minha incrível facilidade em fechar e guardar…o bife. E olha que eu não sei dançar nem desenhar.
O que eu sei, além de, claro, o bife? O que eu sei que me faz responsável? Esse texto, por exemplo: já passou do 3000º caractere e, aparentemente, alguém ainda o está lendo. O que ele tem de mais? Por que eu ainda o escrevo, e “você” ainda o lê? (a propósito, não se engane: ler é uma atividade, não uma “passividade”, e também implica em responsabilidade).
De fato esse texto é especial: eu sou responsável por ele. Deixar, ou parar, de escrevê-lo seria uma traição e um suicídio em menor escala; ele é algo que eu “não poderia deixar de fazer”.
Então, eu já disse que sou bom com bifes. Que mais? [Com o intuito de adiar ainda mais o momento em que eu respondo isso, eu talvez deva dizer do que eu fiz antes de começar a perguntar isso. Talvez eu deva analisar o que eu escrevi até hoje. Boa parte “disso” começa cronològicamente com Friedrich. E por “disso”, eu quero dizer esse blog. Antes dele, meus textos serviam a outro propósito, eu acho. antes, além dos textos para escola (de que eu sempre pude extrair prazer), eu escrevi… Gritos. É, talvez não tenha mudado muita coisa.
Eu escrevia os gritos mais racionalizados e não-gritados que eu já ouvi. Eu elaborava sistemas, debatia lógica, causas e efeitos, métodos. Assim eu me encarava. Cheguei às verdades mais frias, aquelas que hoje eu chamaria de menos verdadeiras, e sofri por não ter me permitido sofrer. Eu literalmente discursava sobre meus sentimentos, tentava fazê-lo caber numa redação de vestibular. é engraçado, é trágico. Eu dava nome: Psychological Mindstorm. Nunca tive intenção de ser bonito, escrevendo o que eu escrevia. Mas talvez tenha sido no meio daquele turbilhão de seriedade e lógica que eu descobri, fria mas verdadeiramente, a minha vontade de ser bonito. Um excerto: “…”
Depois eu fui mudando. Crescendo em direções estranhas. Não vou preencher o gap entre os meus mindstorms e meu Friedrich: basta dizer que eu cresci, que fiz muita terapia, que me apaixonei, que mudei. Mas não mudou a vontade de ser bonito. Na minha “festa irracional do nada”, a palavra-chave era festa: queria ser alegre, animado, feliz, bonito. Festas são bonitas.]
Talvez eu devesse destacar a “fluidez” do meu texto. Disseram-me “seu texto tem uma fluidez, construída”. Eu não sou fluido por natureza, mas sou capaz de construir fluidez. No mínimo. O que mais tenho capacidade de construir? Porque, com o que é “natural”, não sou muito bom. O natural, pra mim, não é bife. Talvez eu não seja o melhor de todosem descobrir algo, mas eu sou o melhor em transmitir, em reescrever, em reestruturar a informação. Sou…Didático? Sou bom como ponte: te levo para mais perto, embora eu não tenha idéia de que do que, ou de onde.
Sou bom com sistemas, com problemas, com análise, processo, e solução. Eu sou, de alguma forma assustadora, muito concentrado. Muito focado, certeiro, preciso. Se eu colocar em outras palavras, perco a vergonha de dizer: “sou cientista”.
O problema é quando isso parece me afastar da sensibilidade, da arte, do artista. Até agora só me apaixonei por artistas. É o meu desejo, de ser bonito. E não é para menos que eu me assuste ou fuja quando me olho no espelho assim: de gravata, preso, dentro de um método. Eu sou o melhor nisso, sou responsável por esse método, sou responsável pela ciência e por transmiti-la, mas odeio isso! E sinto-me hipócrita quando vejo que amo a sensibilidade, a feminilidade das coisas, a anti-ciência, a liberdade.
Viu esse último parágrafo? Ele é tão forte que (claramente) fugiu do meu controle. Precisei de vírgular, de substantivos, de exclamações. E é por isso que eu passei tanto tempo escrevendo, lendo, vendo filmes, tentando ser bonito. Porque volta e meia eu explodo, como acabei de fazer. É uma explosão de vontade de desejo de ação. É bem diferente da minha concentração (que eu mal-interpretei como calma tantas vezes).
Talvez sejam opostos, a minha explosão e minha concentração. Com raiva da segunda, eu tentei maximizar a primeira, ‘explodir o máximo possível’. Isso também gera sofrimento, porque isso também é tiranizar uma parte de si mesmo. O que sempre causa sofrimento, o que sempre é injusto.
Cara dançarinadesenhista,
não sofra pelos bifes. Permita que eu cuide deles.
Esse, como poucos textos antes, tenta não vilanizar qualquer parte de mim (dica: é difícil), tenta atingir uma harmonia maior, e, principalmente, é um dos textos mais sérios que eu já escrevi: pois eu tenho completa responsabilidade por ele. Esse texto é o meu bife. Não pretendo me envenenar.
Voltando ao controle… Eu diziada oposição apartente entre o meu “sou cientista” e o recém-descoberto “sou artista”. E então eu disse que este texto é o início de um processo “façamos as pazes”. E agora eu queria chamar a atenção pro início do texto. Ele começa confiante, uma boa introdução, que não sabia que o texto se estenderia tanto, e parece seguro afirmar que o “quê” do texto já estava definido: na verdade, parece que eu estava preparando terreno para confessá-lo.
Falei da garota desastrada, falei da minha facilidade com pequenas organizações (bifes são fáceis e expontâneos; quartos, não). Depois introduzi sorrateiro a questão da profissão, e aí tudo desmoronou no meio da melhor parte da explicação.
O que eu preciso confessar é que eu não sou escritor. Mas preciso confessar, não simplesmente atirar, como se faz com uma “verdade” fria. Ou talvez eu deva dizer: sou um escritor irresponsável. Essa é uma confissão melhor, soa mais como uma confissão. E a minha escolha – sim, a profissão, o vestibular – é uma escola responsável - “consciente'”, como eu costumava falar. Eu sou bom com responsabilidades. Desse tipo, pelo menos: as conscientizações. E é isso que eu preciso fazer; qual vestibular vai me permitir mais consciência? E esse termo é necessariamente vago.
10 de fevereiro de 2010
Esse é de ontem
Eu queria que me conhecessem assim, agora. Click: congela. Não sou bom em pintura realista com modelo. Não sou bom em narrar o que eu vejo, em pintar o que está à minha frente. Portanto, mesmo que eu pudesse fotografar esse momento, eu não poderia, mesmo em cem anos, pô-lo em palavras. Mas também, é claro, se eu pudesse ter tal fotografia, eu não sei se restaria muito motivo para escrever.
Eu prefiro, em vez de fotografias impossíveis, me fundir à obra e escrever o resultado (e também o processo). Por isso, eu tenho um pouquinho de mim fundido em cada escrita minha. Mas se eu tenho vontade de escrever sobre mim - ignorando o aparente egocentrismo -, eu me perco. Deveria eu fundir-me a mim mesmo, entregar-me completamente à mercê de mim? Mas isso é assustador.
E aí eu prefiro sempre, (repara!), entrar em alguma discussão menos poderosa, como "qual o motivo de eu estar escrevendo?" (nessa pergunta, fica bem clara a desconfiança e a resistência em aceitar-me)
O motivo de eu estar escrevendo agora, é pessoal: quero reler depois e entrar em contato com essa parte de mim que tanto me apraz. Também tenho, na minha não-pequena vaidade, uma esperança e um desejo, ao revelar-me tão sedutoramente: quero ser apreciado, degustado, decifrado - ou, no mínimo, visto, conhecido. Tenho o fetiche de ser melhor conhecido por outro, do que por mim.
Essas discussões não são singelas, mas tampouco são relevantes. Eu estava no alto de meu décimo-quinto antar e eu escrevia um poema de amor. Era algo assim:
da alegria de um momento que não faz sentido,
resta algo sentido
da tempestade que ameaça cair à minha frente,
resta a ameaça
Dos trovões, que lembram Beethoven,
não resta nem a música nem as nuvens:
resta o medo. E a delícia de senti-lo.
De repente, quando tudo isso se junta
[num ferver da barriga,
sinto a alegria, a tempestade, a delícia.
Fecho os olhos, ouvindo os silêncios que cadenciam os barulhos,
transformando-os em música.
E nessa hora, talvez, reste Beethoven, mas só um pouquinho
Nessa hora, o que resta é o sono.
E a certeza de que, embora nada faça sentido,
tudo que ha é sentido.
E de repente eu sinto tudo e caio minha cabeça no travesseiro,
pois sei que durmo bem, e feliz, pois amanhã, tenho um encontro contigo,
e mal posso esperar.
É esse o sonho, feito de alegria, tempestades e beethoven, que eu quero escrever.
E esse é o sonho que eu faço poesia.
E aí eu digo, uma "última" vez:
boa noite, meu amor. Dorme bem, que eu acordo melhor.