19 de abril de 2018

Dois tipos de compaixão

Uma que torna co-passiva e outra que torna co-apaixonada. Saiba de qual fugir!

18 de abril de 2018

Metáfora para a modernidade

Nós descobrimos o refino do açúcar antes da anestesia odontológica. Cariar-se era inexorável.

Avante

Alguns remédios ardem para curar. Algumas dores gritam o mais forte quando estão prestes a deixar seu hospedeiro.

Um mito a menos

Não existe nenhuma relação necessária entre sofrimento e inteligência. Desfazer-se dele não acarreta nenhuma diminuição nela.

16 de abril de 2018

Cultivando fracassos menos dolorosos

É nosso imperativo eliminar sofrimento desnecessário. Ao mesmo tempo não somos tão burros quanto os ingleses ao ponto de achar que todo sofrimento se deve jogar fora ou amenizar. Há-os necessários como à combustão o oxigênio. Fracassar é uma função de tentar. E queremos tentar. Não é completamente errado (embora seja impreciso) dizer que desejamos os fracassos. Mas queremo-los edificantes. Causas de aprendizado. Apequenamo-nos — como mola que se comprime — para engrandecer. É fundamental que não atolemos quando caímos. Há lama à nossa volta, mas isso não faz de nós lama. Temos que aprender o bem fracassar. E o que é isso? Oras, se eu soubesse não doeria tanto!

13 de abril de 2018

Estender-se

A yoga nos mostra que estender-se o corpo é, em geral, uma virtude. Traz alívio, espaço, relaxamento e circulação. 

Busquemos uma filosofia que nos traga semelhantes benefícios à mente. Perguntemo-nos: como ter mais alívio (espaço, relaxamento e circulação) mental? O que significa uma mente estendida? Quais são os nossos órgãos internos do pensamento? A espinha dorsal da nossa consciência? Encontremos esses objetos e presenteemo-lhes nossa inteligência, emprestando-lhes força e flexibilidade, para que cresçamos esbeltos e alegres.

Amigos astronautas

Não vos preocupeis: esse monoteísmo tacanho de agora não é apenas estranho à nossa natureza, mas também à nossa história. Não há de durar mais do que alguns milênios. O futuro da humanidade, seu verdadeiro futuro, está garantido. Para nós não há outro caminho: ou viramos todos ateus, ou viramos todos deuses.

11 de abril de 2018

Desvirtudes

Virtudes passivas não são virtudes. Aguentar e sofrer são fatos, não atos. Ter sido derrotado não é motivo de vergonha, mas tampouco de orgulho. Vencer não deveria ser mal visto.

10 de abril de 2018

Ufa!

Vocês estão me entendendo? Para ser grande, e integralmente grande, são necessárias recaídas na pequenez — e nesse contexto isso significa: recaídas na animalidade. A grandeza da alma, como toda outra, precisa ser administrada. Contrastada com o seu oposto, investida, trocada, usada. Nosso século precisa atualizar a metáfora da guerra: trata-se de guerra econômica. De tornar valiosos os nossos recursos, de encontrar curvas óptimas de desempenho e satisfação, de criar tantas rotas comerciais entre nossos múltiplos eus que entre eles se estabeleça tão forte interdependência que se não possa sequer conceber algo como aniquilação bélica. Intra-deterrência mútua, isto é: paz por meio do excesso de força. À medida que a inteligência arma suas ogivas nucleares, nossa animalidade espreita: espere retaliação. O homem do futuro não é santo no sentido tradicional: não é apenas um homem melhor do que todos os homens em ser homem, mas também supremamente animal. O universo é feito do contraste entre a escuridão primordial e a insistência épica das explosões estelares: também nós seremos iluminação e breu, ascenção e queda, animalesca moralidade e ânima imoral, intensamente adultos e jovialmente infantis. O infinito se conquista por meio da compreensão da escassez. 

O problema do cansaço

Nossos militares, puritanos, CDFs e operários — por que possuem eles uma moral tão crua? Por que esse arquétipo sequer existe? Todo guerreiro da disciplina precisa ceder em algum ponto: no caso desses, cuja aptidão se voltou para fora, o interior costuma deixar a desejar. Não se trata de crítica. O filósofo e o artista os invejam — e sequer o fazem secretamente. Acontece que nossa atenção, nossa força vital, é limitada. Um problema econômico: algo tem que ceder, algum preço tem que cair. O filósofo um dia tentou trabalhar "como pessoa normal" e não aguentou o esforço: não cabia nele a grandeza de sua alma e mais as necessidades mundanas da organização, repetição e dedicação. Trabalhar é excruciante e exaustivo: tanto para dentro quanto para fora. Por isso a maioria de nós escolhe apenas um — não tem opção senão escolher apenas um. Pensar cansa. O córtex pré-frontal, sem o qual não haveria filosofia, precisou de centenas de milhares de gerações para que se assentasse em um formato sobrevivente. Houve um gasto enorme de energia por parte da natureza em torná-lo o que é — e o quanto não se abdicou em seu nome! Não só "a natureza" in abstractio, meus caros: mas incontáveis indivíduos morreram e continuam a morrer em nome dessa fugaz invenção do cosmos, essa máquina de inteligir que nós nos tornamos. Gerações trabalham num filósofo; séculos de entropia, aniquilação, morte, caos e violência. Não subestimemos o que a inteligência nos requer sacrificar! Compreendamos dos nossos espíritos superiores o burnout moral. 

Não tão básico assim

A fórmula pela qual temos vivido: pensar pela manhã, trabalhar à tarde, ler de noite. Ela tem muitos pré-requisitos. A começar pela distinção entre pensar e trabalhar. Àqueles para quem pensar (ou ler) é um esforço e um estorvo ela não se aplica. Entende? Até mesmo nossos mais simples provérbios exigem uma certa harmonia entre cognição e sabedoria. Uma ou outra sozinha não basta.

Em busca de um profeta

Mas quem consegue, no nosso mundo de pressa, não fazer nada? Quem teria a audácia, a imoralidade, a doença necessárias para tal feitio? Algum de nós? Ou alguém que ainda não veio? 

Para que fazer faça sentido

É preciso conseguir não fazer nada. O medo da improdutividade é medo também. E, para ser livre, o medo não pode ser a causa de nossas ações — — — nem de nossas inações. 

9 de abril de 2018

Bons fajutos

Procure por virtudes cuja instanciação dispensa esforço: eis os fracos.

8 de abril de 2018

Canção do perdão

Afaga-te por dentro pra que não recaias em ti. Entendes? Pode-se cair para dentro. Há que se ter muito cuidado com os abismos internos. Escolhe com atenção e carinho as canções que te acompanharão, porque só elas têm poder na solidão. Só a música atinge, só ela. Se algo outro dá igual consolo é só porque conseguiu tocar música no nosso interior. Destensiona os dedos que sangram. Vibra de tristeza — sem tornar mais triste ainda. No sol de tu'alma te desmofa. Abrange o doloroso como quem abraça um gigante: sem medo, sem tornar ainda maior do que já é. Perdoa enquanto choras. Afaga-te por dentro pra que não recaias em ti. 

4 de abril de 2018

Pensar para

Os pensamentos não são apenas a força resultante de um determinado arranjo de propriedades mentais (que incluem vigor cognitivo, obstinação lógica, ensidobramento paciente, endoclareza e trabalho); são também componentes causativos de estados da mente. O espírito é uma roda, não uma montanha. Isso significa que a qualidade do pensar influencia o nosso bem ser mental. Assim como a saúde de nossas juntas depende de como os membros se movem — e não se movem —, assim também é a nossa saúde mental. Pensar não é um fim, como querem os filósofos, mas meio de se viver. Toda filosofia até aqui foi apenas tosca medicina — em parte porque não sabia que era medicina. Quanto e como se deve pensar, a importância de um mastigar calmo das proposições, a distinção entre bálsamo e veneno da razão — ora, o valor dos pensamentos, para o espírito, é mesmo nutricional! Nossa tarefa é: aprender a se alimentar.

27 de março de 2018

Fazer com!

O que pode o cansado? Ora, pode ainda descansar, e nisso não se é impotente. Existem descansos piores e melhores — há aí um processo a ser otimizado, isto é, uma oportunidade para o intelecto. Onde se pode estabelecer uma hierarquia desejável, onde o bom pode ser discriminado do ruim, à capacidade de fazer um e não o outro se chama inteligência. Pergunta-te não o que farias caso tivesses mais energia, mas o que farias caso tivesses mais inteligência! Não presumas que sabes o fim e te faltam os meios, mas que os fins estão em função dos meios e para transformar a relação dos dois dispomos do nosso espirito. Aos meios chama-se realidade; à capacidade de transformar, inteligência; e aos fins, vida. Percebes?! A vida não é o que a realidade fez conosco, mas o que fazemos com ela.

26 de março de 2018

Civilization

Do not wait to think till the mind is clear; make it clear by thinking.

Não antecipar

Nosso sangue é mais frio do que o supomos. Evoluímos com a expectativa de que o sol nascesse toda manhã. Sabemos que não é verdade, que um dia ele se há de apagar, mas até lá: banhemo-nos. 

À tragédia do futuro opõe-se o doce gosto do presente. Para nós não há diferença entre o último sopro e o próximo: coexistem no eterno presente. Nós —— respiramos.

24 de março de 2018

Diário de emoções

"Durante meu período no Pinel, pediram-me que anotasse todas as vezes que eu sentia raiva. Isso fez com que minha auto-percepção diante dela aumentasse e, assim, eu me tornasse capaz de lhe reagir.  Aprendi que a liberdade pré-requer uma série de coisas, incluindo a capacidade de perceber os próprios estados mentais antes que eles "tomem conta": pois não somos os nossos estados mentais, mas o que se lhes encontra debaixo do véu, por assim dizer — eu não era a raiva, mas aquilo que era por ela preenchido, possuído, dominado. Aristóteles não estava tão errado assim ao afirmar que cada substância possuía um substrato: somo-lo mais que aos nossos sentimentos, pelo menos.

Todos esses aprendizados, enfim, ajudaram-me a ser mais do que a minha raiva. Ocorreu portanto uma superação de mim mesmo. E hoje a raiva, se não me é doce, tampouco é amarga."

"Talvez devêssemos aplicar a mesma dedicação, o mesmo espírito, nas nossas outras emoções. Talvez toda a vida até aqui tenha sido senão engatinhar diante de nosso propósito divino, que é correr."

"De fato, não me surpreenderia se algum de nós, além de correr, voasse."

Para a cura um treino

É preciso acumular experiências de convalescença. Prescrutá-las, esmiuçá-las, exauri-las, compreendê-las! como se nossa vida dependesse disso — pois depende. Sejamos não apenas os pacientes, mas também os médicos de nós mesmos! (e afinal também os professores desses médicos). E apliquemos aqui uma medicina cuidadosa, intensamente cinzenta, demorada, paciente, excruciante: é aqui que devemos ser mais cientistas.

Descubramos de nossa biologia a verdade.

19 de março de 2018

Proposições teístas

Em todas as partes está contido o princípio. Em toda parte está Ele. 

O infinito não é obstáculo à nossa compreensão do todo. Assim como o balão toca tanto o ar do seu exterior quanto o do seu interior, também nós tocamos tanto o divino quanto o terreno. 

Na nossa ontologia, não somos objetos clássicos: somos propriedades relacionais.

Não há variáveis independentes na função do universo.

Definição arrogante

A meditação cujo objeto é o corpo chama-se yoga.

Para a força

Duas mães: intensidade e sutileza.
Dois pais: foco e relaxamento.

15 de março de 2018

Menos sério!

Escreve abobrinhas porque o mundo precisa de mais legumes.

A favor da bobeira criativa

Quem manipula palavras frequentemente se espanta com a capacidade de escrever o que não entende. Terá se espantado o primeiro pintor que desenhou o que não existe? Acreditamos ainda que os sonhos representam a realidade? Quantos pensamentos originais não se resumem à comutação "irreal" de fragmentos doutramaneira lógicos?

O mundo não está perproduzido, não está perfeito. Há ainda espaço para a criação.

Pelas beiradas

A questão de "por que se deve ter uma boa mente?" não é trivial, mas normativa. Encerra um estilo de vida que precisa ser comprado e defendido. A saúde, como toda virtude, nao justifica a si mesma: precisa ser incentivada. Os moralistas deste século parecem ter se esquecido dessa lição fundamental.

Querer parar

O ódio que sentia de si mesmo chegava-lhe à mente em língua estrangeira. Infelizmente era bilíngüe. Todo aprendizado inaugura formas novas de sofrer.

14 de março de 2018

Pensar com pincéis

Hoje já se fala da vida como obra de arte que compomos. Um avanço! Haverá dia em que consideraremos a vida como um pensamento que se cultiva. Mas até lá precisaremos aprender muito com os jardineiros e as crianças. (Até hoje, por exemplo, a maioria das pessoas crê que os pensamentos chegam à mente, como se pensar fosse um tipo de espera!).

O mundo não é de Deus o cavalete, mas a mente.

Vidas despensadas

A tragédia não está tanto em ter poucas horas disponíveis para o pensamento, mas em sistemática e intencionalmente remover o pensamento das horas de que dispomos. É preferível uma sociedade em que o pensamento tem direito a quinze calmos minutos (ainda que se trabalhe o resto do dia inteiro!) do que uma utópica sociedade de lazeres em que a vigília é toda divertida para longe do pensar. A esse sonho absurdo de nossa adolescência pré-envelhecida — cuja imaginação só comporta uma espécie de aposentadoria de welfare — devemos opor todo o nosso desprezo e nojo. Precisamos imaginar envelhecimentos melhores! Morramos cedo se necessário, mas não deixemos para pensar depois.

8 de março de 2018

Aviso contra a grandeza — e a pequenez

Suas palavras eram tão grandes quanto seu cavalete.

7 de março de 2018

Endo-mentando-se

Não tanto de desenvolver a capacidade, pois que ela já mora em nós, mas de tornar-se-lhe digno. Melhor dizendo: de afastar de nós toda limitação extrânea que nos foi um dia imposta e em seguida aceita. Isso significa retornar à fase em que não as aceitávamos, voltar a se identificar com a resistência, isto é, com aquilo que sofreu uma objeção, que foi obstado, parar de aceitar a limitação como natural e digna e "boa". O que nos limita nos mata. Reviver significa deslimitar. Afastar a crueldade com que nos diminuíram: ter gentileza para crescer.

6 de março de 2018

Foreign advice

Fear not slow progress nor false starts. Embrace stillness; avoid stoppage.

26 de fevereiro de 2018

Querido diário

Eu realmente não deveria ter comido tanta paçoca.

21 de fevereiro de 2018

No julgamento

Toda dor será... ridicularizada.

Solve et coagula

Desmancha e apodrece.

Apagando

De dor e de desgraça são feitas as tempestades da solidão. A enchente que vem apaga todas as labaredas do espírito. Apenas o breu sobrevive. Mas logo ele também ruirá. Apenas o silêncio sobrevive. Mas logo ele também gritará.

Ameaça interna

Abertura requer vacinas. Força é feita de coesão.

Amortecido

“Ele foi amortecido” — isto é: a Morte o tocou.

A escanteio

Quem se acostuma a ficar de lado periga definhar. Não somos plantas: precisamos ir até nossa água. A inação nos secará.

Eclipse da alma

Para tapar a luz requer-se objeto muito menor que a fonte luminosa e também muito menor que o alvo iluminado. Um simples galho é capaz de tapar um sol. Nós, seres de luz, precisamos de múltiplas lâmpadas, para reduzir a chance de sermos obscurecidos.

Tempestade em copo d’água

Aquele ali é ainda mais sozinho: sequer tem a própria companhia. De si mesmo é abandonado.

Murmúrio afogado

Gritar é uma capacidade. Quem não consegue se fazer perceber corre perigo de assozinhar-se permanentemente.

Desafiado, desapontado

Sem dentes — nem dentaduras.

20 de fevereiro de 2018

Auto-reptilização

Sozinho, congelou no próprio frio.

Inadotável

Nenhum pai o quereria. Não prestava sequer para odiar.

Sentimento-imóvel

Tristeza sabor inércia.

Ensimesmado

Merecia abandono e indiferença: fez por onde.

7 de fevereiro de 2018

Ódio fraternal

Fazer espetáculo da própria tristeza — isso é coisa de poetinha miserável!. Nós, filósofos, fazemos da nossa tristeza teoria. Não a transformamos em objeto para ser fruído, mas em lente com que se frui. Nada escapa às nossas distorções; tudo, tudo há de ser maculado pela tragédia das nossas entranhas. Com olhos sedentos de vingança invocamos nossa força como fosse elemento primordial de Gaia. Conhecemos nosso poder e nossa capacidade de persuasão: há séculos o mundo segue nossas pegadas tristes, pois o único ser mais burro que o filósofo é — — o povo. "Aquele que segue". Ratos de nossas flautas!

Ah, se ao menos soubéssemos usar nossas flautas para compor! mas não. Fungos que somos, não fazemos senão decompor. Somos os responsáveis por, pouco a pouco, destruir cada pedacinho luminoso da alma humana. Nosso "projeto"? Morte sublimada. Para que a humanidade floresça,

Nós, filósofos, precisamos morrer.

5 de fevereiro de 2018

(3) Trocando em miúdos

Liberdade maior exige criatividade maior.

Era da insuficiência

Deve-se acordar com um propósito. Banana Pancakes é um sonho juvenil de nossa geração presa em escritórios. Mas a fuga que não se torna propósito de vida — como a de um encarcerado ou de um escravo — só ajuda a manter preso. A liberdade é um valor instrumental. Ideia útil enquanto não a temos; uma vez atingida, torna-se mero cimento sobre o qual nossos pés se hão de equilibrar. Mas e nossos olhos — — enxergam o quê? Para onde se volta nosso pescoço? Descurvemos o coração, queridos amigos, e encontremos livros que de tão bons nos façam acordar com um sorriso na cara. O quê?, — não existem? Ora, mais um motivo para despertarmos: é hora de escrevê-los!

5 de janeiro de 2018

Analogia confusa

Fale de si na terceira pessoa — — do plural.

As partes de que eu sou feito não são eu. Assim como as infiltrações na parede de uma casa não são a casa.

Às vezes esse é o único consolo que temos. Uma parte de nós foi infiltrada. Mas nossa casa tem também uma lareira — aqueçamo-nos diante dela, ainda que as infiltrações requeiram cuidados.

Sim, dói. E há desprezo e auto-desprezo. Mas lembra: há também amor e amor-próprio. Encontra o carvão e espera o inverno passar.

4 de janeiro de 2018

Pêndulos

Lar e corpo: de onde se sai, para onde se volta.

7 de dezembro de 2017

5 de dezembro de 2017

Tirar sangue de pedra

Repara: da pedra nada sai. São sempre os teus dedos que sangram. É ti quem sangra. Perguntas-me "como viver com o coração destroçado?". Ora, a vida e o destroçamento são uma e mesma coisa. Teu erro está em, por clichê que pareça, separar teu coração da vida, como se ela fosse objeto dele. Não: a vida é o que pulsa, a vida é o pulsar.

Os deprimidos e todos os tristes — e neste mundo nós somos maioria — têm diante de si o desafio de respirar com o peito frio; amar com a alma cristalizada (isto é: frágil e dura); sustentar de pé um corpo mumificado, que deseja a imobilidade como o leproso deseja a solidão; nosso coração foi tornado pedra! — e dele a vida nos exige tirar sangue. Insana crueldade.

Mas o foco, meus amigos, não é o sangue, muito menos a pedra. É o tirar. Não me importo que exageres, que sofras, que grites. Esperneia o quanto precisares. Marcha feito imbecil à flama do apocalipse, entrega-te à besta do Tédio, te fode. Do outro lado encontrarás um espelho — — e, enquanto houver reflexão, há luz.

Para tirar sangue de pedra, basta apertá-la com toda a tua força. Deseja ardentemente, até não aguentar (essa parte é fundamental), e então desiste — tão ardentemente quanto. Os violonistas só tiram sons das cordas porque calejaram suficientemente os dedos. De nosso intensamento virá o suco da nossa vida.

1 de dezembro de 2017

Mais outra definição

Arte é o que cria pontes entre a sensibilidade e a cognição.

Morrer

Do choro nascem duas coisas: a poesia e a saúde. Nossos olhos molhados primeiro turvam, mas em seguida, se sobrevivermos, purificam. Nosso sal dá gosto ao que antes era impalatável. Nossa morte é sempre adubo. De nós mesmos não somos a planta — somos o solo. Deixemos nossas folhas cair. Pereçamos. Ajoelhemo-nos, choremos, caiamos.

Se sobrevivermos, voltamos mais fortes. Se morrermos, os outros herdarão nossa força. Permanecer vivos na fraqueza e na secura — essa é nossa única proibição.

Meu sangue é o teu sangue. Somos todos seiva do mundo.

Contra a piedade

Nossa tarefa enquanto filósofos é dizer as coisas mais terríveis que já se ouviu na Terra — — sem com isso destruir.

Essas coisas terríveis, nós as chamamos de verdades.

E talvez fosse mais exato dizer que destruímos sim: destruímos os alicerces da mentira, da fragilidade e da imobilidade.

Heráclito não descreveu o mundo quando disse que era feito de fogo. Era um apelo, para nós, sempre para nós: fogo. Sejamos fogo!

20 de novembro de 2017

Dialogo de meia idade à beira da cama

Com o olhar de quem conheceu intimamente a solidão. Assim foi que nos cruzamos, ainda que não soubéssemos na época. Desejávamos, ah como desejamos, companhia para nossa alma tão torturada, tão calejada — de quê? Mal o sabíamos nós, mas queríamos que nos advinhassem. A felicidade que juntos sentimos quase destruiu tudo, porque a nossa alma, afinal, se assentava sobre a tristeza. Quando foi que optamos pela alegria? Quando foi que desistimos de fazer silêncio? Quando foi que paramos de condenar os nossos encostos e passamos a tratá-los como vivos, como iguais? Quando foi que nos consideramos vivos? Quando foi que paramos de nos vingar e assumimos a responsabilidade pelo nosso destino, por nossa felicidade? Quando foi que abdicamos da culpa e da vergonha e, sim, mesmo da raiva, para ir além? De onde veio esse ímpeto, meu amor? Por que parecemos tão pouco numerosos? Já sabemos que não somos tão raros quanto julgávamos na adolescência. Já nos descobrimos banais. E, no entanto, tu pareces tão rara. Teríamos conseguido arrancar das fadas da nossa puberdade sofrida as asas de fogo com as quais sonhávamos em ascender? Terá nossa imaginação tão fértil cavado um furo na realidade, teremos tocado o fio do nosso porvir? Como — não era tudo vã juventude? Estaremos nós senis?

Não sei, meu bem. Acho que estamos apenas cansados.

16 de novembro de 2017

Rezar pelo aprendizado

Pai nosso que moras em mim,
Expande-me o peito para que eu possa receber,
Ainda quanto pareçam um punhal,
As palavras que me dilaceram a alma.
Que meu coração cresça com cada vão insulto
Como se das rachaduras viesse a nascer
Uma flor.

Que a humildade ilumine minha força
Tanto quanto o véu ilumina a Justiça.
Que com isso eu não me embote nem me iniba,
Mas tão-somente tempere com fractais de consciência
Meus atos insuficientemente ponderados.

Que a gentileza, comigo e com os outros,
Tenha por substância o fio do meu intelecto
Com o qual eu corto, rumo às profundezas de nós mesmos,
Os arbustos que obscurecem a nossa visão.

E que o que antes era intenso e cortante
Se sinta agora
Como torniquete em volta do espírito,
Suavemente a comprimi-lo
Para que ele não se desfaleça
Diante da dor.

7 de novembro de 2017

Gracioso para fora

A crueldade proposital quase sempre machuca menos que a incidental. Perdoamos com mais facilidade o que é feito de forma consciente, e inclusive malvada, porque aí podemos discordar e amaldiçoar. De semelhante luxo não dispomos quando, por fraqueza, o outro nos é cruel sem pretender.

One must practice mindful cruelty. Da mesma forma que um mau texto pode nos tornar melhores escritores, assim também a intimidade com nosso veneno pode nos tornar balsâmicos.

18 de outubro de 2017

Música como alongamento da alma

Uma melodia suficientemente bela afeta a fisiologia da alma. O mundo se desencolhe. A cabeça voa a alguns milímetros do pescoço. O coração pede mais espaço, para respirar confortável. Com as pernas pulamos, chutamos ou aterramo-nos. Não pense que se trata de ontologia mística ou de metáfora. A música expande a caixa torácica, torna longo o pescoço, espraia os dedos, faz dançar as coxas e a cintura. Essas alterações possuem realidade física, fisiológica, pois a alma mora no corpo e uma expansão significativa nela — — — precisa acatar uma expansão correspondente nele. Em tempos de doença do corpo, o atleta deve abrir os ouvidos e escutar música. Corpo que se expande sem correspondência no tamanho da alma — — — facilmente desinfla. Por último: uma composição poderosa demais fatiga e destrói a alma da mesma forma que um exercício além da capacidade do praticante lhe danifica os músculos. Exercitemo-nos com prudência.

17 de setembro de 2017

Sol da alma

Sem solidão, o artista morre.

De feitiços e feiticeiros

Má consciência e criatividade: é assim que um pensador consegue manter vivo (e sempre renovado) seu auto-desprezo. 

16 de setembro de 2017

Mais um bobo preconceito de filósofo

O que é exótico chicoteia o pensamento, obrigando-o a agir. Refletimos com mais liberdade — e portanto mais dificuldade — sobre os nossos hábitos mais arraigados. Ser um estranho em nossa própria terra: isso devemos cultivar. Filosofar é falar a língua-mãe com sotaque estrangeiro.

17 de julho de 2017

O Valete e a Cortesã

Existem dois antídotos para a inquietude e nenhum deles é o amor. Dela nos livramos quando rimos de desprezo ou quando choramos de emoção. Então, se o amanhã te amedronta, vai e te acha um idiota do qual rir; percebe toda a leveza e desinteligência de que o mundo é feito, ri de todos os acasos e de todas as incompetências que te trouxeram até aqui: descansa sabendo que o futuro é acima de tudo bobo. O segundo antídoto requer em nós a grandiloqüência cavernosa da alma: nosso choro deverá ser o eco do das deusas que perderam o filho. Inconsoláveis, desesperançosos, muito além da vida e de todo bem e mal devemos despejar nossas lágrimas. Os poetas têm a fama de tristes porque entre eles é mais comum esse segundo tipo de cura, a cura através da tragédia. Careciam de enormes consolos, esses espíritos afiados: suas palavras são o presente de um convalescente — presente que herdamos. Em sua homenagem, engrandecemo-nos e, benzidos da maternalidade cósmica, renascemos de olhos ainda mais abertos.

11 de julho de 2017

Dignidade salgada

Viram-me chorar e chamaram-me de fraco. Maus compreendedores. Do meu choro vem a minha força. Dele eu não abro mão.

Músculo lacrimejoso

As janelas da alma choram. A musculação do coração é o espasmo. De medo e dor a carne incha. Poesia nenhuma desfaz a necrose da alegria. Nenhum carinho acolhe as ruínas que somos. Afogou-se em mar de pálpebra.

Calvinistas entre os hebreus

Nada machuca mais o cansado do que o pouco caso de seu esforço. Os maiores anti-racistas são aqueles que odeiam a naturalização das próprias conquistas. Querem se acreditar criadores de seus próprios eus.

O filósofo triste adverte: não escolhemos quem somos.

Ego impotente

Desejaríamos que a força fosse uma escolha.

Mas não. Não se pode escolher não ser fraco.

21 de junho de 2017

Consolo da espécie

Todo sistema com capacidade de cura é potencialmente imortal.

Afetos montanhosos

Os gigantes são tristes e solitários.

Dois-em-um

Para criar o que quer que seja, o artista precisa se duplicar. Os seres comuns vivem tão-somente no mundo da afetação, receptores passivos de tudo quanto Deus lhes dá. Os artistas não escapam desse mundo, e afinal é com o intuito de afetar que criam, mas habitam também o reino de deus, um submundo da consciência, a partir de onde pressentem (isto é: sentem sem sentir) o que virá a compor sua obra. Eles não são personagens dos seus romances, nem mesmo quando se trata de autobiografia, mas algo distinto, nublado, sélfi-distante. Esse exercício — de ser além do que se é, de colocar-se do outro lado do cavalete da existência — aproxima os artistas do divino e os imbue de algumas ferramentas sentimentais que dariam inveja a qualquer filósofo (que nada mais é do que um artista doente; todo filósofo padece de sua obra). Dentro de alguns séculos, quando tivermos finalmente afetado tudo, criaremos "terapias" para emular esse devir-deus dos artistas, sedentos que estaremos da nossa própria potência transmundana. Até lá, o mundo permanece dividido em duas classes: os criadores e os criados.

Constante refinar-se

Nosso primeiro eu é isto: o primeiro. Rascunho a ser superado.

Violência e sensibilidade

Garras afiadas nem sempre se opõem a olhos secos.

O eu e suas bestas

Quem tem alma simples não filosofa. Para conversar consigo é preciso ter, no mínimo, alma dupla.

Pensar sob quarentena

Não faça da impotência ideologia.

20 de maio de 2017

Elogio à pátria

Alguma língua possui subjuntivo mais belo que o português?

18 de maio de 2017

Pensamento magro

Desconfie de toda filosofia gorda. Quem para pensar precisa de polissílabos se assemelha a quem para correr precisa de muletas. Vigorous thinking is concise. Em seu habitat natural o pensamento corre, dança, salta, escala, rola — brinca! Longe dos venenos o pensamento medra elástico e esguio, rente à vida, semeado pelo prazer. Não precisa enrijecer ali onde se pede curvatura. Mantém um tônus espontâneo, desesforçado, muito diferente dessa hipertrofia compulsiva a que aspiram nossos mui corretamente chamados “acadêmicos”. Esses livros infinitos que se lê, coletâneas, enciclopédias, listas de exercícios, comentadores, bibliografias secundárias, citações referenciais — tudo isso, quando não é asquerosa gordura, é plástica. Relembremos nosso amigo Arthur, lebre entre elefantes: “Para ter lido tanto assim, deve ter pensado muito pouco!”. Contra essa excessividade do intelecto, cultivemos uma filosofia funcional — leve, definida, ágil. Nossos músculos são mais intensos que extensos. Nosso pensamento, bem como nossa prosa, é de uma finesse calistênica.

10 de maio de 2017

A felicidade tem muitos pré-requisitos

É preciso arriscar perder para ganhar.

4 de maio de 2017

Ser-para-si

As crianças são tão acostumadas a serem feitas de objeto que acabam crendo que sê-lo é nobre e digno. Assim, mostram à mãe o seu amor advinhando o que ela deseja — e fazendo o possível e o impossível para se transformarem nisso. Toda instituição aproveita esse funcionamento em algum grau: define o que é “desejável” e pune o que não é. As pessoas mais felizes são aquelas que melhor conseguem distorcer os próprios desejos para que se conformem aos desejos do Outro.

Não é assim que queremos amar. Não queremos amar objetos; não queremos amar quem se sujeita. Queremos sujeitos próprios. Queremos senhores de si. Alguém que deseje realizar os próprios desejos, não os desejos de outro alguém.

E para isso é preciso ter desejos próprios. Este é o antídoto contra essa neurose no amor. Ter desejos próprios! Não os projetar, portanto, nem na criança nem no namorado nem no aluno nem no amigo.

Não precisar de outros. Dispensá-los. Conseguiremos amar assim? Quanta imoralidade!

Queremos ser desrespeitados, pois somos poderosos mas não infalíveis. Queremos que desconfiem de nós, pois somos humanos e não tijolos institucionais. Queremos ser desobedecidos, pois não amamos o poder, apenas ojerizamos a fraqueza. Amemos a força do outro, a independência do outro, a rebeldia do outro, a transgressão do outro. Amemos, enfim, o outro — não a imagem que ele tem do nosso desejo.

Comecemos amando o outro — — — em nós.

1 de maio de 2017

Qualquer o rio que sejamos, seremos mar.

Nosso amor era de uma cronologia epistolar. Não se pode apressar o sentimento como não se pode apressar as cartas. Vêm e vão no seu próprio tempo, indiferentes às nossas ânsias e pressas. Como um rio recém-nascido: à medida que corre vai abrindo as margens que imediatamente passam a lhe dar forma. Assim é o nosso amor em relação a nós mesmos: antecede-nos e, uma vez nascido, jorra com força criando nossas margens. Não se pode apressar um rio nem à força fazê-lo nascer. Nossa tarefa é aprender a amar o nosso destino, que é ser mar. Sem pressa e disposto a tudo receber.

Coração de fênix

Os términos servem para nos lembrar que, por causa da nossa capacidade de renascer, somos imortais.

Lembre-se: quem nunca experimentou a morte não se pode dizer imortal (como uma bactéria ou um pedaço de carbono). Imortal é, antes, aquele que morre, mas continua vivo. A imortalidade é uma propriedade dos vivos. 

29 de abril de 2017

Por um Yin Yang ocidental

Não pode ser forte quem não sentiu intensamente a fraqueza. Os mestres dizem 'encontra tua força', mas isso só pode ser feito na fraqueza. O mesmo se passa com quem deseja 'encontrar a si mesmo': precisa ter se perdido primeiro, precisa estar perdido. Os desertos escondem mais tesouros do que os pastos verdes. É no deserto que as pessoas se fazem. É no frio que o fogo arde com mais vigor. É na solidão que encontramos a nossa própria companhia. Nós nos tornaremos amor quando ele nos escapar. Desejo o seguinte aprendizado para o futuro: que se invoque a solidão antes de ela se fazer presente. Que as rédeas sobre ela tenha-as tu, pois bicho nenhum é mais selvagem do que a solidão inesperada. Não a temas; ela fareja o medo e o retribui com as mordidas mais profundas que a tua alma jamais sentiu. Mestre é aquele que fez da solidão uma amiga leal. Respeitemo-la. Amemo-la. 

18 de abril de 2017

Na crise

Nada mina tanto o potencial da humanidade quanto a perspectiva de conforto no futuro.

A noção moderna de aposentadoria não é senão a secularização do julgamento final (dos bons), encontro do prometido descanso. Desejar a aposentadoria é como desejar a morte. Deixemos esses assuntos para Deus, meus caros. Quanto a nós, concentremo-nos em viver: sem anteparos nem garantias. 

6 de abril de 2017

Consolo de si para si

Quando sentir vontade de desistir, desista o mais rápido possível. Que venha — e vá — a dor, a culpa, o choro, o medo. Nos nossos tempos, a força está com aqueles que reconhecem em si as fraquezas. Sem as bajular, mas sem as desmerecer. Mora um suicida em nós. Estendamo-lhe a mão, convidemo-lo para um chá. Paradoxalmente, ele irá embora quando o deixarmos entrar. Aos poucos, por debaixo dos panos, a nossa força se cultiva e de surpresa ela nos arrancará de nós mesmos — coisas incríveis faremos quando menos esperarmos. E é sempre assim. Em silêncio nos tornamos quem somos: o grito e o choro do parto são senão a coroação de um longuíssimo processo intra-uterino. E é de surpresa que nascemos. A queda não é falta de força. O crescimento obedece ao movimento de pulsão (encolhem e expandem). Os músculos se desenvolvem no descanso. A flexibilidade vem do relaxamento. O não precede o sim. O amor — — virá.

Os mestres que queremos ser

Nós, que fomos​ criados sem pai, sofremos duplamente quando tentamos nos superar. Falta-nos a profundeza do amor de um mestre que não nos poupa; de forma que, ao se nos exigir força e enfrentamento, sentimos apenas a dor e interpretamos as ordens como raivosa vingança — pois só isto conhecemos em nosso coração. Precisamos parar de nos vingar de nossos pais, abandoná-los por completo. O pai amoroso de que carecemos, nós mesmos o seremos; e para isso precisaremos receber nossas fraquezas, vícios e defeitos com braços abertos. Mais profundamente do que nos amaram precisaremos nos amar. Acima e abaixo de toda ordem deveremos nos impor com peito aberto e criar amor ali onde não o há. As crianças medrosas que éramos seremos de novo e de novo, mas não para sempre: pois de cada choro retornamos convalescidos e fortes, cada vez mais paternais conosco, cada vez mais carinhosos e firmes — cada vez mais impetuosos e exigentes. O nosso coração nos exige a força. E, uma vez que abdiquemos de a receber do berço, de nosso Pai, uma vez que nos aceitemos órfãos de Deus — aí sim poderemos começar nossa ascensão. Matamos nossos pais para que pudéssemos parir a nós mesmos. Tornamo-nos ateus como quem se torna criminoso. E perdoados — por nós mesmos! — renascemos. Amai. Amém.

3 de abril de 2017

Perda

Senão gritos e dor, só,
Rio sem vida
Vazio e menor.

Eu.

2 de abril de 2017

Sob olhares

Um pré-requisito para quem quer dizer a verdade: conseguir aguentar ser alvo de raiva.

28 de março de 2017

O que aterra a alma

Pergunte ao cansaço:

— O que se esconde por baixo de ti?

E tome cuidado com a resposta.

23 de março de 2017

Mais páthos, menos passione

De quantas coisas padecemos porque não nos deixamos por elas afetar? Quanto do que hoje é veneno não seria bálsamo se corretamente digerido — em pequenas quantidades e antes do prazo da validade —? Quem se faz de dispensa de sentimentos, quem os tranca sem contato com o sol do corpo, quem não tem no seu arsenal bons temperos para lhes conservar a qualidade; — ora! impressiona mesmo que homem assim se torne paraíso para todos os ratos da alma? Que o seu interior se torne uma cultura de vermes e fungos? Falta-lhe o básico de uma higiene espiritual!, vive ele como um moderno sem geladeira, deixando estragar tudo aquilo que lhe deveria servir de alimento, incapaz que é de calcular de quanta comida precisará hoje. Nesses casos, em que se tem o interior todo estragado, a abstinência ascética se justifica: quanto menos contato com a podridão aí, melhor. Mas o consumo não precisa apodrecer: recuperemos com os sábios a arte de comer e a de não comer, a de digerir e a de jogar fora, a de sentir! sem adoecer.

Trocando em miúdos

Quem sente a raiva — — dela se liberta.

20 de março de 2017

Enfim, a convalescença!

Ao encasular-se, a lagarta não sabe que seu destino é tornar-se borboleta. Não é por prazer, nem por antecipação de prazer, que ela se encolhe e espera, mas porque é apenas isso que ela pode fazer, é apenas isso que ela sabe fazer. Nós também, em nossas caminhadas tortas, não fazemos mais do que aquilo que podemos e sabemos: caminhamos, seguindo o nosso destino, e trabalhamos! Dia e noite trabalhamos em nós mesmos, essa tarefa que tantas vezes parece ingrata e sombria, que a tantos olhos faz desejar a cegueira, para a qual quase nenhuma vida humana é o bastante. Ah, dia e noite trabalhamos! E, de repente — sempre de repente — a primavera chega! E os botões se abrem e nós, como dos casulos as lagartas, estendemos nossas asas para o sol e voamos! Até o mais alto céu voamos em nós mesmos, alegres como só Deus sabe: recompensados, finalmente, por toda a labuta e todo sofrimento e toda dificuldade. Assim é sempre o arrebatamento de alegria e juntos, sempre que ela vier, devemos entoar nosso cântico mais sagrado e abrir o nosso coração para a gratidão: nós estamos vivos!, exclama o nosso corpo com cada célula, solarmente aconchegado e expansivo, indescritivelmente jubilante, um todo quente e abraçável. Ah, nessas horas deve-se abraçar o mundo inteiro, encostar-lhe próximo ao peito e respirá-lo, admirá-lo, sorvê-lo para dentro de si, cultivar com ele esse calor magnífico que é feito de lágrimas do passado! Por tanto tempo trabalhaste… E finalmente tem teu presente: o teu presente. Vivo te sentes no próprio corpo e amas tudo quanto existe e já existiu. Por tanto tempo a alegria parecia-te ganhar a corrida da vida, sempre uns passos a mais adiante, sempre inalcançável, sempre muito mais rápida do que tuas cansadas pernas eram capazes de correr. Mas dia e noite trabalhaste em tuas pernas, dia e noite tornaste-te digno da alegria e da saúde, vivendo o melhor que podias, ainda quando fosse imensamente difícil, ainda quando tudo parecia longe e impossível, deste-te o teu melhor, choraste e sofreste e fracassaste, e te acolheste enfim. E finalmente o mundo te reciproca, dando-te o que ele tem de melhor. E o sol é teu, e a grama é tua, e o mar é teu, e tudo tudo tudo que tu sentes é teu, absolutamente tudo. Sem vergonha e sem medo pulas no calor da existência e desfrutas o fim desse longo inverno. O amor em ti ferve e tudo, tudo é maravilhoso. Que a memória desse mundo fantástico nunca se perca e que sirva de consolo para os momentos em que tudo parecer impossível e distante e difícil demais. É assim mesmo. Raros serão esses momentos, e frequentes serão os dias de labuta. Assim é e assim deve ser. Mas uma recompensa assim vale muitas e muitas eternidades, e gerações inteiras de trabalho encontram-se junto a ti nessa tua alegria. Canta e chora e sorri de alegria. Constrói esse teu sorriso profundo dentro de ti, esse sorriso que nunca mais te abandonará, e que te servirá de bálsamo para toda ferida, pois a vida é bálsamo e nada há de mais incrível do que a alegria. Amanhã é dia de arregaçar as mangas novamente, pois a labuta não se encerra. Vai ao sol e te banha de alegria, para voltar com ainda mais força contra todas as tristezas e apequenamentos que te esperam na vida. A vitória vem a quem desiste de ganhar; lembra que o suicida se mata por amor a uma vida inalcançada. Nós alcançaremos o inalcançável porque seremos pequenos e mesquinhos, porque desistiremos de sermos perfeitos, porque choraremos e afinal nos aceitaremos. E trilharemos longo e árduo caminho até a próxima alegria. E viveremos e viveremos. O depois de amanhã nos pertence.

Dar-se colo

Não desviar o olhar de si: acostumar-se com o frio interior. Sem se confortar, mas sem se lamentar. Chorar se necessário, mas com moderação. Recusar a comida e qualquer prazer fácil (jejuar). Cuidar de si. Só chamar o outro caso seja possível a sinceridade. Se não, aguentar (esperar). Ninar-se. Esquentar-se. Sozinho, sozinho. Desistir de ganhar da dor. Aceitar-se. Chegar mais rápido ao "fundo do poço", para que a única opção seja subir. Lembrar-se do fundo do poço, com força. Pensar na subida, pensar na montanha. Subir. Amar-se. Amar.

Poema da vitória sobre o frio

Desistir: renascer.

18 de março de 2017

Metáforas de sensibilidade e criação

O maior erro que os homens cometem ao chegar à adultice é o de considerarem-se acabados. De uma hora para outra, devido a uma mistura de cansaço e arrogância, eles param de considerar o mundo um lugar de novidades e encerram as coisas da vida em si mesmas, dando-lhes um caráter estático e compreensível. Como se fossem um arquivo somente-leitura nos computadores de Deus, já escrito e para sempre imodificável. Esquecem que os deuses somos nós e que acima de tudo o arquivo de nossas vidas encontra-se aberto à nossa frente aguardando o nosso input, sensível a tudo o que lhe fazemos. Mais: o software em que rodamos é completamente open source, apenas esperando o nosso código — nós, eternos programadores! Hackeável é o mundo nas nossas mãos e com o código da vida devemos brincar, sempre adicionando umas linhas aqui e ali, sempre tentando descobrir novas capacidades, novas eficiências, novos sentimentos, novas aventuras. Programas morrem quando paramos de desenvolvê-los: não nos transformemos em abandonware.

 
Por isso, meus amigos, é preciso retirar essa fimose da alma, desvirginá-la! O mundo está aí para ser experimentado e doído e sentido. Não nos esqueçamos de como é ler algo novo, assistir um filme sem esperar julgá-lo, ouvir uma canção com o peito aberto, arrematável. Nunca considerar que já se aprendeu a amar, mas permitir-se sentir o desconhecido. Construir o acervo de si mesmo -- todos os dias! De belezas e de alegrias o amanhã está prenhe: descubramo-las enfrentando-o de olhos bem abertos. Tristezas e infortúnios, bem como doenças e tragédias, nos esperam também, mas não devemos nos paralisar por medo, pois isso seria a vitória da morte. Não estamos acabados, não estamos feitos: estamos nos criando, estamos sendo.

16 de março de 2017

Uma semana de Śramaṇa

Uma semana sem forçar nada. Uma semana sem ceder à fraqueza — qualquer fraqueza. Uma semana sem desejar desejar — deseja-se, sim, mas apenas quando o desejo é espontâneo e vem da barriga. Uma semana sem correr atrás de nada, nem do amor — aliás, principalmente não do amor. Uma semana de silenciosa resignação e espera. Que os desejos precedam o eu. Enfraquecer o eu quero, fortalecer o acontece-me. Receber, receber, receber (mas sem pedir): receber o que quer que o mundo traga, e ‘mundo’ inlcui o próprio corpo. Não julgar o que receber, nem o que aparecer, nem o que se tornar. Não se apressar. Uma semana de espera. Uma semana sem analgésicos — aguentando a dor, em vez de contra ela lutar. Uma semana de jornada para dentro. Uma semana sozinho, sem maldizer a solidão. Uma semana de artes marciais e meditação. Uma semana sem compulsar. Uma semana de si mesmo.

Quero que o desamor se marque em minha pele e a solidão se deite com meu coração. Para que eu os torne parte permanente de mim e que eu nunca me esqueça do que é sentir-se sozinho, do que é sentir-se desamado. Que esses sofrimentos se tornem a minha força, e que eu sempre possa, retornando a mim, encontrar-me pronto para — eu mesmo — servir-me de companhia e me amar. Que os céus de minha alma se desnublem, para que de dentro meu espírito brilhe em galope. Para que toda vez que houver amor e houver companhia, eu não os sufoque nem prenda: e, o mais difícil, nem os deseje. Que eu não os precise desejar, porque não sou deles necessitado nem carente. Sequer me enfraquecem, pois deles tiro força. Não. Inteiro eu me quero, e que cada encontro seja uma aumentação de mim, algo que me supera e me alarga e que vai muito além de mim. Não ficar aquém de mim, não precisar de outro para me tornar eu. Dispensar o outro, para que seja doce, dispensavelmente doce, a companhia que ele oferece (assim como o chocolate, que é mais gostoso quando dele não se tem necessidade e quando a ele não se liga nenhuma promessa de amor).

Não prometer, porque a promessa é tentativa de controlar o futuro. Asseverar apenas sobre o presente, porque se é o presente. Não se estender nem para trás nem para frente, mas ocupar precisamente o espaço atual, o espírito concêntrico e cofronteirado ao corpo.

E o que fazer quando o amor não vem e a saudade aperta e a dor dói? O que fazer quando o que o mundo traz não é senão tristeza e sofrência, e o corpo pede arrego e descanso e a alma se começa a revoltar e desejar morrer? O que fazer diante de tudo isso, diante desse querer amor infinito, diante dessa carência que nos habita, nós — órfãos! — ? Nada diferente de antes, mas requerendo-se apenas em maior grau a coragem. Olhar de frente, de lado e de dentro para esses desafetos, para esses desejos, para esses quereres e dizer:

tudo bem.

Ceder. Desistir. Anuir. Aceitar. Chorar. Descansar.

Para, só então, amar.

Saudade de ser amado

O amor não se pede, apenas se dá. Os bebês pedem amor, é verdade, mas chorar pedindo amor seria para nós, adultos, uma humilhação, pois sentimos no nosso íntimo que todo pedido carrega consigo um pouco de violência, e ser amado apenas porque se pediu nos pareceria como forçar o outro a nos amar — e isso não queremos. Queremos ser amados pelo que nós somos e como que espontaneamente, sem que precisemos pedir. Mas carecemos de amor e o desejamos.

A solução histérica é continuar pedindo amor e recebê-lo em gotas insignificantes, e pedi-lo cada vez mais até que venha a frustração por não ser (e nunca é) o suficiente.

A solução deprimida é aceitar a derrota e parar de pedi-lo, para, uma vez acostumado com não o ter, acreditar que nunca o terá nem nunca o teria, até uma hora definhar.

A solução obssessivo-compulsiva é tentar encontrar em si algo de errado para nutrir a esperança de que, uma vez aquilo consertado, o amor virá — até que o cansaço vença esse ineganhável jogo de gato-e-rato.

A solução fálico-narcisista é tomá-lo à força, pois ele já se acredita (e tem que se acreditar) amável e amado, de forma que exigir o amor não é senão fazer valer um direito natural, como quem pede o troco merecido. Termina, efetivado ou não o estupro, em desilusão e impotência.

Como se sabe, nenhuma dessas soluções soluciona coisa alguma. Qual deverá ser o nosso caminho se quisermos amar e ser amados de forma saudável? Uma coisa eu sei: se amor é algo que apenas se dá, é preciso então que sejamos capazes de nós mesmos dar amor — tornarmo-nos fontes do amor de que carecemos. Talvez algo como uma solução narcisista-vaginal: narcisista, porque o movimento vai de si em direção a si mesmo; vaginal, porque se foca no recebimento, não na tomada. Talvez devamos ser um pouco histéricos e pedir amor, sim: mas pedi-lo a nós mesmos. O Deus que tudo aceita e tudo ama, essa grande e resistente ilusão da humanidade (uma criação compulsiva, diga-se), nós mesmos devemos sê-lo — com o cuidado, para o qual já alertei antes, de sermos um pouco mais responsáveis que Ele. Não queremos, afinal, amar todas as partes de nós mesmos igualmente, pois nos reservamos a capacidade e o direito de julgar e escolher. Sentir-se preenchido de amor, sem o segurar nem conter. Desistir de controlá-lo. Permitir que transborde. Que flua.

Seja lá qual for o caminho, não será fácil. Desejo a todos, a mim principalmente, paciência e coragem. Que não nos falte aquele olhar gentil, de que só nós somos capazes.

No frio, somos nós que produzimos o próprio calor. Venceremos o inverno. Durma bem, querido.

9 de março de 2017

O oposto de corpo traído

Em muitos sentidos, é preciso de mais coragem para falar das coisas banais da vida do que das grandiosas. Nas grandiosas, fala-se a língua do vento, pode-se ser sutil, tocar quem não se pretendia tocar, de modos que não se imaginava tocar. Dá-se liberdade às palavras de fazerem o que elas fazem: mover os outros, à sua maneira. Usamos metáforas e metonímias e cem mil jogos de linguagem podemos usar para tornar mais sutil ou mais vago o que dizemos, de forma que se torne mais universal e possa ter um alcance maior de leitores e de espíritos. É isso o que os escritores fazem, e não há mal algum nisso.

Mas para contar de um dia banal, para ser sincero em relação ao que há de escuro e entediante e simplório e pequeno na nossa alma, aí é preciso, também, usar de palavras escuras e entediantes e simplórias e pequenas. Para o escritor, bicho orgulhoso que é, isso é assustador. Suas palavras grandiosas são seu escudo e usar palavras simples é para ele como tirar as roupas. Vulnerável fica, envergonhado, perde a graça do movimento, age como criança terrivelmente embaraçada no vestuário errado. Tudo parece pecado e cada passo parece ser vigiado e a qualquer momento pressente-se uma punição — de onde? não se sabe. Mas essa consciência aguda demais do tempo presente, esse não-conseguir-sair-da-própria-vergonha é a pior prisão. Por isso devemos admirar os escritores que escrevem simples. Não que a simplicidade seja a virtude máxima, nem a única, mas devemos admirar aqueles que se dão à coragem de escrever sobre as coisas simples, nus a enfrentar a vergonha.

— E o que se te passou hoje de tão banal e escuro que precisas de dois parágrafos inteiros apenas para prefaciá-lo? — pergunta o veterano com olhos gentis, mas ainda um pouco perdidos.

— Hoje eu retomei uma escuridão de tempos passados, que deveriam estar remotos. Sim, eu sei, eu sei, eu sei que essas coisas não simplesmente passam e que todos os tempos estão sempre vivos ao mesmo tempo, eu também fiz as mesmas lições que você, não é desses consolos simples que preciso nesse momento. Preciso contar a minha banalidade, diretamente e sem rodeios, sem buscar nela uma lição, sem tentar fazer desse momento uma aprendizagem ou trampolim.

— Pois bem. Continua, então.

— Nada é novo, como disse, tudo é repetição, tudo era conhecido. Desde sábado passado, quando voltei do Pilates, lembra-te de que eu tive um mau dia e como que me deitei no banho morno das minhas compulsões, retornando em parte aos meus tempos de deprimido?

— Sim, claro. Disseste que se sentia sem energia nem motivação, que nada tinhas vontade de fazer senão talvez de jogar um videogame compulsivo, desses em que se pode ver os números aumentando, e comer, é claro: falaste bastante sobre como comeste compulsivamente, devorando tudo que encontravas, comias sem respeitar o apetite e sem se dar tempo para sentir o gosto das coisas. Foi nessa noite, creio, que tu pegaste um pedaço enorme de queijo, desses que dariam para umas 30 torradas, e comeste-o, de pedaço em pedaço, como quem come a uma maçã. Não é de espantar essas espinhas em teu rosto…

— Sim, minhas espinhas. Bom você ter falado nelas, porque creio serem importantes. Como tenho comido muito mal, era natural de se esperar que voltassem assim. Não imaginei, no entanto, que seriam tantas e tão feias. Senti-me adolescente de novo, e tu sabes quais sentimentos tenho em relação à minha adolescência.

— Sei que te sentias feio, inadequado e pouco vivido. Desinteressante, arrogante e frio. Um verdadeiro contraste com o que diziam tuas cartas e as de teus professores…

— Quem eu era de fato não importa agora. Importa como eu me via, a imagem que tinha de mim mesmo. E essa era a pior de todas. Sentia-me extremamente feio, e ao mesmo tempo não podia admitir a mim mesmo que sentia isso, porque eu condenava de antemão todo julgamento que visava à beleza. Aprendi que a beleza era errado e, de certa forma, cheguei inclusive a me orgulhar de ser feio, porque era um pecado a menos que eu tinha. Uma grande violência contra mim isso, pois a verdade, que descobri depois nas letras, era que eu gostava sim da beleza, e muito.

— Sim, e que se nota nos teus belos t—

— Não me bajules! — interrompi. — Eu me sentia feio e inadequado e não apenas “pouco vivido”: eu sentia que nunca iria viver plenamente. Eu desistira. A vida se tornara vazio em que vez ou outra se mergulhava em busca de algum prazer que desse sustento ao dia, à semana. Mas esperança real, fé em si mesmo e no amanhã? Nada disso havia.

— Havia sim, quando lias um texto bonito. Ou quando um filme te tocava a alma.

— Sim… tens razão. Mas os meus dias banais, é deles que estou falando, os meus dias banais passavam-se vazios, escuros. Procurei preencher alguns deles com leituras, com encontros vãos, e tive algum sucesso. Pensei algumas coisas, desenvolvi a alma e o pensamento, tornei-me internamente mais potente (até certa medida), mas meu cotidiano ainda era sombrio. Como se eu passasse os dias inteiros como que dormindo, vivendo num discreto piloto automático, sem assumir responsabilidade pela minha vida, sem ser com nenhuma intensidade.

— Como aquele filme do Adam Sandler, né?

—…

— Qual é? Não estamos aqui nos abrindo à vergonha e à banalidade? Pondo abaixo nossos escudos, permitindo-nos o vergonhoso, o vil, o baixo?

— Sim, mais uma vez tens razão. Como aquele filme do Adam Sandler, sim, que muito me fez chorar. Apenas a arte me chacoalhava desse estado de automatismo. Apenas a arte e as boas conversas com amigos (que eram raras).

— Mas voltemos a falar de tuas espinhas. Disseste que eram importantes.

— Importantes de forma banal, sim, mas importantes. É que essa sensação que eu carregava na adolescência — de não ser bonito, de não ser adequado, de não saber viver, de não ter futuro, de não ter esperança — ela não foi criada na adolescência. É ainda mais antiga. Na adolescência foram as espinhas, as faltas de relacionamento, a falta de jeito nas danças, o desconforto com o álcool, esses eram só os elementos à disposição para que viessem à luz conflitos bem mais anteriores: de que eu não me sentia amável, de que me sentia covarde, de que eu não merecia a felicidade. Em particular, também, foi na adolescência que essas questões foram mais explicitamente sexualizadas: eu não merecia o toque de uma mulher, eu não tinha a coragem de me relacionar com uma mulher, eu não merecia a felicidade no amor.

Não exageras um pouco, ao fazer essa exegese toda da tua adolescência?

— Sim, talvez, mas não me incomodo. Vou chegar a algum lugar.

— Prossegue, então.

— Acontece que eu contribui ativamente para que meu destino fosse esse mesmo que eu profetizava. Ficar horas e horas na frente do computador não era um jeito de me tornar mais bonito nem mais corajoso, afinal, né? Somente mais tarde dei-me o trabalho de investir na única coisa que me aproximava de mim mesmo: a arte. E a verdade é que cheguei a viver um relacionamento sim; algumas coragens eu tive, a muito custo, a muito sofrimento. Abrir-se para o amor não é fácil.

— E, se me permites a colocação, tu não apenas te abriste… Mas te escancaraste mesmo, com violência vulcânica. Foi bem incrível de se ver, meu caro.

— Esqueço que você estava lá para ver. Agradeço os elogios. Deixa eu continuar. Assim como na minha adolescência e assim como no meu período recente de depressão, hoje eu também contribui ativamente para que eu permanecesse na penumbra. Claro que até certa medida nós somos escravos dos nossos sentimentos, mas eu já não estou tão deprimido como antes… Já posso tomar algumas decisões em nome de mim mesmo, ser comigo um pouco autoritário. Por que, então, eu tive tanto medo? Por que senti tanto medo de viver, de me amar, de me proteger? Por que preferi me desgastar, me sombrear, me afundar, me perder?

— Não tinhas ainda mencionado o medo. De onde veio?

— Tenho certeza de que era medo, por causa da noite anterior. Eu recebera uma mensagem que eu sabia ser linda, sabia ser elogiosa, sabia vir do meu amor e falar sobre algo que eu lhe tinha escrito, e sabia que era feliz e amorosa. E o meu impulso foi o de não abrir a mensagem, guardar o celular e deitar, para adormecer o mais rápido possível. Para que aquilo não fosse uma realidade com a qual eu tivesse de lidar.

— Então não são só as realidades ruins de que foges?

— Aparentemente não! Quantas noites não desejei ter exatamente isso, meu amigo? Ser reconhecido pela minha escrita, recompensado pela minha sensibilidade, ser visto na minha beleza? Ser acompanhado de um amor, ser amado? Tudo isso eu tive e meu impulso foi — — de virar pro lado e dormir?!! Felizmente eu não anui e fui, sim, ler a mensagem, que logo virou doce conversa. Talvez não tão presente quanto fosse possível, mas doce e agradável certamente. Ao dormir, eu podia dizer a mim mesmo que era amado. Mas repara: era preciso que eu dissesse isso, porque sentir eu não sentia. Não lembro se sonhei, mas acho possível que eu tenha tido pesadelos. Como se meu corpo se revoltasse contra o amor que eu recebia! “Não mereço”, ele grita. “Não pode ser real”. Tem de haver algum bug.

— E então, de dia, comer compulsivamente, dormir compulsivamente, jogar videogames compulsivamente… crês que foram maneiras de confirmar essa tese sombria? De provar que, de fato, tu não mereces amor assim, e que ele não pode portanto ser real?

— Sim, meu amigo, é isso o que acho. Uma verdadeira sabotagem de mim mesmo, eu trabalhando (e nem tão inconscientemente assim) contra mim mesmo. Porque eu sou mais confortável na posição de desamado, de desmerecedor. Essa posição de ser amado exige muita responsabilidade, muito corpo, muita vida. E eu não tenho! Não vou aguentar. Como não aguento cinco minutos de sexo com ela, não vou aguentar ser amado por dias e eternidades e poemas. Lindo foi o texto que ela me escreveu, todos eles, mas eu não aguento lê-los porque não aguento a sensação de ser amado! Me sinto uma farsa, incapaz, inadequado, feio, um estorvo para o mundo, para ela, tudo seria melhor se nada disso existisse, se tudo se explodisse, se minha vida acabasse aqui. Ou, em termos mais realistas: se eu comesse, não uma nem duas nem três, mas quatro salsichas, regadas a ketchup. E depois comesse 3 ou 4 paçocas (quantas foram?). E depois assistisse personas sem graça na internet jogando um jogo objetivamente mal feito. E depois me masturbasse cheio de auto-desprezo, usando imagens de pessoas que eu não poderia conhecer senão por meio de um contrato sujo e problemático. E depois dormisse, não por leve torpor seguido ao orgasmo (que não houve, pois masturbação assim não dá prazer: meramente alivia), mas por tédio, tédio e falta de vontade de viver.

— Interessante essa sua fala, pois que começou falando de amor e sexo e terminou falando de compulsões diárias. Achas mesmo que estão tão intimamente relacionados assim?

— Sim, acho sim. Acho que a abertura ao amor, inclusive ao amor próprio, é condição para aquele perene sentimento de saúde, aquele gostoso sentimento de ser a si mesmo, de ser o próprio corpo, de ter sensações e de poder sentir o ambiente. Na falta dessa abertura para o amor, todas as outras saúdes desandam, pois que o amor é a base sobre a qual todas as outras se edificam.

— Amor não seria algo demasiado abstrato para que servisse de base para sua saúde gástrica, seu suor cutâneo, sua tensão genital? Essas coisas não são — —

— Muito mais corpóreas? São sim. Mas é que o amor é corpóreo. Não tem nada de abstrato nele. Amor é toque, carinho e calor. Sensações de que eu careci na primeira infância ou nas quais não pude acreditar totalmente. Que então justifiquei na adolescência. E proibi na depressão. Tudo isso volta a esse amor, basilar, antigo, infantilíssimo. E eu não consegui, como outras vezes nos últimos meses, me chacoalhar desse desamor e declarar para mim mesmo, com autoridade: “És amável, Stefan. O teu amor te ama e nela acreditas. Tu a amas também e nesse sentimento acreditas. Abre o peito para receber em ti esse carinho e calor. Ama-te”. Claro, a conversa da noite passada não atrapalhou, eu de fato lembro de que sou amado, mas não sinto. Percebe a fissão? A forma como não me identifico comigo mesmo? Um alguém assim não pode mesmo se defender, pois vai defender o quê? Se ele não se reconhece em si mesmo…

— Isso tudo parecem discussão tão antigas na tua jornada. Como se já tivesses escrito sobre elas milhares de vezes.

— Sim, é verdade. Acho que já, sim. Mas é que as coisas se repetem mesmo. E eu não sou o mesmo. E este texto aqui não é o mesmo que outrora. É importante escrevê-lo, eu sinto.

— Sim, sim. Mas, se me permites a colocação, tu não estás mais nessa posição fetal de antes, correto? Já te animas por dentro e já te amas, pelo menos um pouquinho, já tomaste coragem para escrever um texto como esse, tão explícito e banal. Algo mudou, não é mesmo? O que fizeste para sair de teu estado deprimido? Meu projeto de décadas, afinal, é o de desenvolver um bálsamo para esses estados indesejáveis da alma.

— Ah, meu amigo alquimista, eu bem conheço teu projeto. Não penses que te abandonei nessa. Mas não é um trabalho fácil, tu sabes bem. Assim como em outros momentos, fui salvo por um acaso feliz. (Que eu atraí? Talvez…) Ocorreu algo curioso, em que nem mesmo eu acredito ainda agora. Minha avó, meu amigo!

— Que tem ela? Conta, conta!

— Minha avó pediu, com o jeito ríspido dela de tentar ser amorosa, pediu que eu me sentasse para conversar. Não tinha acreditado quando eu lhe disse que eu estava bem. “How are you, really?”. Ela disse que me sentia distante, que não sabia o que fazer, que sentia que não havia muita comunicação entre nós. E que ela desejava isso. Eu era o motivo, parte do motivo, de ela ter viajado meio mundo para cá e ela fez isso porque me ama, e me quer conhecer e me quer presente. Coisas bonitas disse ela, embora sempre com aquele jeito sem jeito dela, em que os desejos soam como imperativos. Mas algo havia de muito real no que ela dizia e eu fui capaz de respeitar isso. Eu, que passei o dia me desrespeitando e me desonrando, senti vontade de honrar a minha avó naquele momento, ainda que ela me irritasse e ainda que ela tivesse me feito mal. De fato, vó, tenho me comunicado pouco. É difícil, você sabe como é. Expliquei-lhe do meu período de depressão, expliquei da ansiedade que sinto, de como é difícil ir até a cozinha quando ela está lá, que não me sinto tão livre para cozinhar o que eu quiser, que sinto ansiedade ao falar com ela. Conversamos sobre a língua norueguesa, o maior espinho da nossa relação; ela me compartilhou memórias valiosíssimas da minha infância, de uma vez que eu a trouxe para um chá de avós na creche, e pedi-lhe que não falasse nada e pedi às outras avós que não lhe dessem ouvido, porque ela não falava português. Condenei-a ao mesmo vexame a que ela sempre me condenava, toda vez que falava norueguês comigo e toda vez que desejava que eu falasse norueguês. Falamos de como minha mãe também gostava de falar norueguês e de como, com meus avós presentes, ela insistia na língua-mãe dela… E eu ficava sozinho. Sozinho no meu espaço lingüístico, soterrado de vergonha e de incompreensão por todos os lados, abandonado inclusive pela minha mãe, que não mais traduzia as coisas para mim, mas esperava que eu soubesse o que ela dizia, em norueguês, e respondesse também em norueguês. Mas eu não sabia! Eu não sabia, porra. Eu ainda não sei. Enfim, minha avó iniciou uma conversa dessas. Uma busca sincera por honestidade, abertura e contato. Nunca esperei isso dela e fiquei sinceramente tocado. Dei-lhe um abraço ao final da conversa, não por obrigação, mas por desejo e por amor. Por detrás de todos esses conflitos e dificuldades, afinal eu disse, está uma dificuldade de se sentir amado. E ali eu me senti amado e por isso essa conversa serviu como desarme de todo o corpo deprimido que se tinha instalado em mim. Nessa conversa contei também sobre minha melhor amiga, que se encontra deprimida e que não tem querido falar comigo, e isso tenho certeza de que me afeta muito também. Conversamos sobre minha mãe e sobre a dificuldade dela de comunicação e sobre como minha avó sentia que também ela ela tinha perdido. Consegui ser empático em relação à minha avó com a minha mãe. Minha avó! que tanto machucou minha mãe e que tão responsável por suas neuroses é. E nem foi difícil. Foi… maravilhoso, na verdade. Não sei se foi o vinho, mas acho que não. Acho que minha avó é cascuda mesmo. Ela aguenta porrada. Nós é que temos o dever de criarmos força em nós mesmos para dar porrada nela; isto é, para ser sincero com ela. Minha mãe, talvez, tenha que conseguir lhes dizer que não devem ficar aqui em casa por tanto tempo, que fiquem num hotel por exemplo. Mas a verdade é que a maior parte do desconforto dela, penso eu, vem da dificuldade de comunicação mesmo. E que, resolvendo-se isso, todas as outras questões se amenizariam. E eu senti esperança de que minha mãe e minha avó possam se dar bem, ter conversas sinceras, chorar, se impactar. Viver, enfim. Que não é “tarde demais”, que as neuroses não são insuperáveis, que ainda há auroras por vir. E senti que eu deveria honrar essa conversa da minha avó, a começar por cuidar de mim hoje e por desfazer esse corpo deprimido. E amanhã, se eu conseguir, vou estar mais presente para eles, vou me defender e entrar na cozinha mesmo quando eles estiverem lá, vou falar com eles o que penso e o que sinto, e vou amá-los. Se eu conseguir. Se eu não conseguir, paciência. Mas eu vou tentar. Porque aprende-se a amar amando, não é mesmo? E se eu puder me permitir ser amado por uma avó, cheia de problemas é verdade, mas uma avó que consegue aos 70 anos me convidar pra uma conversa sincera dessas, nossa, não tem nada de vergonha nem triste nem neurótico nem banal aí. É um orgulho e uma felicidade ser amado por uma avó assim. E ser amado por alguém como eu, que consigo reconhecer isso e honrar isso, será também um orgulho e uma felicidade. Porque nós somos mais potentes do que cremos; basta nos amarmos para ver.

— Não tem jeito, né, você sempre assume o seu estilo de sábio quando se empolga… Não consegue deixar as banalidades como são, né? Sempre as desbanaliza, sempre as torna grandiosas…

— Ah, não, que também de você eu quero me defender. E vou citar Rilke, diretamente e com aspas, pra mostrar que não preciso esconder minhas referências e meus consolos. Nem fingir que sou eu que escrevo quando não é:

“Nós, seres do aqui e agora, não estamos satisfeitos por um só momento no mundo do tempo, nem presos a ele; nós sempre vamos além e além, até os de outrora, até nossa origem e àqueles que parecem vir depois de nós. Nesse mundo “aberto” ao máximo, não se pode dizer que todos são “contemporâneos”, pois justo a revogação do tempo acarreta que todos são. A transitoriedade cai em toda parte num profundo ser. E, assim, todas as formas do aqui não devem ser usadas apenas dentro de limites temporais, mas, tanto quanto possível, devem ser postas naqueles significados superiores de que participamos. Mas não no sentido cristão (do que me distancio com fervor cada vez maior); ao contrário, numa consciência puramente terrena, profundamente terrena, jubilosamente terrena, é nossa tarefa introduzir o visto e tocado aqui no círculo mais vasto, o mais vasto de todos. Não em um além, cuja sombra escurece a Terra, mas em um todo, no Todo. A natureza e as coisas de nosso entorno e uso são preliminares e transitórias, mas são, enquanto estamos aqui, nossa posse e nossa amizade, cúmplices de nosso sofrimento e alegria, tal como elas já foram os confidentes de nossos antepassados. É essencial, portanto, não apenas não caluniar e rebaixar as coisas do aqui, mas também, pelo caráter provisório que elas compartilham conosco, compreender e transformar esses fenômenos e coisas com o mais íntimo entendimento. Transformar? Sim, pois é nossa tarefa gravar em nós essa terra provisória, efêmera, de forma tão profunda, tão sofrida e tão apaixonada que sua essência de novo se ressuscita “invisível” dentro de nós. Somos as abelhas do invisível. Apaixonados colhemos o mel do visível, para acumulá-lo no grande favo de ouro do Invisível.

— Lindo, meu caro. Agora vai lá e arrasa.