16 de maio de 2018
Rio
10 de maio de 2018
Orgulhinhos balsâmicos
8 de maio de 2018
Palavras descansadas
Superabundam textos tristes. Nenhum espanto — os alegres costumam estar ocupados. Lembremos que dançar cansa! Mas não desanimemos: a alegria está aí (bem como o cansaço, é verdade). A nós, escritores, talvez caiba uma responsabilidade um pouco maior, que é a de comunicar a alegria com frequência mais representativa do mundo real. Afinal, são os poetas que erguem os alicerces emocionais da civilização. É um imperativo científico reconhecer a existência da alegria bem como a do sofrimento. Ensinemos às próximas gerações a capacidade de ter prazer! — e façamo-lo com desenvoltura, elegância, ritmo. Sorrir! — com o corpo, com as palavras, com a própria vida. Dançar. Transar. O mundo não é apenas terrível. Vale a pena repetir. O mundo não é apenas terrível.
4 de maio de 2018
Ombros de poeta
O que vos tento dizer, meus caros, o que de minhas ações e sofrimentos é consequência viva, esta verdade da qual sou testemunha admoestada, da qual mil vezes tentei fugir, que se prende a minh'alma como sanguessuga benigno, bálsamo venenoso, molho à minha sopa de pedras conceituais, aquilo que mais profundamente me tornei, fui tornado: — sobrevivente! Minha crônica de mim mesmo não é exemplo, mas é espécime. Sou filho da natureza, de alguma natureza, e estou vivo. Mais do que isso: por tanto que eu tenha sofrido, e por mais que eu tenha tão compreensivelmente amaldiçoado os deuses e desejado qualquer outra coisa que não o meu fardo e meu fado e meu fato — — de tudo isso fiz alguma coisa e sobrevivi nem que alguns anos. E de novo e de novo, e tanto mais forte quanto fundo quedei, levantei. Como se houvesse sempre sorriso me esperando, como se disso eu não escapasse nunca, como se eu fosse missionário da alegria dos homens, ainda que impossivelmente dolorosa e ridiculamente improvável. Abandonemos nossa ideia enfraquecedora de natureza: a floresta não se importa de queimar. Ela, muito mais que nós, renascerá. Porque seus frutos são necessários. E é de necessidade semelhante que somos feitos, que tiramos nossa imortalidade. Fria poesia do carbono. Indiferença: esse é meu consolo e conselho para vós que chorais. Debaixo do vosso choro há uma necessidade e aqui os filósofos acertaram: carência orgânica e obrigatoriedade lógica são irmãos conceituais e por isso recebem, adequadamente, o mesmo nome. Não pergunteis apenas do que necessitais, mas que necessidade conjugais, manifestais. Encontrai em vós o que é da Natureza e olhai-vos com Seus olhos. Sofrei, perecei, renascei.
Acre consolo
E se a convalescença — o valor supremo para todos nós que estamos doentes — necessitar dos nossos gritos e quedas e da mais profunda dor e supremo sofrimento? E se, ao final de cada sessão de tortura, remitisse-se o câncer de que padecemos? E se houver sono, verdadeiro descanso, depois das mortes? Que caminho é esse? Por onde se vislumbra dor e escuridão, por onde sequer réstia de luz nos chega a iluminar... Estaremos confundindo, como os antigos, sofrimento com crescimento? Seremos nós parte desse conjunto insuportável de miséria — desnecessária, sem fio nem alvo — dos homens? Habitamos a galeria dos mortos-vivos? Viveremos?!
3 de maio de 2018
Pior
Acima de todas as coisas, deve-se odiar a si mesmo. Com a força de mil dragões e cem tempestades, como se não houvesse tesouro que não se reservasse por detrás do castelo tenebroso de si próprio, e como se só através da raiva e do auto-desprezo esse tesouro se revelasse. Como se tudo de bom só pudesse existir se um ódio maior que a vida, maior que Deus, consumisse tudo e todos, principalmente a si mesmo. Como se de todos os assassinos e estupradores e genocidas e tiranos e psicopatas reunisse-se em si mesmo o que há de pior, o extrato mesmo da maldade, e dessa substância escura não se visse nenhuma luz nem se sentisse nada que não profundo desprezo, nojo, podridão — como se os vilões dos desenhos fossem reais e você os incorporasse com cada célula do corpo. Como se nada nada em você pudesse se salvar ou ameliorar, tudo em si corrupta escuridão e desfalecimento, hanseníase moral da humanidade, fétido feto abortado da luz, morto de propósito com agulhas elétricas enfiadas pelo cu de Maria. Como se nada pudesse ser capaz de perdoar a sua alma e qualquer animal, por inferior e simples seu sistema pensamentivo, imediatamente se enojasse da sua presença e reconhecesse nela supremo perigo e animosidade, como se a própria natureza o rejeitasse em tudo — e apesar disso ainda fosse patético e miserável. Nada, e paradoxalmente, o pior de tudo. Fera da fera, lobo do lobo. Torturador, algoz, assassino. Nada satisfaria mais Deus que a tua aniquilação.
Contra o que se deve revoltar
Tudo o que nos apequenou e amoleceu, tudo que justificou o apequenamento, que condescendeu-se à moleza. Tudo que livrou a cara do tapa da natureza e mais ainda aquilo que justificou a fuga do tapa com um esbravejar rouco contra as tempestades. Tudo que em nós fugiu da natureza e tudo que lá fora encontrou refúgio, cama inflável, joelheira, capacete, sistema de segurança, prudência: a competência se conquista cortejando o desconhecido. Quem preferiu castrar antes para não precisar abortar depois. Quem pede cautela, regulação, paternalismo urubuzante, tutela, pastoreio, mão-na-mão e colo. O direito de morrer se conquista vivendo perigosamente. Que o perigo deixe sua marca em nós e que a prudência — nossa prudência — não tenha como alvo nada que nos é exterior. Entendamos as guerras e a bestialidade. Somos monstros! E devemos nos revoltar contra tudo que tentou esconder este fato. Véu dos véus, essa moléstia sobre o espírito! O carinho, meus caros, deve vir depois, depois! Antes: precisamos brincar na lama da natureza.
A função da imaginação
Nosso senso ético é tanto mais aguçado quanto mais cientes somos da própria letalidade. Primeiro vem o dano, primeiro a violência; a gestação da paz veio gerações mais tarde. E o que é a raiva? Ora, é a imaginação do poder! Sentimo-la para não ter de exercitá-lo. Por isso é tão engraçado, tão dirwinamente boçal, quando vemos esses seres humanos evitando a raiva sob o pretexto de evitar o poder! Erro sobre erro!
Analogia hiper-extendida
Imagina uma máquina. Pré-eletrônica: válvulas, vapor, pistão, engrenagens, metal. Há uma certa ordem, nos dois sentidos: uma organização, hierárquica como sempre, padronizada, regular, bem-encaixada, reconhecível; também ordem no sentido de sequenciamento, uma cadeia causal ininterrupta, bifurcada às vezes, mas quase sempre um-depois-do-outro, isto-causa-aquilo, um dois três loop, sentido horário, para frente e para sempre. Se somos máquinas (e somos), a manutenção de nosso bom funcionamento é a prioridade. E manutenção preventiva é preferível. Temos uma certa ordem por base. Ainda quanto possamos imaginar o fim da ordem com a pontinha de nossos cérebros, todo o resto da montanha que somos é hierarquicamente organizado, pedra sobre pedra, camada sobre camada. E não haverá sequer imaginação caso essas camadas quebrem. Por isso a manutenção é tão importante quanto invisível. Descobrir qual é o nosso "para frente", qual engrenagem exige outra engrenagem, desvendar a hierarquia das nossas camadas, olear as nossas esteiras dentadas, habitar o "salão das máquinas" de nós mesmos. Muita inconsciência, escuridão, irracionalidade, esquecimento, bagagem técnica, feiúra, poeira e ineficiência — — moram aqui embaixo. Mas a relação entre a pontinha de nossos cérebros, onde sentimos o gosto suave das poesias e a genialidade dos silogismos clássicos, as ranhuras esteticamente agradáveis de nossas maquinações, nosso pulsar elevado e divino, abrir de asas — melhor: estender de mastros! — tudo isso e tudo o mais dependem da qualidade do nosso subsolo. Da qualidade de nossa manutenção. A meditação que se torna loop confortável entre nuvens e cumes não nos interessa. Somos arqueólogos-baloneiros. Habitantes costumeiros do submundo. Emergir é nossa rara recompensa, não nossa rotina. Nossas meditações são simples, porque todo maquineiro é simples. Não temos o luxo de sistemas mal pensados, nublados, vagos: aqui é cano-sobre-cano, silvertape e carinho. Nossa filosofia (se é que se pode chamar assim) é funcional no sentido de ter, por único objetivo, o funcionamento — e mais nada. Todo o resto é lucro. O magma não imagina o céu azul. Por isso não tememos as regras e manuais de instruções: são nossos amigos e guias. Um bom manual de instruções ilumina mais que lanterna. Nosso imperativo moral? Deixar as coisas mais arrumadas do que as encontramos, facilitar o trabalho do maquineiro do futuro (nós ou outrem). Não aspiramos a mais que isso, pois não temos tempo nem energia. O trabalho nos toma todos os recursos. Não espanta que estejamos sempre cansados.
27 de abril de 2018
Profecia pós-nuclear
Perecemos de inchaços vários. Morremos de febre em meio à neve; de fome, à obesidade; de nervosismo, aos opióides; de câncer, à medicina fina; de filosofia, à maior das bibliotecas. De excessos! — em meio à abundância. Como pode? Onde foi que começamos a sobredosar nossas virtudes e bálsamos? Por que nenhum de nós consegue parar? De que necessita essa geração — a minha! — tão doente? Ombreemo-nos, meus caros. Longo período de comparativa letargia, improdutividade, doloroso silêncio, há de vir — como contraste e consolo aos séculos XX e XXI de que agora padecemos. É preciso descansar. Diminuir inclusive a medicina, inclusive o cuidado, inclusive a nós mesmos; um verdadeiro ser menos nos espera. Uma grande compressa de gelo se há de aplicar no rosto da humanidade. Por décadas comporemos senão em acordes menores, parecendo tristes. Não. É que descansamos. Em nós se cultiva ainda a força do porvir, a calorosa chama de nossa natureza, o indizível sobreviver dos homens — ó, criatura violentamente sobrevivente. Inexoravelmente resistimos. Meteoro não nos mataria — de nós mesmos apenas nós somos os algozes. E que será de toda ciência, todo pensar, todo produto e subproduto da imensa atividade humana que nos cerca? Tudo há de perecer menos o que não o pode. Em outras palavras: tudo menos o que foi feito de calma, atomicamente resiliente, subscrita-no-eterno dedicação. Nós não somos tudo o que fazemos: somos o que de melhor fazemos. Julgamento não há: senão sobrevivência e perecimento. Alegria, música e amor. Poesia no caos. Noites sem dormir tentando pertencer ao panteão de nós mesmos. Muita vã adolescência, gasto e desgaste, muita célula morta da qual se desfazer há e haverá ainda. Sistema imunológico, linfático e nervoso ao mesmo tempo: cura, coleta de resíduos e vontade. Queria eu que doesse menos o remédio de que necessitamos. Estancar, tornicar, quedar-se febril, dormir dormir dormir dormir! Ombreemo-nos, meus caros.
19 de abril de 2018
Dois tipos de compaixão
18 de abril de 2018
Metáfora para a modernidade
Avante
Um mito a menos
Não existe nenhuma relação necessária entre sofrimento e inteligência. Desfazer-se dele não acarreta nenhuma diminuição nela.
16 de abril de 2018
Cultivando fracassos menos dolorosos
É nosso imperativo eliminar sofrimento desnecessário. Ao mesmo tempo não somos tão burros quanto os ingleses ao ponto de achar que todo sofrimento se deve jogar fora ou amenizar. Há-os necessários como à combustão o oxigênio. Fracassar é uma função de tentar. E queremos tentar. Não é completamente errado (embora seja impreciso) dizer que desejamos os fracassos. Mas queremo-los edificantes. Causas de aprendizado. Apequenamo-nos — como mola que se comprime — para engrandecer. É fundamental que não atolemos quando caímos. Há lama à nossa volta, mas isso não faz de nós lama. Temos que aprender o bem fracassar. E o que é isso? Oras, se eu soubesse não doeria tanto!
13 de abril de 2018
Estender-se
A yoga nos mostra que estender-se o corpo é, em geral, uma virtude. Traz alívio, espaço, relaxamento e circulação.
Busquemos uma filosofia que nos traga semelhantes benefícios à mente. Perguntemo-nos: como ter mais alívio (espaço, relaxamento e circulação) mental? O que significa uma mente estendida? Quais são os nossos órgãos internos do pensamento? A espinha dorsal da nossa consciência? Encontremos esses objetos e presenteemo-lhes nossa inteligência, emprestando-lhes força e flexibilidade, para que cresçamos esbeltos e alegres.
Amigos astronautas
Não vos preocupeis: esse monoteísmo tacanho de agora não é apenas estranho à nossa natureza, mas também à nossa história. Não há de durar mais do que alguns milênios. O futuro da humanidade, seu verdadeiro futuro, está garantido. Para nós não há outro caminho: ou viramos todos ateus, ou viramos todos deuses.
11 de abril de 2018
Desvirtudes
Virtudes passivas não são virtudes. Aguentar e sofrer são fatos, não atos. Ter sido derrotado não é motivo de vergonha, mas tampouco de orgulho. Vencer não deveria ser mal visto.
10 de abril de 2018
Ufa!
Vocês estão me entendendo? Para ser grande, e integralmente grande, são necessárias recaídas na pequenez — e nesse contexto isso significa: recaídas na animalidade. A grandeza da alma, como toda outra, precisa ser administrada. Contrastada com o seu oposto, investida, trocada, usada. Nosso século precisa atualizar a metáfora da guerra: trata-se de guerra econômica. De tornar valiosos os nossos recursos, de encontrar curvas óptimas de desempenho e satisfação, de criar tantas rotas comerciais entre nossos múltiplos eus que entre eles se estabeleça tão forte interdependência que se não possa sequer conceber algo como aniquilação bélica. Intra-deterrência mútua, isto é: paz por meio do excesso de força. À medida que a inteligência arma suas ogivas nucleares, nossa animalidade espreita: espere retaliação. O homem do futuro não é santo no sentido tradicional: não é apenas um homem melhor do que todos os homens em ser homem, mas também supremamente animal. O universo é feito do contraste entre a escuridão primordial e a insistência épica das explosões estelares: também nós seremos iluminação e breu, ascenção e queda, animalesca moralidade e ânima imoral, intensamente adultos e jovialmente infantis. O infinito se conquista por meio da compreensão da escassez.
O problema do cansaço
Nossos militares, puritanos, CDFs e operários — por que possuem eles uma moral tão crua? Por que esse arquétipo sequer existe? Todo guerreiro da disciplina precisa ceder em algum ponto: no caso desses, cuja aptidão se voltou para fora, o interior costuma deixar a desejar. Não se trata de crítica. O filósofo e o artista os invejam — e sequer o fazem secretamente. Acontece que nossa atenção, nossa força vital, é limitada. Um problema econômico: algo tem que ceder, algum preço tem que cair. O filósofo um dia tentou trabalhar "como pessoa normal" e não aguentou o esforço: não cabia nele a grandeza de sua alma e mais as necessidades mundanas da organização, repetição e dedicação. Trabalhar é excruciante e exaustivo: tanto para dentro quanto para fora. Por isso a maioria de nós escolhe apenas um — não tem opção senão escolher apenas um. Pensar cansa. O córtex pré-frontal, sem o qual não haveria filosofia, precisou de centenas de milhares de gerações para que se assentasse em um formato sobrevivente. Houve um gasto enorme de energia por parte da natureza em torná-lo o que é — e o quanto não se abdicou em seu nome! Não só "a natureza" in abstractio, meus caros: mas incontáveis indivíduos morreram e continuam a morrer em nome dessa fugaz invenção do cosmos, essa máquina de inteligir que nós nos tornamos. Gerações trabalham num filósofo; séculos de entropia, aniquilação, morte, caos e violência. Não subestimemos o que a inteligência nos requer sacrificar! Compreendamos dos nossos espíritos superiores o burnout moral.
Não tão básico assim
A fórmula pela qual temos vivido: pensar pela manhã, trabalhar à tarde, ler de noite. Ela tem muitos pré-requisitos. A começar pela distinção entre pensar e trabalhar. Àqueles para quem pensar (ou ler) é um esforço e um estorvo ela não se aplica. Entende? Até mesmo nossos mais simples provérbios exigem uma certa harmonia entre cognição e sabedoria. Uma ou outra sozinha não basta.
Em busca de um profeta
Mas quem consegue, no nosso mundo de pressa, não fazer nada? Quem teria a audácia, a imoralidade, a doença necessárias para tal feitio? Algum de nós? Ou alguém que ainda não veio?
Para que fazer faça sentido
É preciso conseguir não fazer nada. O medo da improdutividade é medo também. E, para ser livre, o medo não pode ser a causa de nossas ações — — — nem de nossas inações.
9 de abril de 2018
8 de abril de 2018
Canção do perdão
Afaga-te por dentro pra que não recaias em ti. Entendes? Pode-se cair para dentro. Há que se ter muito cuidado com os abismos internos. Escolhe com atenção e carinho as canções que te acompanharão, porque só elas têm poder na solidão. Só a música atinge, só ela. Se algo outro dá igual consolo é só porque conseguiu tocar música no nosso interior. Destensiona os dedos que sangram. Vibra de tristeza — sem tornar mais triste ainda. No sol de tu'alma te desmofa. Abrange o doloroso como quem abraça um gigante: sem medo, sem tornar ainda maior do que já é. Perdoa enquanto choras. Afaga-te por dentro pra que não recaias em ti.
4 de abril de 2018
Pensar para
Os pensamentos não são apenas a força resultante de um determinado arranjo de propriedades mentais (que incluem vigor cognitivo, obstinação lógica, ensidobramento paciente, endoclareza e trabalho); são também componentes causativos de estados da mente. O espírito é uma roda, não uma montanha. Isso significa que a qualidade do pensar influencia o nosso bem ser mental. Assim como a saúde de nossas juntas depende de como os membros se movem — e não se movem —, assim também é a nossa saúde mental. Pensar não é um fim, como querem os filósofos, mas meio de se viver. Toda filosofia até aqui foi apenas tosca medicina — em parte porque não sabia que era medicina. Quanto e como se deve pensar, a importância de um mastigar calmo das proposições, a distinção entre bálsamo e veneno da razão — ora, o valor dos pensamentos, para o espírito, é mesmo nutricional! Nossa tarefa é: aprender a se alimentar.
27 de março de 2018
Fazer com!
O que pode o cansado? Ora, pode ainda descansar, e nisso não se é impotente. Existem descansos piores e melhores — há aí um processo a ser otimizado, isto é, uma oportunidade para o intelecto. Onde se pode estabelecer uma hierarquia desejável, onde o bom pode ser discriminado do ruim, à capacidade de fazer um e não o outro se chama inteligência. Pergunta-te não o que farias caso tivesses mais energia, mas o que farias caso tivesses mais inteligência! Não presumas que sabes o fim e te faltam os meios, mas que os fins estão em função dos meios e para transformar a relação dos dois dispomos do nosso espirito. Aos meios chama-se realidade; à capacidade de transformar, inteligência; e aos fins, vida. Percebes?! A vida não é o que a realidade fez conosco, mas o que fazemos com ela.
26 de março de 2018
Não antecipar
Nosso sangue é mais frio do que o supomos. Evoluímos com a expectativa de que o sol nascesse toda manhã. Sabemos que não é verdade, que um dia ele se há de apagar, mas até lá: banhemo-nos.
À tragédia do futuro opõe-se o doce gosto do presente. Para nós não há diferença entre o último sopro e o próximo: coexistem no eterno presente. Nós —— respiramos.
24 de março de 2018
Diário de emoções
"Durante meu período no Pinel, pediram-me que anotasse todas as vezes que eu sentia raiva. Isso fez com que minha auto-percepção diante dela aumentasse e, assim, eu me tornasse capaz de lhe reagir. Aprendi que a liberdade pré-requer uma série de coisas, incluindo a capacidade de perceber os próprios estados mentais antes que eles "tomem conta": pois não somos os nossos estados mentais, mas o que se lhes encontra debaixo do véu, por assim dizer — eu não era a raiva, mas aquilo que era por ela preenchido, possuído, dominado. Aristóteles não estava tão errado assim ao afirmar que cada substância possuía um substrato: somo-lo mais que aos nossos sentimentos, pelo menos.
Todos esses aprendizados, enfim, ajudaram-me a ser mais do que a minha raiva. Ocorreu portanto uma superação de mim mesmo. E hoje a raiva, se não me é doce, tampouco é amarga."
"Talvez devêssemos aplicar a mesma dedicação, o mesmo espírito, nas nossas outras emoções. Talvez toda a vida até aqui tenha sido senão engatinhar diante de nosso propósito divino, que é correr."
"De fato, não me surpreenderia se algum de nós, além de correr, voasse."
Para a cura um treino
É preciso acumular experiências de convalescença. Prescrutá-las, esmiuçá-las, exauri-las, compreendê-las! como se nossa vida dependesse disso — pois depende. Sejamos não apenas os pacientes, mas também os médicos de nós mesmos! (e afinal também os professores desses médicos). E apliquemos aqui uma medicina cuidadosa, intensamente cinzenta, demorada, paciente, excruciante: é aqui que devemos ser mais cientistas.
Descubramos de nossa biologia a verdade.
19 de março de 2018
Proposições teístas
Em todas as partes está contido o princípio. Em toda parte está Ele.
15 de março de 2018
A favor da bobeira criativa
Quem manipula palavras frequentemente se espanta com a capacidade de escrever o que não entende. Terá se espantado o primeiro pintor que desenhou o que não existe? Acreditamos ainda que os sonhos representam a realidade? Quantos pensamentos originais não se resumem à comutação "irreal" de fragmentos doutramaneira lógicos?
O mundo não está perproduzido, não está perfeito. Há ainda espaço para a criação.
Pelas beiradas
A questão de "por que se deve ter uma boa mente?" não é trivial, mas normativa. Encerra um estilo de vida que precisa ser comprado e defendido. A saúde, como toda virtude, nao justifica a si mesma: precisa ser incentivada. Os moralistas deste século parecem ter se esquecido dessa lição fundamental.
Querer parar
O ódio que sentia de si mesmo chegava-lhe à mente em língua estrangeira. Infelizmente era bilíngüe. Todo aprendizado inaugura formas novas de sofrer.
14 de março de 2018
Pensar com pincéis
Hoje já se fala da vida como obra de arte que compomos. Um avanço! Haverá dia em que consideraremos a vida como um pensamento que se cultiva. Mas até lá precisaremos aprender muito com os jardineiros e as crianças. (Até hoje, por exemplo, a maioria das pessoas crê que os pensamentos chegam à mente, como se pensar fosse um tipo de espera!).
O mundo não é de Deus o cavalete, mas a mente.
Vidas despensadas
A tragédia não está tanto em ter poucas horas disponíveis para o pensamento, mas em sistemática e intencionalmente remover o pensamento das horas de que dispomos. É preferível uma sociedade em que o pensamento tem direito a quinze calmos minutos (ainda que se trabalhe o resto do dia inteiro!) do que uma utópica sociedade de lazeres em que a vigília é toda divertida para longe do pensar. A esse sonho absurdo de nossa adolescência pré-envelhecida — cuja imaginação só comporta uma espécie de aposentadoria de welfare — devemos opor todo o nosso desprezo e nojo. Precisamos imaginar envelhecimentos melhores! Morramos cedo se necessário, mas não deixemos para pensar depois.
8 de março de 2018
7 de março de 2018
Endo-mentando-se
Não tanto de desenvolver a capacidade, pois que ela já mora em nós, mas de tornar-se-lhe digno. Melhor dizendo: de afastar de nós toda limitação extrânea que nos foi um dia imposta e em seguida aceita. Isso significa retornar à fase em que não as aceitávamos, voltar a se identificar com a resistência, isto é, com aquilo que sofreu uma objeção, que foi obstado, parar de aceitar a limitação como natural e digna e "boa". O que nos limita nos mata. Reviver significa deslimitar. Afastar a crueldade com que nos diminuíram: ter gentileza para crescer.
6 de março de 2018
26 de fevereiro de 2018
21 de fevereiro de 2018
Apagando
De dor e de desgraça são feitas as tempestades da solidão. A enchente que vem apaga todas as labaredas do espírito. Apenas o breu sobrevive. Mas logo ele também ruirá. Apenas o silêncio sobrevive. Mas logo ele também gritará.
A escanteio
Quem se acostuma a ficar de lado periga definhar. Não somos plantas: precisamos ir até nossa água. A inação nos secará.
Eclipse da alma
Para tapar a luz requer-se objeto muito menor que a fonte luminosa e também muito menor que o alvo iluminado. Um simples galho é capaz de tapar um sol. Nós, seres de luz, precisamos de múltiplas lâmpadas, para reduzir a chance de sermos obscurecidos.
Tempestade em copo d’água
Aquele ali é ainda mais sozinho: sequer tem a própria companhia. De si mesmo é abandonado.
Murmúrio afogado
Gritar é uma capacidade. Quem não consegue se fazer perceber corre perigo de assozinhar-se permanentemente.
20 de fevereiro de 2018
7 de fevereiro de 2018
Ódio fraternal
Fazer espetáculo da própria tristeza — isso é coisa de poetinha miserável!. Nós, filósofos, fazemos da nossa tristeza teoria. Não a transformamos em objeto para ser fruído, mas em lente com que se frui. Nada escapa às nossas distorções; tudo, tudo há de ser maculado pela tragédia das nossas entranhas. Com olhos sedentos de vingança invocamos nossa força como fosse elemento primordial de Gaia. Conhecemos nosso poder e nossa capacidade de persuasão: há séculos o mundo segue nossas pegadas tristes, pois o único ser mais burro que o filósofo é — — o povo. "Aquele que segue". Ratos de nossas flautas!
Ah, se ao menos soubéssemos usar nossas flautas para compor! mas não. Fungos que somos, não fazemos senão decompor. Somos os responsáveis por, pouco a pouco, destruir cada pedacinho luminoso da alma humana. Nosso "projeto"? Morte sublimada. Para que a humanidade floresça,
Nós, filósofos, precisamos morrer.
5 de fevereiro de 2018
Era da insuficiência
Deve-se acordar com um propósito. Banana Pancakes é um sonho juvenil de nossa geração presa em escritórios. Mas a fuga que não se torna propósito de vida — como a de um encarcerado ou de um escravo — só ajuda a manter preso. A liberdade é um valor instrumental. Ideia útil enquanto não a temos; uma vez atingida, torna-se mero cimento sobre o qual nossos pés se hão de equilibrar. Mas e nossos olhos — — enxergam o quê? Para onde se volta nosso pescoço? Descurvemos o coração, queridos amigos, e encontremos livros que de tão bons nos façam acordar com um sorriso na cara. O quê?, — não existem? Ora, mais um motivo para despertarmos: é hora de escrevê-los!
5 de janeiro de 2018
Analogia confusa
Fale de si na terceira pessoa — — do plural.
As partes de que eu sou feito não são eu. Assim como as infiltrações na parede de uma casa não são a casa.
Às vezes esse é o único consolo que temos. Uma parte de nós foi infiltrada. Mas nossa casa tem também uma lareira — aqueçamo-nos diante dela, ainda que as infiltrações requeiram cuidados.
Sim, dói. E há desprezo e auto-desprezo. Mas lembra: há também amor e amor-próprio. Encontra o carvão e espera o inverno passar.
4 de janeiro de 2018
7 de dezembro de 2017
5 de dezembro de 2017
Tirar sangue de pedra
Repara: da pedra nada sai. São sempre os teus dedos que sangram. É ti quem sangra. Perguntas-me "como viver com o coração destroçado?". Ora, a vida e o destroçamento são uma e mesma coisa. Teu erro está em, por clichê que pareça, separar teu coração da vida, como se ela fosse objeto dele. Não: a vida é o que pulsa, a vida é o pulsar.
Os deprimidos e todos os tristes — e neste mundo nós somos maioria — têm diante de si o desafio de respirar com o peito frio; amar com a alma cristalizada (isto é: frágil e dura); sustentar de pé um corpo mumificado, que deseja a imobilidade como o leproso deseja a solidão; nosso coração foi tornado pedra! — e dele a vida nos exige tirar sangue. Insana crueldade.
Mas o foco, meus amigos, não é o sangue, muito menos a pedra. É o tirar. Não me importo que exageres, que sofras, que grites. Esperneia o quanto precisares. Marcha feito imbecil à flama do apocalipse, entrega-te à besta do Tédio, te fode. Do outro lado encontrarás um espelho — — e, enquanto houver reflexão, há luz.
Para tirar sangue de pedra, basta apertá-la com toda a tua força. Deseja ardentemente, até não aguentar (essa parte é fundamental), e então desiste — tão ardentemente quanto. Os violonistas só tiram sons das cordas porque calejaram suficientemente os dedos. De nosso intensamento virá o suco da nossa vida.
1 de dezembro de 2017
Morrer
Do choro nascem duas coisas: a poesia e a saúde. Nossos olhos molhados primeiro turvam, mas em seguida, se sobrevivermos, purificam. Nosso sal dá gosto ao que antes era impalatável. Nossa morte é sempre adubo. De nós mesmos não somos a planta — somos o solo. Deixemos nossas folhas cair. Pereçamos. Ajoelhemo-nos, choremos, caiamos.
Se sobrevivermos, voltamos mais fortes. Se morrermos, os outros herdarão nossa força. Permanecer vivos na fraqueza e na secura — essa é nossa única proibição.
Meu sangue é o teu sangue. Somos todos seiva do mundo.
Contra a piedade
Nossa tarefa enquanto filósofos é dizer as coisas mais terríveis que já se ouviu na Terra — — sem com isso destruir.
Essas coisas terríveis, nós as chamamos de verdades.
E talvez fosse mais exato dizer que destruímos sim: destruímos os alicerces da mentira, da fragilidade e da imobilidade.
Heráclito não descreveu o mundo quando disse que era feito de fogo. Era um apelo, para nós, sempre para nós: fogo. Sejamos fogo!
20 de novembro de 2017
Dialogo de meia idade à beira da cama
Com o olhar de quem conheceu intimamente a solidão. Assim foi que nos cruzamos, ainda que não soubéssemos na época. Desejávamos, ah como desejamos, companhia para nossa alma tão torturada, tão calejada — de quê? Mal o sabíamos nós, mas queríamos que nos advinhassem. A felicidade que juntos sentimos quase destruiu tudo, porque a nossa alma, afinal, se assentava sobre a tristeza. Quando foi que optamos pela alegria? Quando foi que desistimos de fazer silêncio? Quando foi que paramos de condenar os nossos encostos e passamos a tratá-los como vivos, como iguais? Quando foi que nos consideramos vivos? Quando foi que paramos de nos vingar e assumimos a responsabilidade pelo nosso destino, por nossa felicidade? Quando foi que abdicamos da culpa e da vergonha e, sim, mesmo da raiva, para ir além? De onde veio esse ímpeto, meu amor? Por que parecemos tão pouco numerosos? Já sabemos que não somos tão raros quanto julgávamos na adolescência. Já nos descobrimos banais. E, no entanto, tu pareces tão rara. Teríamos conseguido arrancar das fadas da nossa puberdade sofrida as asas de fogo com as quais sonhávamos em ascender? Terá nossa imaginação tão fértil cavado um furo na realidade, teremos tocado o fio do nosso porvir? Como — não era tudo vã juventude? Estaremos nós senis?
Não sei, meu bem. Acho que estamos apenas cansados.
16 de novembro de 2017
Rezar pelo aprendizado
Pai nosso que moras em mim,
Expande-me o peito para que eu possa receber,
Ainda quanto pareçam um punhal,
As palavras que me dilaceram a alma.
Que meu coração cresça com cada vão insulto
Como se das rachaduras viesse a nascer
Uma flor.
Que a humildade ilumine minha força
Tanto quanto o véu ilumina a Justiça.
Que com isso eu não me embote nem me iniba,
Mas tão-somente tempere com fractais de consciência
Meus atos insuficientemente ponderados.
Que a gentileza, comigo e com os outros,
Tenha por substância o fio do meu intelecto
Com o qual eu corto, rumo às profundezas de nós mesmos,
Os arbustos que obscurecem a nossa visão.
E que o que antes era intenso e cortante
Se sinta agora
Como torniquete em volta do espírito,
Suavemente a comprimi-lo
Para que ele não se desfaleça
Diante da dor.
12 de novembro de 2017
7 de novembro de 2017
Gracioso para fora
18 de outubro de 2017
Música como alongamento da alma
17 de setembro de 2017
De feitiços e feiticeiros
16 de setembro de 2017
Mais um bobo preconceito de filósofo
O que é exótico chicoteia o pensamento, obrigando-o a agir. Refletimos com mais liberdade — e portanto mais dificuldade — sobre os nossos hábitos mais arraigados. Ser um estranho em nossa própria terra: isso devemos cultivar. Filosofar é falar a língua-mãe com sotaque estrangeiro.
17 de julho de 2017
O Valete e a Cortesã
Existem dois antídotos para a inquietude e nenhum deles é o amor. Dela nos livramos quando rimos de desprezo ou quando choramos de emoção. Então, se o amanhã te amedronta, vai e te acha um idiota do qual rir; percebe toda a leveza e desinteligência de que o mundo é feito, ri de todos os acasos e de todas as incompetências que te trouxeram até aqui: descansa sabendo que o futuro é acima de tudo bobo. O segundo antídoto requer em nós a grandiloqüência cavernosa da alma: nosso choro deverá ser o eco do das deusas que perderam o filho. Inconsoláveis, desesperançosos, muito além da vida e de todo bem e mal devemos despejar nossas lágrimas. Os poetas têm a fama de tristes porque entre eles é mais comum esse segundo tipo de cura, a cura através da tragédia. Careciam de enormes consolos, esses espíritos afiados: suas palavras são o presente de um convalescente — presente que herdamos. Em sua homenagem, engrandecemo-nos e, benzidos da maternalidade cósmica, renascemos de olhos ainda mais abertos.
11 de julho de 2017
Dignidade salgada
Viram-me chorar e chamaram-me de fraco. Maus compreendedores. Do meu choro vem a minha força. Dele eu não abro mão.
Músculo lacrimejoso
As janelas da alma choram. A musculação do coração é o espasmo. De medo e dor a carne incha. Poesia nenhuma desfaz a necrose da alegria. Nenhum carinho acolhe as ruínas que somos. Afogou-se em mar de pálpebra.
Calvinistas entre os hebreus
Nada machuca mais o cansado do que o pouco caso de seu esforço. Os maiores anti-racistas são aqueles que odeiam a naturalização das próprias conquistas. Querem se acreditar criadores de seus próprios eus.
O filósofo triste adverte: não escolhemos quem somos.
Ego impotente
Desejaríamos que a força fosse uma escolha.
Mas não. Não se pode escolher não ser fraco.
21 de junho de 2017
Dois-em-um
Para criar o que quer que seja, o artista precisa se duplicar. Os seres comuns vivem tão-somente no mundo da afetação, receptores passivos de tudo quanto Deus lhes dá. Os artistas não escapam desse mundo, e afinal é com o intuito de afetar que criam, mas habitam também o reino de deus, um submundo da consciência, a partir de onde pressentem (isto é: sentem sem sentir) o que virá a compor sua obra. Eles não são personagens dos seus romances, nem mesmo quando se trata de autobiografia, mas algo distinto, nublado, sélfi-distante. Esse exercício — de ser além do que se é, de colocar-se do outro lado do cavalete da existência — aproxima os artistas do divino e os imbue de algumas ferramentas sentimentais que dariam inveja a qualquer filósofo (que nada mais é do que um artista doente; todo filósofo padece de sua obra). Dentro de alguns séculos, quando tivermos finalmente afetado tudo, criaremos "terapias" para emular esse devir-deus dos artistas, sedentos que estaremos da nossa própria potência transmundana. Até lá, o mundo permanece dividido em duas classes: os criadores e os criados.
O eu e suas bestas
Quem tem alma simples não filosofa. Para conversar consigo é preciso ter, no mínimo, alma dupla.
20 de maio de 2017
18 de maio de 2017
Pensamento magro
Desconfie de toda filosofia gorda. Quem para pensar precisa de polissílabos se assemelha a quem para correr precisa de muletas. Vigorous thinking is concise. Em seu habitat natural o pensamento corre, dança, salta, escala, rola — brinca! Longe dos venenos o pensamento medra elástico e esguio, rente à vida, semeado pelo prazer. Não precisa enrijecer ali onde se pede curvatura. Mantém um tônus espontâneo, desesforçado, muito diferente dessa hipertrofia compulsiva a que aspiram nossos mui corretamente chamados “acadêmicos”. Esses livros infinitos que se lê, coletâneas, enciclopédias, listas de exercícios, comentadores, bibliografias secundárias, citações referenciais — tudo isso, quando não é asquerosa gordura, é plástica. Relembremos nosso amigo Arthur, lebre entre elefantes: “Para ter lido tanto assim, deve ter pensado muito pouco!”. Contra essa excessividade do intelecto, cultivemos uma filosofia funcional — leve, definida, ágil. Nossos músculos são mais intensos que extensos. Nosso pensamento, bem como nossa prosa, é de uma finesse calistênica.
10 de maio de 2017
4 de maio de 2017
Ser-para-si
As crianças são tão acostumadas a serem feitas de objeto que acabam crendo que sê-lo é nobre e digno. Assim, mostram à mãe o seu amor advinhando o que ela deseja — e fazendo o possível e o impossível para se transformarem nisso. Toda instituição aproveita esse funcionamento em algum grau: define o que é “desejável” e pune o que não é. As pessoas mais felizes são aquelas que melhor conseguem distorcer os próprios desejos para que se conformem aos desejos do Outro.
Não é assim que queremos amar. Não queremos amar objetos; não queremos amar quem se sujeita. Queremos sujeitos próprios. Queremos senhores de si. Alguém que deseje realizar os próprios desejos, não os desejos de outro alguém.
E para isso é preciso ter desejos próprios. Este é o antídoto contra essa neurose no amor. Ter desejos próprios! Não os projetar, portanto, nem na criança nem no namorado nem no aluno nem no amigo.
Não precisar de outros. Dispensá-los. Conseguiremos amar assim? Quanta imoralidade!
Queremos ser desrespeitados, pois somos poderosos mas não infalíveis. Queremos que desconfiem de nós, pois somos humanos e não tijolos institucionais. Queremos ser desobedecidos, pois não amamos o poder, apenas ojerizamos a fraqueza. Amemos a força do outro, a independência do outro, a rebeldia do outro, a transgressão do outro. Amemos, enfim, o outro — não a imagem que ele tem do nosso desejo.
Comecemos amando o outro — — — em nós.
1 de maio de 2017
Qualquer o rio que sejamos, seremos mar.
Nosso amor era de uma cronologia epistolar. Não se pode apressar o sentimento como não se pode apressar as cartas. Vêm e vão no seu próprio tempo, indiferentes às nossas ânsias e pressas. Como um rio recém-nascido: à medida que corre vai abrindo as margens que imediatamente passam a lhe dar forma. Assim é o nosso amor em relação a nós mesmos: antecede-nos e, uma vez nascido, jorra com força criando nossas margens. Não se pode apressar um rio nem à força fazê-lo nascer. Nossa tarefa é aprender a amar o nosso destino, que é ser mar. Sem pressa e disposto a tudo receber.
Coração de fênix
29 de abril de 2017
Por um Yin Yang ocidental
Não pode ser forte quem não sentiu intensamente a fraqueza. Os mestres dizem 'encontra tua força', mas isso só pode ser feito na fraqueza. O mesmo se passa com quem deseja 'encontrar a si mesmo': precisa ter se perdido primeiro, precisa estar perdido. Os desertos escondem mais tesouros do que os pastos verdes. É no deserto que as pessoas se fazem. É no frio que o fogo arde com mais vigor. É na solidão que encontramos a nossa própria companhia. Nós nos tornaremos amor quando ele nos escapar. Desejo o seguinte aprendizado para o futuro: que se invoque a solidão antes de ela se fazer presente. Que as rédeas sobre ela tenha-as tu, pois bicho nenhum é mais selvagem do que a solidão inesperada. Não a temas; ela fareja o medo e o retribui com as mordidas mais profundas que a tua alma jamais sentiu. Mestre é aquele que fez da solidão uma amiga leal. Respeitemo-la. Amemo-la.
18 de abril de 2017
Na crise
Nada mina tanto o potencial da humanidade quanto a perspectiva de conforto no futuro.
6 de abril de 2017
Consolo de si para si
Quando sentir vontade de desistir, desista o mais rápido possível. Que venha — e vá — a dor, a culpa, o choro, o medo. Nos nossos tempos, a força está com aqueles que reconhecem em si as fraquezas. Sem as bajular, mas sem as desmerecer. Mora um suicida em nós. Estendamo-lhe a mão, convidemo-lo para um chá. Paradoxalmente, ele irá embora quando o deixarmos entrar. Aos poucos, por debaixo dos panos, a nossa força se cultiva e de surpresa ela nos arrancará de nós mesmos — coisas incríveis faremos quando menos esperarmos. E é sempre assim. Em silêncio nos tornamos quem somos: o grito e o choro do parto são senão a coroação de um longuíssimo processo intra-uterino. E é de surpresa que nascemos. A queda não é falta de força. O crescimento obedece ao movimento de pulsão (encolhem e expandem). Os músculos se desenvolvem no descanso. A flexibilidade vem do relaxamento. O não precede o sim. O amor — — virá.
Os mestres que queremos ser
Nós, que fomos criados sem pai, sofremos duplamente quando tentamos nos superar. Falta-nos a profundeza do amor de um mestre que não nos poupa; de forma que, ao se nos exigir força e enfrentamento, sentimos apenas a dor e interpretamos as ordens como raivosa vingança — pois só isto conhecemos em nosso coração. Precisamos parar de nos vingar de nossos pais, abandoná-los por completo. O pai amoroso de que carecemos, nós mesmos o seremos; e para isso precisaremos receber nossas fraquezas, vícios e defeitos com braços abertos. Mais profundamente do que nos amaram precisaremos nos amar. Acima e abaixo de toda ordem deveremos nos impor com peito aberto e criar amor ali onde não o há. As crianças medrosas que éramos seremos de novo e de novo, mas não para sempre: pois de cada choro retornamos convalescidos e fortes, cada vez mais paternais conosco, cada vez mais carinhosos e firmes — cada vez mais impetuosos e exigentes. O nosso coração nos exige a força. E, uma vez que abdiquemos de a receber do berço, de nosso Pai, uma vez que nos aceitemos órfãos de Deus — aí sim poderemos começar nossa ascensão. Matamos nossos pais para que pudéssemos parir a nós mesmos. Tornamo-nos ateus como quem se torna criminoso. E perdoados — por nós mesmos! — renascemos. Amai. Amém.